A China deixou de ser vista apenas como a “fábrica do mundo” e passou a ocupar uma posição central na nova economia global. Com escala industrial, avanço tecnológico e alta capacidade de execução, o país vem ampliando sua presença em setores estratégicos, como energia limpa, veículos elétricos, baterias, painéis solares e cadeias produtivas globais.
Esse movimento já se reflete nos números. Com um superávit comercial que alcança cerca de US$ 1,5 trilhão — o maior da história —, a China reforça sua capacidade de influenciar preços, fluxos de investimento e decisões industriais ao redor do mundo.
A ascensão do país, no entanto, vai além do comércio exterior. Trata-se de uma transformação estrutural baseada em planejamento de longo prazo, mercado interno competitivo, escala industrial e, principalmente, velocidade de execução — fatores que ajudam a explicar seu protagonismo crescente e a intensificação da disputa estratégica com os Estados Unidos.
Para Ricardo Geromel, especialista em China e autor do livro O Poder da China, e Jorge Hargrave, diretor da Maraé Investimentos, entender essa dinâmica é essencial para interpretar os movimentos da economia global nos próximos anos.
As declarações foram feitas no programa O Clima na Faria Lima, do InfoMoney, apresentado por Marina Cançado.
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De “fábrica do mundo” à fronteira tecnológica
A mudança mais evidente está na qualidade e sofisticação da produção chinesa. O país deixou de ser apenas um polo de manufatura barata para competir diretamente em tecnologia, muitas vezes com vantagem de custo.
Hoje, produtos chineses já não carregam o estigma de baixa qualidade. Pelo contrário! Em diversos setores, combinam preço competitivo com desempenho superior. Uma dinâmica que tem pressionado concorrentes globais.
Esse avanço é impulsionado por um mercado doméstico altamente competitivo, onde empresas disputam escala e eficiência em níveis difíceis de replicar em outras economias.
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Execução como diferencial estrutural
Se há um ponto que chama atenção de investidores e executivos que visitam o país, é a velocidade de execução. “O principal aprendizado foi a capacidade de realização do povo chinês”, afirma Hargrave.
Essa característica aparece tanto em projetos históricos quanto em transformações recentes, como a rápida eletrificação da frota e a urbanização acelerada. Em poucos anos, mudanças que levariam décadas em outras regiões são implementadas em larga escala, com coordenação entre governo e iniciativa privada.
Transição energética guiada por necessidade
A liderança da China na agenda de energia limpa também segue uma lógica pragmática. Diferentemente do discurso mais ideológico, observado em parte do Ocidente, o movimento chinês foi motivado por necessidades internas.
De um lado, havia um problema crítico de poluição urbana, que afetava diretamente a qualidade de vida da população. De outro, a dependência energética externa pressionava o país a buscar alternativas.
Segundo Geromel, cerca de 74% do petróleo consumido pela China é importado. Um fator central para a estratégia de transição energética. A resposta foi uma política coordenada para eletrificação e expansão de energias renováveis, combinando escala industrial e incentivo à inovação.
Escala e planejamento criam liderança global
O resultado dessa estratégia é visível: a China construiu vantagem competitiva em setores-chave da transição energética. O país reduziu drasticamente os custos de produção de tecnologias como painéis solares e hoje domina cadeias produtivas globais nesses segmentos.
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Essa liderança também se estende a baterias e veículos elétricos, formando um ecossistema integrado que reforça sua posição global.
O avanço chinês tem provocado reação direta dos Estados Unidos, especialmente em setores considerados estratégicos. “Existe uma guerra que já é real: Estados Unidos e China”, afirmou Geromel.
Embora ainda não seja um confronto militar, o embate envolve tarifas, restrições tecnológicas e tentativas de contenção do avanço chinês. A tendência é de intensificação, à medida que a China amplia sua presença global.
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Narrativa climática divide o debate
No campo ambiental, a China também está no centro de uma disputa de narrativas. Apesar de ser o maior emissor global em termos absolutos, análises que consideram emissões per capita e histórico de poluição ajudam a relativizar parte das críticas ao país.
Ao mesmo tempo, a China se consolidou como um dos principais fornecedores de soluções para descarbonização, reforçando seu papel central na transição energética global.
Um ator central na nova economia global
Mais do que a antiga “fábrica do mundo”, a China se consolidou como um agente capaz de moldar tendências globais em tecnologia, energia, indústria e comércio.
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Com capacidade de execução, planejamento estratégico e escala, o país deve seguir no centro das transformações econômicas nos próximos anos. Para investidores e empresas, entender essa dinâmica deixou de ser opcional e passou a ser essencial.
