A Decolar está entrando em uma nova fase de expansão com uma meta que combina escala, tecnologia e uma participação ainda maior do Brasil nos negócios. Depois de faturar US$ 804 milhões no ano fiscal encerrado em março de 2026, a companhia projeta superar US$ 1 bilhão no próximo ano fiscal e pretende mais que triplicar de tamanho até 2030. O plano passa pelo mercado brasileiro, que já responde por cerca de 40% das vendas da empresa e deve chegar a 50%, segundo Rafaela Rezende, CEO da Decolar no Brasil.
A ambição ganhou força depois da aquisição do grupo Despegar pela Prosus, em maio de 2025. A operação colocou a Decolar dentro de um ecossistema que reúne empresas como iFood, OLX Brasil e Sympla na América Latina. Para Rezende, a mudança também criou espaço para uma estratégia mais agressiva de crescimento, com maior autonomia para as operações locais.
“Desde que a Decolar foi comprada, vieram planos e sonhos muito ambiciosos. A gente tem o objetivo de mais do que triplicar o tamanho da empresa até 2030”, afirma a executiva.
O Brasil passou a ocupar uma posição ainda mais importante nessa equação. A operação brasileira ganhou autonomia em algumas decisões de marca e passou a desenvolver estratégias específicas para o mercado local. A companhia pretende ampliar a participação brasileira nas vendas justamente enquanto busca aumentar o tamanho total do negócio. “A expectativa é elevar essa participação para 50%”, diz Rezende.
A inteligência artificial que já vendeu uma viagem
Entre os projetos que melhor traduzem a nova estratégia está a Sofia, agente de inteligência artificial da Decolar. A ferramenta já realizou, segundo a CEO, sua primeira venda de forma autônoma, sem apenas orientar o consumidor durante a pesquisa.
A Sofia teria conduzido todo o processo, desde a apresentação das opções até a reserva, emissão e pagamento. O avanço coloca a inteligência artificial dentro de uma etapa diretamente ligada à receita da companhia, e não apenas como ferramenta de atendimento ou suporte.
“Ela não só ofereceu as melhores opções para o consumidor dentro de um contexto que ele trouxe, mas executou todas as etapas do processo de compra até a emissão da reserva e o pagamento”, afirma.
Para Rezende, esse é justamente o ponto central do investimento em inteligência artificial. A tecnologia precisa resolver uma questão concreta para quem está comprando uma viagem.
“O objetivo aqui não é a gente falar que tem IA na nossa empresa, mas como a gente usa IA para efetivamente gerar um benefício de negócio, que é melhorar a experiência do nosso consumidor, salvando o tempo desse consumidor na ponta.”
A Decolar se define como uma travel tech e mantém a tecnologia como uma das principais bases para sustentar o crescimento. Segundo a executiva, os investimentos anuais da companhia nessa área são parte importante da operação.
“Nós somos uma travel tech, afinal, a tecnologia está no nosso DNA. Investimos, em média, anualmente mais de 100 bilhões de dólares em tecnologia”, diz.
Canais digitais continuam no centro
Mesmo com a aposta em novas tecnologias, a empresa mantém uma estrutura física no país. Atualmente, são 21 lojas da Decolar no Brasil. Não existe, porém, um plano definido para acelerar a expansão desse formato, já que os canais digitais continuam concentrando a maior parte das vendas.
A estratégia combina, portanto, diferentes pontos de contato com o consumidor, enquanto a companhia tenta tornar a jornada de compra mais automatizada e personalizada.
Parceria com iFood já responde por parte do crescimento
A expansão também passa por empresas que fazem parte do mesmo ecossistema da Prosus. Um dos principais exemplos é a parceria entre Decolar e iFood, criada a partir de um modelo de cashback.
O consumidor acumula benefícios a partir das compras realizadas no aplicativo de delivery e pode utilizar o valor em viagens, hotéis e experiências oferecidos pela Decolar. Segundo Rezende, o modelo já ganhou escala e passou a representar uma parcela relevante do crescimento da companhia.
“A gente testou três ou quatro modelos até chegar nesse modelo de cashback, que hoje a gente entende que já está em momento de escala”, afirma.
