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Como uma empresa japonesa tentou se apropriar do cupuau atravs de um registro de patente

Como uma empresa japonesa tentou se apropriar do cupuau atravs de um registro de patente

No comeo da semana relatamos en passant sobre a tentativa de uma empresa japonesa em registrar a palavra “cupuau” (Theobroma grandiflorum) como marca registrada no Japo e uma srie de outros pases, com o objetivo de monopolizar a comercializao da fruta e seus derivados. Como o assunto interessante, decidimos abord-lo de forma mais criteriosa neste artigo para mostrar como pases e empresas estrangeiras acabam por obter monoplios (patentes) sobre invenes baseadas em recursos brasileiros, forando o prprio Brasil a pagar royalties por produtos desenvolvidos a partir de sua fauna e flora nativas.

Como uma empresa japonesa tentou se apropriar do cupua

A japonesa Asahi Foods registrou o nome “cupuau” e patenteou um processo de produo, que adicionava lecitina de soja, em 1998. Ao deter a marca registrada “cupuau”, a empresa impedia que produtores brasileiros utilizassem o nome em suas exportaes, o que criava um risco de multas para as empresas.

A marca registrada visava abranger produtos derivados da fruta, como geleias, doces e, especificamente, a produo de “cupulado“, um produto semelhante ao chocolate feito com sementes de cupuau, para o qual tambm buscaram uma patente separada.

A Asahi buscou reivindicar direitos exclusivos para comercializar produtos usando o nome comum da fruta, uma medida fortemente criticada como falta de “qualidade distintiva” e uma forma de “apropriao indevida de direitos”.

Entidades brasileiras, ONGs e o governo do Par iniciaram uma batalha jurdica e a mobilizao nacional chamada “O Cupuau Nosso” para cancelar o registro.

Foi assim que em maro de 2004, os “capites bvios” do Escritrio Japons de Patentes cancelaram o registro da marca, alegando que um nome comum para uma matria-prima no poderia ser registrado como marca privada.

O empresrio responsvel, Mack Nagasawa, pediu desculpas formais e assinou um termo desistindo da propriedade, devolvendo o direito ao governo do Par. Esse caso considerado um marco no combate biopirataria no Brasil.

De fato, um projeto de lei que j tramitava no senado desde 2003, tornou-se a Lei n 11.675/2008, inserindo o cupuau como fruta nacional.

Agora, vinte anos aps a vitria do Brasil em relao ao cupuau, confirmando a mxima de que “Cachorro mordido por cobra tem medo de linguia, o Congresso Nacional aprovou e alterou a referida lei, em janeiro passado, para incluir o aa (Euterpe oleracea) sob proteo legal.

O cheiro do cupuau maduro extremamente forte, intenso e caracterstico, sendo facilmente sentido a uma distncia considervel (10 a 20 metros), muitas vezes antes mesmo de se ver a fruta ou a rvore.

Incautos que nunca viram o fruto devem evitar cheir-lo quando estiver muito maduro, pois o p superficial existente sobre sua casca perfuma e irrita at sua alma. Eu sei!

Com efeito, a biopirataria um grande problema para a Amaznia brasileira, gerando srios impactos ambientais, econmicos e sociais. O Brasil, que detm cerca de 20% da biodiversidade mundial, um alvo frequente dessa prtica ilegal.

A apropriao ilegal de recursos e conhecimentos tradicionais por empresas e pesquisadores estrangeiros, que os patenteiam em seus pases, resulta em perdas financeiras para o Brasil, pois o pas e suas comunidades locais no recebem a compensao justa pelo uso desses recursos.

A extrao insustentvel de animais e plantas pode levar sobre-explorao de recursos, desequilbrio ecolgico e at mesmo ameaa de extino de espcies.

As comunidades indgenas e tradicionais, que detm vasto conhecimento sobre a biodiversidade local, muitas vezes no so consultadas nem compensadas adequadamente. Isso prejudica sua subsistncia, seus direitos e a transmisso de seu patrimnio cultural.

