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Confira entrevista com Milhem Cortaz, o Juarez de “por você”

Confira entrevista com Milhem Cortaz, o Juarez de “por você”


Uma única decisão é suficiente para desmontar a imagem que Juarez construiu de si mesmo ao longo de uma vida. Em “Por Você”, novela das 19h da Globo, o feirante interpretado por Milhem Cortaz provoca o acidente que mata Juli, papel de Lucy Ramos, foge sem prestar socorro e só depois descobre a identidade da vítima.

A tragédia transforma em tormento a rotina de um homem até então íntegro, trabalhador, dedicado à mulher Iara e à filha Dalila, feitas por Noemia Oliveira e Lívia Silva. Para Milhem, era fundamental que o público conhecesse o homem antes de julgá-lo pelo erro.




“Busquei construir um caminho humano para o Juarez, para quando esse acontecimento trágico acontecesse na vida dele, virando seu mundo de cabeça para baixo, eu pudesse estar aberto e receber isso – uma situação em que o personagem realmente não sabe o que fazer”, explica.


Quanto mais Juarez tenta preservar a família, mais o segredo o isola. O comerciante chega a ir a uma delegacia disposto a confessar, mas recua diante do medo de ser preso e perder tudo o que construiu. Ao mesmo tempo, permanece perto dos filhos de Juli e acompanha o sofrimento provocado pela ausência da amiga.


“Juarez tem um amor muito grande pela família da Juli. Em tudo que ele podia ajudar, ele ajudava aquela amiga tão especial para ele. Ele se sente responsável por todas as coisas ruins que aconteceram”, ressalta Milhem. Mais do que escapar das consequências legais, o maior temor do feirante está dentro de casa. “Se a família dele resistirá a tudo isso, eu não sei. E esse é o maior medo do personagem”, completa.


P – Como você vê o Juarez e essa tragédia que ele enfrenta, desde o primeiro capítulo de “Por Você”?

R – É uma tragédia, mas é uma tragédia muito humana. E eu acho que todo mundo tem um pouco dela dentro de si. De alguma forma, todas as pessoas, sendo elas felizes ou não, já morreram um pouquinho. E é essa pequena morte que ele vive.

P – Que tipo de morte?

R – Para um homem que é justo, íntegro, que é família, aberto para a modernidade da vida, solar, que desce o morro feliz, monta aquela barraca da melhor forma possível e que faz a mulher dele ser uma rainha, que trata a filha com liberdade e, ao mesmo tempo, disciplina, tudo isso torna mais difícil lidar com as culpas dele, com as coisas que ele causa.

Para conseguir dividir com a mulher, ele tem de estar muito seguro do que fez. Eu acho que ele demora bastante tempo para ter essa consciência. Tem uma cena linda, que eu acho que é a virada do Juarez nessa história toda, de como ele encara esse lugar. Depois dessa virada, acho que ele consegue.

P – Você veio de um papel bem-sucedido em “Volta por Cima”, mas falava que vivia uma solidão no Rio porque sua família e amigos ficavam em São Paulo. Como fica isso agora?R – De alguma forma, para mim, isso é bom. Cada vez estou me levando menos a sério, tentando aproveitar mais o Rio de Janeiro, os meus amigos e fazer disso um impulso para os meus trabalhos dentro da televisão. Essa leveza está fazendo com que eu me torne um ator melhor. Eu acho que eu nunca me preocupei com o sucesso ou com o tamanho que “Volta por Cima” trouxe para mim.

Nessa novela (“Por Você”), essa solidão que eu tenho em casa me traz, dentro desse mergulho, para a solidão que esse personagem (Juarez) tem. Apesar de ser um cara muito amado, que tem uma família muito bem estruturada, ele não vai se sentir sozinho de pessoas: ele vai se sentir sozinho dele mesmo.

P – Como assim?

R – Juarez vai descobrir, nesse trajeto dele, um monte, uma série de coisas pessoais que ele já vem buscando. Apesar de ser um homem de favela, que trabalha em feira e motorista de aplicativo, ele é de uma família preta, casado e com duas mulheres guerreiras em casa. Uma esposa guerreira e uma filha muito livre. Ele aprende com tudo isso, porque é um homem aberto para a vida.

Essa liberdade na rua, do trabalho dele ser colorido, com frutas, alimentando as pessoas, tendo não de se preocupar com a qualidade do produto, mas sim com o que ele entrega no dia a dia delas, faz dele um observador de pessoas. Juarez sabe dialogar e o que entregar àquelas pessoas que ele conhece. Esse tipo de observação é muito próxima da de um ator.

Traz um apuramento maior para a vida, apesar de ele não ter uma escolaridade. A escolaridade nem interessa, o que interessa é essa delicadeza da vida e desse olhar. Isso traz um amadurecimento junto com essa família de mais de 20 anos, onde ele é feliz, onde ele concretizou a vida dele e que faz dele, hoje, um homem pleno. Tudo isso traz uma maturidade que nenhum outro personagem meu teve.

P – Você se identifica com isso?

R – Eu sou casado há 25 anos e tenho uma filha de 18. Com toda essa liberdade, ser um homem inserido dentro do feminismo, em busca da transformação desse machismo estrutural, eu acho que o meu personagem carrega isso inconsciente – e muito consciente pelas informações que vêm da família dele.

