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Charme e humor transformam essa história de Jane Austen no seu passatempo perfeito para um domingo na Netflix

Charme e humor transformam essa história de Jane Austen no seu passatempo perfeito para um domingo na Netflix

Algumas escolhas feitas cedo demais continuam ecoando por anos, especialmente quando a pessoa que ficou para trás reaparece exatamente onde você ainda está. É dessa ferida emocional que parte “Persuasão”, adaptação do romance de Jane Austen dirigida por Carrie Cracknell, que acompanha Anne Elliot, vivida por Dakota Johnson, uma mulher inteligente, irônica e um pouco deslocada dentro da própria família. Sete anos antes, pressionada por parentes e amigos, ela rompeu o noivado com Frederick Wentworth, então um jovem oficial sem fortuna. O tempo passou, a vida seguiu seu curso e, de repente, ele volta à cena. Só que agora Wentworth, interpretado por Cosmo Jarvis, retorna bem-sucedido, respeitado e circulando exatamente nos mesmos ambientes sociais que antes o rejeitavam.

Anne vive cercada por uma família que parece mais preocupada com aparência e status do que com qualquer outra coisa. Seu pai, Sir Walter Elliot, interpretado por Richard E. Grant, é vaidoso, teatral e completamente obcecado pela própria posição social, mesmo quando as finanças da família começam a desmoronar. Para evitar um desastre maior, ele decide alugar a casa da família e se mudar para Bath, uma cidade onde a elite britânica ainda tenta manter as aparências em meio a bailes, encontros e visitas sociais. Nesse ambiente cheio de regras implícitas, Anne ocupa um lugar curioso: ela é a pessoa sensata da casa, aquela que resolve problemas, organiza mudanças e tenta manter algum equilíbrio entre parentes que vivem em função da reputação. O problema é que, justamente por ser sensata, quase nunca é realmente ouvida.

A volta de Frederick Wentworth muda completamente o clima dessa rotina. O reencontro não vem acompanhado de grandes declarações ou confrontos dramáticos. Pelo contrário. Ele acontece aos poucos, em encontros sociais, jantares e visitas que parecem casuais, mas carregam anos de história mal resolvida. Wentworth mantém uma postura educada, distante, quase protocolar. Anne tenta agir com a mesma compostura. Só que qualquer troca de olhares ou conversa breve deixa claro que o passado ainda está ali, circulando entre os dois como um convidado que ninguém sabe muito bem como dispensar.

O interessante é que “Persuasão” transforma esse desconforto em motor da narrativa. Anne observa tudo com uma mistura de melancolia e ironia, muitas vezes quebrando a formalidade do ambiente com comentários espirituosos. Dakota Johnson interpreta essa personagem com um tipo de humor seco que funciona bem dentro da história. Anne sabe exatamente como funciona o mundo social ao seu redor, mas também enxerga o absurdo dele. Isso aparece principalmente nas interações com a própria família, que frequentemente transforma pequenas situações em dramas sociais desnecessários.

Nesse universo cheio de convenções, outro personagem passa a orbitar a vida de Anne: William Elliot, interpretado por Henry Golding. Parente distante e extremamente bem posicionado dentro da sociedade, ele representa uma alternativa confortável e socialmente segura para alguém na posição de Anne. Ao contrário de Wentworth, William conhece perfeitamente as regras daquele jogo social e parece navegar por elas com facilidade. A aproximação entre os dois adiciona uma nova camada à história, porque coloca Anne diante de uma escolha silenciosa entre estabilidade social e sentimentos antigos que nunca desapareceram completamente.

Mesmo sendo essencialmente uma história romântica, o filme também se permite momentos de comédia bastante claros. Grande parte deles vem do comportamento exagerado de Sir Walter Elliot. Richard E. Grant interpreta o personagem como alguém completamente convencido da própria importância, capaz de transformar qualquer conversa banal em um desfile de vaidade. As interações entre ele, Anne e os demais convidados frequentemente geram situações constrangedoras que acabam funcionando como alívio cômico. É aquele tipo de humor que nasce do ridículo social: pessoas tentando preservar elegância enquanto tudo ao redor começa a escapar do controle.

Carrie Cracknell conduz a história com um olhar mais leve e moderno sobre o material original de Jane Austen. Em vez de transformar o romance em um drama excessivamente solene, o filme prefere enfatizar os pequenos gestos, os olhares atravessados e as tensões discretas que surgem quando pessoas que compartilham um passado precisam conviver novamente. Não se trata de grandes reviravoltas, mas de mudanças graduais na forma como Anne e Wentworth se observam.

“Persuasão” é uma história sobre tempo e arrependimento. Sobre o peso que certas decisões carregam mesmo quando parecem ter sido resolvidas anos antes. Anne passa boa parte do filme tentando entender se ainda é a mesma pessoa que aceitou abrir mão de um amor por pressão externa. E cada reencontro com Wentworth funciona como um lembrete de que algumas histórias nunca ficam realmente no passado. O filme não precisa correr para provar isso. Ele apenas coloca os dois personagens novamente no mesmo espaço e deixa o silêncio entre eles fazer o resto.

Filme:
Persuasão

Diretor:

Carrie Cracknell

Ano:
2022

Gênero:
Comédia/Drama/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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