A perda de confiança no sistema financeiro internacional comandado pelos Estados Unidos está provocando um movimento silencioso — porém profundo — de realocação de reservas ao redor do mundo. A mudança, descrita por gestores como estrutural e irreversível, tem o ouro como grande vencedor e pressiona a posição histórica do dólar como moeda dominante das transações globais.
Bruno Garcia, sócio e gestor da Truxt Investimentos, resume o fenômeno sem rodeios: “O ouro está ganhando por W.O.”, afirma. Segundo ele, não há fuga massiva dos EUA, mas um desvio marginal de fluxo que, em mercados menores, provoca forte impacto nos preços e nas dinâmicas de poder econômico.
Quem detalha as raízes desse movimento é Artur Carvalho, sócio e economista-chefe da gestora. Para ele, o cenário atual não lembra crises fiscais convencionais, como as do Reino Unido ou Japão. A desvalorização do dólar, diz, nasce da busca internacional por independência de um sistema financeiro que passou a ser enxergado como instrumento geopolítico.
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É nesse contexto que o Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, recebeu os dois especialistas para explicar por que o mundo está, aos poucos, saindo da órbita exclusiva do dólar.
Carvalho trouxe exemplos práticos da mudança em curso. Ele citou o avanço do uso do yuan nas trocas da China com grandes fornecedores, como a brasileira Vale (VALE3), e a reorganização das reservas estratégicas de países dependentes de commodities.
“Se eu sei que vou precisar de petróleo, por que não encher a reserva estratégica de petróleo em vez de ficar estacionado em Treasuries que podem ser congelados ou perder valor?”, questionou o economista. A lógica é simples: quanto menos o mundo precisa de dólares para transacionar, menor o prêmio histórico associado à moeda.
Esse redesenho, embora gradual, reduz um dos principais pilares da hegemonia americana: a demanda global permanente por ativos denominados em dólar. E, segundo Garcia, gera um risco sistêmico crescente para os EUA.
Garcia foi direto ao ponto: “Os EUA têm déficit fiscal e déficit em conta-corrente. Se o mundo não quiser mais dólares, os juros exigidos para financiar os EUA precisam subir.” A conta é inevitável — e potencialmente explosiva.
Juros mais altos encarecem o crédito, atingem empresas e famílias e corroem a competitividade americana. A própria palavra “crédito”, lembrou o gestor, vem do verbo acreditar:
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“Quando você teme que o governo use a dívida como arma, você prefere carregar outra coisa.”
O mundo ainda abriga cerca de US$ 38 trilhões em ativos lastreados em dólar, mas o fluxo marginal já está mudando. O primeiro passo foi manter esses ativos e hedgear o câmbio; o segundo, vender lentamente.
Carvalho reforçou a gravidade do processo: recuperar confiança, disse ele, é muito mais difícil — para não dizer quase impossível.
Collazo questionou os convidados do Stock Pickers sobre o papel das eleições de meio de mandato. A resposta foi praticamente unânime: são relevantes, mas insuficientes.
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Carvalho apontou para fatores mais profundos, citando decisões da Suprema Corte que definirão se Donald Trump poderá usar instrumentos emergenciais para impor tarifas. “A justificativa para tarifas generalizadas é tecnicamente frágil, porque não existe emergência econômica que a sustente,” afirmou.
A decisão judicial pode limitar ou liberar ferramentas que ampliariam ainda mais a tensão geopolítica. Mas, mesmo que o governo perca poder ou respaldo legal, os especialistas são céticos: a confiança dificilmente voltará ao nível anterior.
E sem confiança, a engrenagem global construída no pós-Segunda Guerra range mais a cada mês.
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Na parte final do programa, Garcia evocou estudos do megainvestidor Ray Dalio para ilustrar o momento histórico. Segundo ele, “estamos migrando de um ciclo de estabilidade para uma fase marcada por rupturas e aumento do risco de conflitos.”
“A confiança é um ativo escasso. Demora muito para ganhar e é muito fácil perder. Eu não acho que dá para colocar esse dente de volta no tubo,” disse o gestor.
Carvalho concordou: o movimento é estrutural e tem um eixo claro — o mundo não quer mais depender do dólar a qualquer preço.
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Apesar dos riscos, países emergentes como o Brasil podem encontrar oportunidades nessa transição. Serão, como disse Carvalho, “um vagão pequeno”, mas com espaço para ganhos relevantes. Para investidores, porém, o alerta é inequívoco: a ordem econômica global está mudando rápido — e talvez não tenha mais retorno.
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