Então, assim, é um personagem complexo, desafiador, pobre, favelado, que trabalha inserido dentro da classe média alta da Zona Sul, mas que sabe o espaço que ocupa e, com isso, ele consegue dar para as pessoas o que elas precisam. Isso é maturidade, isso é sabedoria, uma sabedoria popular. E é nesse lugar que eu quero trabalhar – no popular.

P – Por quê?

R – Hoje, o que me interessa são as pessoas, o povo, os marginalizados, os idosos, as crianças, os adolescentes, as travestis, os refugiados, os moradores de rua… é com essas pessoas que eu quero falar, é com essas pessoas que eu tenho comunicação imediata nas ruas. Eu represento um pouco essas pessoas e quero representar cada vez mais.

Quero fazer sempre novelas mais populares, com personagens mais populares. A minha meta é essa: me tornar popular. Dessa novela para a outra, teve uma entrevista que eu dei falando do meu projeto social, um milionário assistiu e assistiu uma entrevista minha ao Marcelo Tas, que é meu amigo e me deixou muito à vontade para expor a minha vida.

Daí, nasceu um projeto e hoje, na minha padaria, trabalham dois meninos da Fundação Casa e uma travesti. Agradeço sempre a imprensa, a comunicação independente, os veículos menores, sites, por me dar espaço para que eu possa fazer isso.


“Por Você” – Globo – Segunda a sábado, na faixa das 19h. Reprise alternativa na madrugada.


Caminho popular

Aos 54 anos, Milhem Cortaz atravessa uma fase especialmente movimentada de sua trajetória na televisão. Antes de Juarez, o ator ganhou destaque como Osmar, um dos personagens centrais de “Volta por Cima”, novela das 19h exibida entre 2024 e 2025. Mas o espaço conquistado nos folhetins foi construído gradualmente.

Depois de pequenas participações na Globo, foi na Record que passou a emendar trabalhos com maior regularidade. Uma participação em “A Escrava Isaura”, em 2005, abriu caminho para “Essas Mulheres”, “Cidadão Brasileiro” e novas aparições rápidas em “Bicho do Mato” e “Vidas Opostas”, até ganhar mais projeção na emissora como o bombeiro Cazé de “Chamas da Vida”, entre 2008 e 2009.

Anos depois, viveria o sanguinário Abbas, vilão da minissérie bíblica “Sansão e Dalila”. “Desde quando comecei, tudo que conquistei veio com sofrimento, lutas, batalhas, muitos testes, mas foi uma trajetória que me deixa muito feliz hoje”, avalia ele, que trabalhou na Record até “A Terra Prometida”, exibida entre 2016 e 2017.

Esse desejo de aproximação com o público ultrapassou a atuação. Durante a pandemia, Milhem começou a fazer pães em casa e distribuir entre amigos e vizinhos. O passatempo virou negócio e ele montou uma padaria artesanal na garagem de casa, em São Paulo, conciliando desde então a panificação com a carreira artística.

Mais recentemente, a experiência também ganhou uma dimensão social com o projeto Pão Bom Pra Todo Mundo, voltado à formação profissional e à criação de oportunidades para grupos em situação de vulnerabilidade.

A escolha se conecta diretamente ao lugar que o ator deseja ocupar também artisticamente. “Hoje, não me interessa ser um grande ator, me interessa ser um ator muito popular para poder ajudar todo mundo”, resume.


Paixão em tela

O cinema acompanha Milhem Cortaz desde os primeiros anos de sua trajetória. Sua estreia nas telas aconteceu ainda na década de 1990, mas foi com Peixeira, em “Carandiru”, de Hector Babenco, em 2003, que conquistou seu primeiro papel de maior repercussão.

Quatro anos depois, “Tropa de Elite” ampliaria consideravelmente sua projeção com o Capitão Barbosa, personagem que voltou a interpretar em “Tropa de Elite 2”, de 2010. Desde então, o ator construiu uma extensa filmografia, passando por produções como “O Lobo Atrás da Porta”, “Alemão” e “VIPs”.

Depois de três décadas circulando pelas telas, Milhem acompanha com entusiasmo a atual projeção internacional da produção nacional. “Vivemos agora um momento em que, na América Latina, o Brasil representa um lugar imenso no audiovisual”, celebra.

Nesse movimento, o ator aproveita para valorizar um colega que tem ajudado a projetar o audiovisual brasileiro internacionalmente: Wagner Moura, com quem dividiu o elenco dos dois filmes de “Tropa de Elite”, além de “Carandiru” e “VIPs”. “Wagner é uma referência para mim e o que ele está fazendo por nós precisa ser reconhecido. O mundo todo está olhando para a gente”, destaca.


Instantâneas

# Milhem Cortaz começou no teatro ainda criança, em uma igreja da Mooca, em São Paulo.

# O ator morou na Itália na adolescência, onde fez parte de um grupo de commedia dell’arte e se apresentou pelas ruas.

# Ele passou dois anos e meio atuando no Centro de Pesquisa Teatral, de Antunes Filho.

# A primeira aparição de Milhem Cortaz na tevê como ator aconteceu em 1995, na pele de um capanga em uma participação na novela “A Próxima Vítima”, da Globo.

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