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Dia das Crianças: Da MPB à estante infantil, arte para gente pequena

Dia das Crianças: Da MPB à estante infantil, arte para gente pequena


Bichos que desafinam, animais que se rebelam, personagens do folclore ameaçados pelo esquecimento e crianças que aprendem a fazer amizade com a própria escuridão. Na música e na literatura brasileiras, a infância já rendeu muito mais do que cantigas de ninar: virou inspiração para artistas que encontraram no universo dos pequenos novas maneiras de brincar com palavras, sons e ideias.


Neste Dia das Crianças, vale revisitar essas incursões que aproximam gerações e embaralham as fronteiras entre o entretenimento infantil e a criação artística.


De Vinicius de Moraes a Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes ou Emicida, a lista revela músicos que fizeram da curiosidade infantil um convite a novas criações.




Bichos, bichos e mais bichos

Os poemas de “A Arca de Noé” foram escritos por Vinicius de Moraes para os filhos e publicados em livro em 1970. A adaptação musical chegou em dois discos, lançados em 1980 e 1981, com grande elenco da MPB: Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, Ney Matogrosso, Alceu Valença, Moraes Moreira, Boca Livre, MPB4, Marina Lima, Toquinho, Fábio Jr., Walter Franco, As Frenéticas, entre outros. Os bichos ganharam timbres diferentes, provando que canção infantil pode ser sofisticada e musicalmente diversa.


Chico Buarque adaptou para o Brasil “Os Saltimbancos”, versão de “I Musicanti”, de Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov, inspirada no conto “Os Músicos de Bremen”, dos Irmãos Grimm. A história de animais que se juntam para enfrentar a exploração virou um dos musicais infantis mais conhecidos do país.


Rock, poesia e brincadeira

Adriana Calcanhotto criou Adriana Partimpim, persona dedicada às crianças que não é mero diminutivo de sua obra adulta. Com quatro álbuns, o projeto brinca com repertórios e arranjos, convidando os pequenos a descobrir música sem fronteiras rígidas entre o “para elas” e o “para todo mundo”.


Já a convivência com os filhos deu origem a “Pequeno Cidadão”, projeto de Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra, Taciana Barros e Antônio Pinto, com uma mistura de rock, MPB e poesia, apostando em composições inteligentes sem tratar a criança como ouvinte passiva. Arnaldo já havia entrado nesse universo com “Lavar as Mãos”, canção conhecida no “Castelo Rá-Tim-Bum” que transformou uma tarefa cotidiana em refrão irresistível.


Da canção para a página

Também há quem se aventure na literatura. O rapper Emicida levou para os livros temas que atravessam sua música. “Amoras” (2018), nascido de uma canção homônima, celebra identidade negra e autoestima; “E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas” (2020) encara o medo com delicadeza, sem fingir que ele desaparece por mágica.


Já a “Rainha do Rock” Rita Lee criou um universo próprio com a série infantil “Dr. Alex” e com “Amiga Ursa: Uma história triste, mas com final feliz”, inspirado na história real de uma ursa-polar mantida em condições inadequadas. Zeca Baleiro, que já compunha para teatro infantil, levou ao livro “Quem tem Medo de Curupira?” (2016), em que personagens do folclore brasileiro temem cair no esquecimento. Nando Reis publicou “Meu Pequeno São Paulino” (2009), aproximando futebol, afeto e leitura.


Recentemente, em setembro, a cantora e compositora carioca Letrux lançou “Glorinha vai ao Fundo”, com ilustrações de Caio Filipe, acrescentando outra aventura à conversa entre música e literatura.


Essas são obras que respeitam a inteligência dos pequenos e mostram que, para entrar no mundo da criança, não é preciso diminuir o tamanho da arte.

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