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Denzel Washington em um dos maiores suspenses policiais dos anos 90, na Netflix

Denzel Washington em um dos maiores suspenses policiais dos anos 90, na Netflix

“O Colecionador de Ossos”, dirigido por Phillip Noyce, acompanha o ex-investigador Lincoln Rhyme (Denzel Washington), um policial tetraplégico que abandona a ideia de morrer assistido quando uma sequência de assassinatos violentos começa a assustar Nova York e obriga a jovem policial Amelia Donaghy (Angelina Jolie) a atuar como seus olhos nas cenas do crime.

Lincoln já foi uma referência dentro da polícia. O acidente que destruiu seus movimentos também levou embora a autoridade que ele tinha nas ruas. Preso a equipamentos médicos e dependente de enfermeiros para qualquer atividade, ele vive isolado em um apartamento cheio de livros, mapas e fotografias de casos antigos. Quando uma vítima aparece morta perto de trilhos de trem, Amelia acaba envolvida quase por acidente. Ela percebe detalhes ignorados pelos outros policiais e impede que a cena seja contaminada antes da chegada da perícia. O gesto chama a atenção de Lincoln.

Amelia não possui o perfil tradicional dos investigadores admirados pela polícia nova-iorquina. Ela é insegura, carrega traumas ligados ao suicídio do pai e trabalha em funções menores dentro do departamento. Ainda assim, Lincoln insiste para que ela participe da investigação. Existe um motivo simples para isso. Amelia observa o ambiente sem arrogância. Enquanto agentes experientes entram nas cenas procurando algo grandioso, ela percebe pequenas marcas, objetos fora do lugar e sinais deixados pelo criminoso.

O assassino trabalha com crueldade meticulosa. Ele sequestra vítimas dentro de táxis, abandona pessoas presas em lugares apertados e espalha pistas que parecem saídas de livros antigos de criminologia. Cada descoberta leva Amelia para corredores subterrâneos, construções abandonadas e túneis escuros que deixam o filme constantemente sufocante. Phillip Noyce filma esses espaços com uma frieza quase clínica. A sensação é de que Nova York inteira virou um grande depósito vazio esperando o próximo cadáver aparecer.

A polícia perde tempo

Grande parte da tensão nasce da relação entre Lincoln e Amelia. Ele possui experiência, memória e capacidade de interpretar evidências. Ela precisa correr atrás das pistas fisicamente, muitas vezes sem apoio adequado da própria polícia. Em várias cenas, Amelia chega primeiro aos locais do crime enquanto investigadores mais graduados discutem burocracia ou disputam autoridade dentro da delegacia. Isso cria um desgaste permanente porque qualquer atraso significa outra vítima morta.

Angelina Jolie funciona muito bem nesse clima de insegurança constante. Amelia parece cansada antes mesmo da investigação avançar. Ela entra em apartamentos escuros, abre portas enferrujadas e examina corpos mutilados sem demonstrar coragem heroica. Existe medo ali o tempo inteiro. O filme acerta ao mostrar que policiais também hesitam, erram e sentem pavor quando percebem que podem ser os próximos alvos.

Denzel Washington segura boa parte da narrativa apenas com voz, expressão facial e pequenas alterações de tom. Lincoln quase não sai da cama, mas lidera a investigação à distância. Ele interrompe médicos, pressiona colegas e obriga Amelia a procurar detalhes específicos em cenas caóticas. Há momentos em que ele parece insuportável. A pressa transforma qualquer dúvida da parceira em irritação. Ainda assim, o personagem ganha força justamente por não virar um gênio carismático de televisão. Lincoln está exausto, deprimido e profundamente irritado por depender dos outros até para beber água.

Queen Latifah aparece pouco, mas acrescenta humanidade ao filme interpretando Thelma, enfermeira responsável pelos cuidados de Lincoln. Ela lembra constantemente que aquele homem brilhante continua vulnerável. Enquanto investigadores correm atrás do assassino, Thelma precisa lidar com remédios, aparelhos médicos e crises físicas que podem matar Lincoln antes mesmo de o criminoso ser encontrado.

Pistas espalhadas pela cidade

O roteiro mantém a investigação sempre movimentada porque o assassino deixa enigmas em sequência. Um pedaço de papel escondido em uma cena leva a um livro antigo. Um símbolo encontrado perto de um corpo aponta para outro endereço. Um osso retirado da vítima indica uma nova armadilha. O filme constrói suspense usando tempo. Amelia quase sempre chega atrasada por poucos minutos. Em alguns momentos, ela consegue ouvir vítimas respirando antes de perceber que o local inteiro foi preparado para atrasar o resgate.

Phillip Noyce também trabalha muito bem a limitação física de Lincoln sem transformar o personagem em mártir inspirador. Existe até certo humor amargo em algumas cenas. Lincoln faz comentários secos, reclama da equipe médica e trata colegas incompetentes com absoluta falta de paciência. O diretor mantém o foco no caso criminal e impede que a história fique sentimental demais.

“O Colecionador de Ossos” carrega elementos típicos dos thrillers policiais dos anos 1990. Há chuva constante, corredores industriais, iluminação azulada e serial killers fascinados pela própria inteligência. Ainda assim, o filme permanece eficiente porque nunca abandona o ponto de vista dos investigadores. O espectador acompanha o desgaste físico de Amelia e a frustração de Lincoln conforme os crimes aumentam.

Quando a investigação se aproxima do criminoso, o suspense aumenta porque Amelia passa a perceber sinais de que ela também entrou no jogo do assassino. A ameaça deixa de estar apenas nos túneis ou nos apartamentos abandonados. Ela invade espaços comuns, transforma qualquer ligação telefônica em motivo de tensão e obriga Lincoln a continuar trabalhando mesmo sem condições físicas para isso. O filme encerra a investigação mantendo a pressão alta até os minutos finais, sem abandonar o clima sombrio que sustenta toda a narrativa.



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