Entre os exemplos mais notveis desta explorao podemos citar 6 dos casos mais emblemticos:

  1. As 70 mil sementes de seringueira, que foram roubadas, no sculo XIX, por Henry Wickham para a Inglaterra, quebrando o monoplio brasileiro da borracha e se apropriando provavelmente de bilhes de dlares que poderiam ter aportado em nosso pas.
  2. Estudos brasileiros sobre o veneno da jararaca (Bothrops jararaca), levaram ao desenvolvimento do Captopril para hipertenso, que gera bilhes em lucros para a Squibb (atualmente parte da Bristol-Myers Squibb), sem o devido retorno ao Brasil.

    O mercado global do Captopril apresenta um faturamento expressivo devido sua utilizao contnua como medicamento anti-hipertensivo essencial. Estima-se que o faturamento mundial gerado por este medicamento seja de aproximadamente US$ 5 bilhes por ano; o dobro ou o triplo se levarmos em conta os derivados e genricos.

  1. A histria do cupuau deu cria em 2003, quando outra empresa espertalhona japonesa, a K.K. Eyela Corporation tentou registrar a marca “aa” no Japo, gerando uma disputa internacional de quase cinco anos.

    A Eyela patenteou o processo de extrao e conservao, alm de registrar o prprio nome “aa” como sua propriedade.

    O governo brasileiro, atravs do Departamento de Patrimnio Gentico do Ministrio do Meio Ambiente, conseguiu cancelar o registro da marca em fevereiro de 2007, aps provar que se tratava de um conhecimento tradicional brasileiro.

  2. A secreo da perereca-kamb (Phyllomedusa bicolor) usada por comunidades indgenas em rituais religiosos e por malucos que gostam de ficar chapados, tem sido alvo reiterado de pedidos de patentes para uso em medicamentos.
  3. Muito provavelmentevoc no saiba, mas o jaborandi (Pilocarpus jaborandi) uma das plantas endmicas brasileiras mais exploradas na biopirataria.

    Ela conhecida por ser a nica fonte natural de pilocarpina, um alcaloide utilizado principalmente no tratamento do glaucoma, colrios para reduzir a presso intraocular ou previopia (vista cansada), alm de uma vasta aplicao na cosmtica.

    Estudos recentes demonstraram que compostos do jaborandi tm potencial no combate esquistossomose e na inibio do vrus da Covid-19.

  4. Ademais plantas medicinais utilizadas por comunidades indgenas foram patenteadas por entidades estrangeiras para uso comercial, como relaxantes musculares derivados do curare e da ayahuasca.

Estes so alguns poucos casos conhecidos de biopiratria, mas sob aquela imensido de floresta deve haver outros milhares de ocultos sob o manto do neo-colonialismo europeu.

Eles roubaram e mataram no passado e certamente continuam roubando. A biopirataria na Amaznia muitas vezes no um contrabando bvio de grandes volumes, mas sim uma extrao mais sutil e contnuada muito provavelmente atrs de ONGs.

muita organizao sem fins lucrativos, aproximadamente 80 mil, ganhando rios de dinheiro sem a comprovao da aplicao de recursos, enquanto as tribos que eles juram proteger esto morrendo de inanio e outras doenas.

Como vemos, o combate biopirataria enfrenta desafios como a vasta extenso da Amaznia, dificuldades de fiscalizao e lacunas nas legislaes internacionais e nacionais que dificultam o reconhecimento do conhecimento tradicional.

No entanto, existem esforos, como a ratificao do Protocolo de Nagoia pelo Brasil em 2021, que estabelece um marco legal para garantir a repartio justa e equitativa dos benefcios do uso de recursos genticos.

Alm disso, cientistas e organizaes defendem maior investimento em pesquisa e desenvolvimento no prprio pas, para que o Brasil possa conhecer e proteger melhor seus prprios recursos.

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