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Há quem vá ao cinema para fugir dos problemas. Em “O Convite”, a proposta é exatamente o contrário: pagar ingresso para assistir aos problemas dos outros e, de quebra, lembrar de alguns dos seus próprios.
A nova produção da A24 estreia oficialmente nesta quinta-feira (9) nos cinemas brasileiros cercada por um índice que costuma despertar a curiosidade até dos mais desconfiados: 96% de aprovação no Rotten Tomatoes.
Quatro anos depois de “Não Se Preocupe, Querida” (2022), Olivia Wilde volta à direção sem abrir mão de aparecer diante das câmeras. Ela dirige, atua e ainda conduz um elenco formado por Seth Rogen, Penélope Cruz e Edward Norton.
Na prática, o filme pega uma situação aparentemente inofensiva – um jantar entre vizinhos – e prova, mais uma vez, que a humanidade talvez nunca devesse ter inventado a frase “vamos marcar qualquer dia”.
Entre taças de vinho, silêncios constrangedores e verdades ditas no momento errado (ou certo demais), “O Convite” transforma um encontro social na modalidade mais elegante de desastre.
Convite para o
quê mesmo?
Na trama Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) são um casal esfriado que está com sua relação em risco. Casualmente, convidam seus vizinhos Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) para jantar.
O evento, que era pra ser apenas de petiscos e drinques, virou um caos cheio de reviravoltas ao descobrirem que o casal convidado, talvez, esteja organizando orgias semanalmente no apartamento de cima.
A diretora encarou a sua terceira produção como uma peça de teatro.
Em vez de tratar os atores como peças de um tabuleiro, deu tempo para ensaios, incentivou a criação conjunta dos personagens e apostou que a convivência renderia algo mais interessante do que interpretações milimetricamente calculadas.
Afinal, poucas coisas parecem mais artificiais do que pessoas fingindo espontaneidade.
Improviso
Olivia Wilde e Seth Rogen desenvolveram uma dinâmica em que interromper o colega de cena, mudar o ritmo da conversa e reagir ao inesperado fazia parte do roteiro.
Edward Norton resolveu elevar o nível da dinâmica. O ator criou sozinho toda a biografia do personagem Hawk e decidiu não contar praticamente nada para os colegas nem para a diretora antes das gravações. A ideia era simples: se o elenco descobrisse as informações durante a cena, as reações seriam verdadeiras.
A24
A A24, produtora do filme, conseguiu um feito raro em Hollywood: transformar a própria marca em um evento. Para muitos cinéfilos, o famoso logotipo colorido vale quase tanto quanto o nome do diretor ou do elenco. É como um selo informal de que, no mínimo, alguém terá uma crise existencial antes dos créditos finais.
Neste ano, “O Drama” balançou as ideias sobre o que é amor e “Um Não-Lugar” – ainda em cartaz – enlouqueceu o público sobre a existência de outras dimensões, cada um com uma avaliação no Rotten Tomatoes de 76% e 84%, respectivamente.
O próprio site destaca que a produtora construiu um nível incomum de fidelidade do público sem depender de um único cineasta ou de uma franquia. É uma relação curiosa. Enquanto alguns estúdios vendem super-heróis, a A24 vende ansiedade, desconforto, personagens emocionalmente confusos e, de alguma forma, faz isso parecer irresistível.
Com “O Convite”, a receita é a mesma. Não há explosões, invasões alienígenas nem um vilão tentando destruir o planeta. O apocalipse acontece em escala doméstica, durante um jantar, onde uma conversa atravessada pode ser mais devastadora do que qualquer efeito especial de milhões de dólares.
