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Chegou à Netflix o filme mais desconfortável da fase explosiva de Alicia Silverstone em Hollywood

Chegou à Netflix o filme mais desconfortável da fase explosiva de Alicia Silverstone em Hollywood

Visto hoje, “Uma Babá Objeto de Desejo” chama menos atenção como suspense de impacto do que como retrato incômodo de uma fixação recorrente no cinema dos anos 1990: a jovem mulher transformada, quase sem voz, em fantasia, ameaça e promessa de fuga para homens incapazes de lidar com o próprio desejo. O filme de Guy Ferland, lançado em 1995, parte de uma situação doméstica direta. Jennifer, interpretada por Alicia Silverstone, é contratada para cuidar dos filhos de Harry e Dolly Tucker enquanto o casal vai a uma festa. A noite, no entanto, logo se desloca da casa para a cabeça dos homens ao redor dela. O campo de tensão não está nas crianças, nem no trabalho de babá, mas na maneira como Jennifer passa a ser observada, imaginada e disputada.

Essa escolha dá ao filme seu ponto mais interessante e também seu limite mais evidente. “Uma Babá Objeto de Desejo” percebe que o desejo pode funcionar como invasão. Jennifer não precisa fazer quase nada para que os homens projetem sobre ela histórias, intenções e possibilidades que pertencem muito mais a eles do que a ela. Harry enxerga na jovem uma espécie de atalho imaginário para fora do casamento e da rotina adulta. Jack, ligado ao passado afetivo de Jennifer, mistura desejo, ressentimento e posse. Mark, mais instável, leva essa tensão para uma zona de ameaça mais explícita. A trama se move menos por acontecimentos robustos do que por esse cerco de olhares. Antes de qualquer gesto concreto, a personagem já foi tomada por fantasias que tentam reduzi-la a objeto.

Fantasia e ameaça

A estrutura de “Uma Babá Objeto de Desejo” alterna realidade e imaginação, permitindo que as fantasias masculinas atravessem a noite como interrupções do cotidiano. Esse movimento cria uma instabilidade que, nos melhores momentos, dá ao filme algum peso moral. Nem tudo o que aparece na tela deve ser recebido como fato. Nem toda ameaça precisa se realizar para contaminar o ambiente. O suspense nasce dessa zona turva, na qual desejo, ciúme e controle se misturam antes de virar ação.

Quando essa engrenagem funciona, o filme encontra algo perturbador. A fantasia deixa de parecer um território privado e inofensivo; passa a se aproximar de um ensaio de domínio. Os homens olham para Jennifer e constroem versões dela sob medida para suas frustrações. Ela vira amante imaginária, lembrança mal resolvida, símbolo de juventude, prêmio possível, corpo em disputa. Raramente vira sujeito. A força do filme está em perceber esse mecanismo e transformar a repetição do olhar em uma prisão sem grades.

O problema é que Guy Ferland nem sempre consegue manter distância crítica do material. Ao tentar colocar a objetificação de Jennifer sob suspeita, “Uma Babá Objeto de Desejo” muitas vezes se apoia nessa mesma objetificação para gerar tensão. A câmera observa Alicia Silverstone com uma insistência que se confunde com o olhar dos personagens masculinos. Em algumas passagens, essa aproximação parece calculada para causar desconforto. Em outras, soa como convenção de um thriller erótico de época, interessado em criticar o desejo predatório sem abrir mão de explorá-lo visualmente. A diferença pode parecer pequena, mas muda tudo.

A presença de Alicia Silverstone torna essa ambiguidade ainda mais evidente. A atriz sustenta Jennifer com uma reserva importante, sem transformar a personagem em caricatura de inocência ou sedução. Há uma contenção em sua atuação que impede a babá de virar apenas uma imagem disponível. Mesmo assim, o roteiro oferece pouco espaço para sua vida interior. O filme se interessa mais pelo que Jennifer desperta nos outros do que pelo que ela pensa, teme ou deseja. Isso enfraquece a própria crítica que a narrativa parece ensaiar. Para questionar a redução de uma mulher a objeto, seria necessário devolver a ela uma densidade que o filme só concede em lampejos.

Um incômodo datado

Como suspense, “Uma Babá Objeto de Desejo” é irregular. A atmosfera suburbana tem força: casas confortáveis, festa adulta, conversas atravessadas por tédio e uma normalidade social que parece encobrir impulsos pouco admiráveis. O perigo não vem de uma ameaça extraordinária, mas de homens comuns, integrados a esse ambiente, que se autorizam a transformar Jennifer em fantasia disponível. Esse detalhe ainda pesa. O filme acerta quando sugere que a violência pode nascer dentro daquilo que a vida social tenta apresentar como estabilidade.

A progressão dramática, porém, nem sempre acompanha a força da ideia. As fantasias se repetem, os personagens reafirmam suas obsessões e a tensão não cresce com a precisão necessária. Harry, Jack e Mark funcionam como variações de uma mesma lógica de posse, mas raramente ultrapassam essa função. São úteis para cercar Jennifer, não para ampliar o drama. Com isso, a estrutura fica exposta demais. Em vez de aprofundar o desconforto, a repetição às vezes o torna previsível.

Ainda assim, “Uma Babá Objeto de Desejo” não deve ser descartado como simples peça envelhecida. Ele é datado, e é justamente aí que revela alguma coisa. Há nele uma combinação típica daquele período: erotismo, ameaça, moralidade e uma curiosidade mal resolvida pelo corpo feminino jovem. Hoje, essa mistura soa mais problemática do que provocante. O que antes podia circular como tensão adulta aparece, com a distância do tempo, como sinal de uma cultura visual que confundia comentário sobre desejo com insistência no espetáculo da objetificação.

Esse envelhecimento não torna o filme automaticamente desinteressante, mas desloca seu valor. “The Babysitter” não se impõe como grande thriller psicológico. Seu ritmo oscila, seus personagens masculinos são pouco sutis e sua encenação tropeça na armadilha que tenta expor. Ainda assim, há algo vivo no desconforto que ele produz. A melhor leitura talvez seja encará-lo como uma obra falha, mas reveladora: um filme que reconhece a violência do olhar masculino, embora não consiga se libertar totalmente dele.

A crítica mais justa precisa fugir de dois extremos. “Uma Babá Objeto de Desejo” não é um achado esquecido que mereça celebração tardia sem ressalvas. Também não é irrelevante. Seu interesse está justamente na fricção entre intenção e resultado. Ele mostra uma jovem cercada por projeções masculinas antes mesmo de qualquer confronto direto, mas participa da lógica visual que tenta denunciar. Essa contradição enfraquece o filme como experiência dramática, mas o torna mais útil como objeto de análise.

O saldo é de uma obra limitada, incômoda e desigual. “Uma Babá Objeto de Desejo” vale mais pela conversa que provoca do que pela força de sua narrativa. A presença de Alicia Silverstone dá ao filme um centro magnético, mas o roteiro não acompanha essa presença com a complexidade necessária. O resultado é um suspense psicológico que envelheceu mal em vários aspectos, embora ainda exponha algo reconhecível sobre fantasia, controle e desejo masculino. Não é um grande filme. É, talvez, um filme mais revelador do que gostaria.



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