Nordeste Magazine
Cultura

Desligue o cérebro e se divirta com o espetáculo — o filme com Ryan Reynold na Netflix

Desligue o cérebro e se divirta com o espetáculo — o filme com Ryan Reynold na Netflix

“Lanterna Verde” é um projeto que tenta abarcar o infinito de um universo cósmico, mas se perde no próprio vácuo que cria. A proposta de transpor para o cinema uma das mitologias mais complexas da DC exigia uma arquitetura narrativa robusta, capaz de sustentar o peso simbólico de um herói que, em essência, é a corporificação da vontade. O problema é que o filme parece incapaz de compreender o que significa essa palavra.

A jornada de Hal Jordan deveria representar o dilema entre medo e coragem, o enfrentamento do instinto de autopreservação que paralisa e o impulso ético que liberta. No entanto, o roteiro reduz essa dialética a uma sucessão de cenas previsíveis, onde a superação pessoal é tratada como um rito burocrático. O protagonista não amadurece — apenas muda de figurino. A ausência de densidade emocional não é um detalhe técnico; é um sintoma de uma narrativa que ignora a dimensão simbólica daquilo que pretende contar. O anel, que deveria ser metáfora do poder criador da mente, torna-se um adereço sem carga filosófica.

A estrutura do filme revela um desequilíbrio entre o tempo destinado à construção de universo e o tempo dedicado à formação do personagem. A pressa em justificar a existência de alienígenas, corporações intergalácticas e ameaças cósmicas acaba por diluir qualquer senso de urgência humana. A consequência é um paradoxo curioso: quanto mais o filme tenta expandir seu escopo, mais estreito ele se torna em termos de significado. Em duas horas, tenta-se condensar uma mitologia que nos quadrinhos se desenvolveu ao longo de décadas. O resultado é a impressão de um mundo vasto, mas vazio, uma grandiosidade sem substância.

Há, ainda, uma questão de coerência tonal. O diretor opta por um registro híbrido entre a aventura ligeira e a epopeia de autoconhecimento, sem jamais encontrar um eixo estável. A tentativa de alternar leveza e solenidade produz uma instabilidade desconfortável: o humor banaliza o que deveria ser trágico, e a solenidade soa deslocada diante da superficialidade dos diálogos. Esse descompasso destrói qualquer possibilidade de imersão. O espectador percebe o artifício, mas não a intenção.

O vilão Parallax, que nos quadrinhos encarna o medo como força cósmica, é reduzido a um espectro amorfo, um monstro genérico, desprovido de sentido metafísico. Isso compromete o conflito central, que deveria ser interno antes de ser externo. O herói não vence o medo: apenas o derrota graficamente. O filme se satisfaz em traduzir conceitos em efeitos visuais, como se a luz verde do anel pudesse substituir o trabalho de um argumento sólido. É um erro comum no cinema contemporâneo: supor que a estética pode suprir a ausência de pensamento.

Ryan Reynolds, apesar do carisma, parece aprisionado em um roteiro que não lhe permite explorar a ambiguidade do personagem. Sua performance é eficiente, mas sem densidade. Fica evidente que a direção não sabe o que fazer com ele: tenta moldá-lo como o típico herói relutante, mas sem o estofo psicológico necessário para justificar sua relutância. Falta a ele, e ao filme, uma consciência de propósito.

Há um ponto ainda mais grave: ”Lanterna Verde” é um exemplo de como Hollywood reduz a mitologia a um produto de consumo rápido. O universo dos Lanternas, com sua complexa estrutura ética baseada na vontade e no medo, é simplificado até o esvaziamento. Tudo se transforma em espetáculo, e o espetáculo, sem substância, perde sua função simbólica. O cinema de super-heróis, quando perde sua dimensão trágica, torna-se apenas ruído.

O fracasso de ”Lanterna Verde” não é apenas uma questão de falhas técnicas, mas a uma incompreensão do próprio gênero que tenta habitar. Adaptar uma narrativa mítica exige mais que efeitos e carisma: exige compreensão da relação entre o humano e o cósmico, entre o medo e o desejo de transcendência. O filme não falha por ser fantasioso, mas por não acreditar verdadeiramente na sua fantasia.

Resta a sensação de um universo em potencial, mas abortado por falta de coragem intelectual. O espectador não lamenta apenas o que viu, mas o que poderia ter sido, um épico sobre a força da mente e a responsabilidade do poder, reduzido a uma colagem de clichês luminosos. “Lanterna Verde” é o retrato de uma época em que a imaginação foi substituída pela pressa e o heroísmo, pela estética do marketing. A verdadeira luz, a da reflexão, permanece apagada.

Filme:
Lanterna Verde

Diretor:

Martin Campbell

Ano:
2011

Gênero:
Ação/Aventura/Ficção Científica

Avaliação:

6/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Veja também

Câmara reconhece hip hop como manifestação da cultura nacional

Redação

Festi’Ouro, em Flores, celebra centenário de Moacir Santos com muita música instrumental

Redação

Carolina Dieckmann explicou por que evita depoimentos relacionados a Preta Gil; entenda

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.