De acordo com a executiva, a parceria responde por mais de 25% do crescimento da empresa. O próximo passo pode envolver acordos semelhantes com outras companhias, inclusive em outros mercados da América Latina. Ainda não há novos contratos anunciados, mas a Decolar já avalia possibilidades de replicar a estratégia.
B2B amplia o negócio para além do consumidor final
A empresa também pretende crescer em áreas que não aparecem diretamente para quem acessa o site ou o aplicativo para comprar uma viagem. O B2B é uma dessas frentes. A Decolar fornece produtos para outras agências de viagens e também trabalha com empresas que utilizam seu catálogo para vender viagens e experiências aos próprios clientes. O modelo B2B2C inclui parceiros como bancos e varejistas.
“Temos três negócios principais: a venda direta pelo site, app, lojas e televendas; o B2B, em que somos parceiros de outras agências de viagens; e o B2B2C, em que oferecemos nosso catálogo para empresas parceiras como bancos e varejistas, que vendem viagens e experiências.”
A diversificação permite que a companhia amplie sua distribuição sem depender somente do consumidor que procura diretamente pela marca.
Brasil ganha mais espaço nas decisões da Decolar
A mudança na estratégia também aparece na forma como a Decolar trabalha sua marca no Brasil. Segundo Rezende, anteriormente decisões eram tomadas de maneira regional e posteriormente levadas para diferentes países. Agora, a operação brasileira passou a ter mais autonomia.
A Copa do Mundo foi um dos primeiros exemplos dessa mudança. A empresa escolheu um parceiro local e realizou, segundo a CEO, o maior investimento em marca da companhia na região.
O resultado, de acordo com Rezende, foi percebido tanto nas vendas quanto nos indicadores de conhecimento e consideração da marca. A intenção é manter esse movimento para ampliar a proximidade com o consumidor brasileiro.
“A gente entra num outro momento, num novo contexto. O que a gente sabe é que, para entregar o que precisa entregar, a gente precisa fazer diferente do que vinha fazendo”, afirma.
Decolar não vê necessidade de sair da América Latina
Apesar da meta de crescimento até 2030, a companhia não considera uma expansão para fora da América Latina como prioridade. A Decolar está presente em 19 países e, segundo a executiva, ainda existe espaço para avançar nos mercados onde já possui operação. “Não é necessário a gente olhar para fora para entregar o que precisa entregar. A gente ainda tem um espaço de crescimento muito grande, tanto no Brasil como nos outros 18 países em que atua.”
Aquisições também são acompanhadas pela companhia, mas não existe atualmente uma negociação avançada. “A gente está sempre olhando, claro, avaliando o mercado, entendendo o que tem de oportunidade e de possibilidade. Mas hoje não tem nada quente que a gente possa falar.”
A estratégia, por enquanto, é crescer sobre a estrutura já existente e encontrar novas formas de ampliar receita e participação de mercado.
Os “jet skis” para testar novos negócios
Uma das ferramentas usadas pela gestão para encontrar essas oportunidades são os chamados “jet skis”, projetos experimentais criados ao redor do negócio principal. A ideia é testar novas fontes de receita e margem sem tirar o foco da operação que sustenta a empresa. A expressão também faz parte da cultura empresarial trazida por Rezende de sua experiência anterior no varejo.
“Temos vários jet skis dentro da empresa, e o jet ski nada mais é do que tentativas de criar novos negócios, tentativas de descobrir novas alavancas de crescimento, de receita, de margens sustentáveis”, afirma.
A estratégia mantém o negócio principal como prioridade enquanto novas iniciativas são avaliadas.
Os números projetados mostram o tamanho da ambição. O valuation estimado pela companhia prevê uma evolução de US$ 1,7 bilhão em 2025 para US$ 6 bilhões até 2030. Em 2025, as vendas do Grupo somaram aproximadamente R$ 33,5 bilhões na América Latina, sendo R$ 13,4 bilhões no Brasil.
Para chegar ao próximo patamar, a Decolar pretende combinar o crescimento brasileiro com a expansão nos demais mercados latino-americanos. A companhia aposta em parcerias, distribuição B2B, inteligência artificial e novas formas de relacionamento com o consumidor.
O primeiro marco está mais próximo: superar US$ 1 bilhão em faturamento. Depois, a meta é multiplicar esse tamanho até 2030, com o Brasil ocupando uma posição ainda maior dentro da operação.
*Com informações de Exame
