Segundo Roberto Alvo, infraestrutura e ambiente regulatório são fundamentais para ampliar a conectividade na América Latina e no Brasil
A ampliação da conectividade aérea na América Latina depende de avanços em infraestrutura, ambiente regulatório mais competitivo e políticas públicas de longo prazo, segundo Roberto Alvo, CEO da Latam Airlines.
Em entrevista concedida à Associação do Transporte Aéreo Internacional (IATA), no último domingo (31), o executivo disse que a região apresenta elevado potencial de crescimento para o transporte aéreo, mas enfrenta obstáculos estruturais que limitam a expansão do setor.
De acordo com Alvo, a companhia atribui seus resultados operacionais e financeiros recentes a uma mudança de abordagem estratégica, que passou a priorizar colaboradores, clientes e comunidades atendidas.
“O mais importante foi deixar de ver os resultados como o objetivo e passar a vê-los como consequência de fazer outras coisas bem feitas; cuidar das pessoas que trabalham conosco, servir genuinamente nossos clientes e contribuir para as comunidades onde operamos”, disse o CEO da Latam.
Segundo o executivo, essa reorganização de prioridades foi acompanhada por um modelo de negócios centrado no passageiro, disciplina financeira e foco na execução operacional.
Experiência do passageiro
A transformação de produtos e serviços da companhia tem como objetivo reduzir a diferença entre as expectativas dos passageiros e a experiência efetivamente entregue durante a viagem.
De acordo com Alvo, a estratégia busca garantir um padrão consistente em toda a rede da empresa e destacou o papel dos colaboradores nesse processo.
“O foco está em oferecer uma experiência consistente e de alto padrão em toda a operação. Aprendemos que não se trata apenas de investimento, mas de empatia e de colocar o passageiro no centro”, disse Roberto Alvo.
O executivo citou melhorias em indicadores como pontualidade e satisfação dos clientes, além da obtenção da certificação quatro estrelas da Skytrax.
Potencial de mercado
Segundo a Latam, a América do Sul apresenta baixa penetração do transporte aéreo quando comparada a mercados mais maduros. Alvo disse que a região registra aproximadamente 0,6 viagem aérea per capita por ano, enquanto o índice supera duas viagens nos Estados Unidos e cinco na Espanha.
Para o executivo, as longas distâncias e a limitada oferta de transporte terrestre tornam a aviação um elemento essencial para integração econômica e social do continente.
Ao mesmo tempo, ele apontou fatores como volatilidade macroeconômica, regulamentação complexa, infraestrutura insuficiente e elevada carga tributária como barreiras ao desenvolvimento do setor.
Desafios e oportunidades no Brasil
Responsável por cerca de metade das operações do grupo, o Brasil foi apontado por Alvo como o principal mercado da América do Sul e um dos países com maior potencial de crescimento para a aviação comercial.
Apesar da dimensão do mercado brasileiro, o executivo afirmou que o país registra aproximadamente 0,5 viagem aérea per capita por ano, índice considerado abaixo de seu potencial.
“Custos elevados de combustível e um sistema tributário desfavorável para o transporte aéreo podem aumentar tarifas, reduzir o acesso e enfraquecer a demanda”, disse Alvo, que tambem defendeu políticas integradas entre aviação, turismo e infraestrutura, além da redução dos custos operacionais e da litigiosidade enfrentada pelas companhias aéreas.
Combustível sustentável de aviação
O CEO da Latam demonstrou preocupação com a evolução da produção de combustível sustentável de aviação (SAF) na América Latina. Embora reconheça o potencial da região para produzir a matéria-prima necessária, ele afirmou que ainda não existem projetos em escala capazes de atender à demanda futura.
Em 2021, a empresa anunciou a meta de utilizar até 5% de SAF até 2030. “O potencial é inegável, mas cinco anos depois não existe uma única gota de produção e tampouco vemos projetos que transformem essa teoria em prática”, declarou Alvo.
Segundo o executivo, a região dispõe de biomassa, mas carece de cadeias de suprimento consolidadas, infraestrutura industrial e capacidade tecnológica para produção competitiva do combustível, destacando ainda que o SAF custa atualmente entre duas e cinco vezes mais que o combustível convencional e defendeu incentivos governamentais para estimular sua produção.
Meta de neutralidade de carbono
Sobre o compromisso de neutralidade de carbono até 2050, Alvo disse que a meta continua sendo necessária para o setor, embora sua implementação esteja se tornando mais complexa diante de fatores geopolíticos e econômicos.
Ele destacou que medidas como renovação de frota, eficiência operacional e melhor gestão do espaço aéreo podem gerar reduções imediatas nas emissões.
A Latam mantém o compromisso público de reduzir em 6% sua intensidade de emissões até 2030 em comparação aos níveis de 2019.
Segundo o executivo, a companhia pretende administrar mais de 10,8 milhões de toneladas líquidas de dióxido de carbono por meio de renovação de frota, eficiência operacional, eventual uso de SAF e mecanismos de compensação de emissões residuais.
Inteligência artificial
A inteligência artificial também foi apontada como uma das prioridades estratégicas da companhia. Alvo disse que a tecnologia já é utilizada em uma parcela significativa das interações com clientes e em processos internos. “Uma parte relevante das interações com clientes já é gerenciada com inteligência artificial, melhorando tempos de resposta e personalização”.
Além do atendimento ao passageiro, a tecnologia é empregada em áreas como otimização de rotas, planejamento de frota e manutenção preditiva.
Para o executivo, o principal desafio não é tecnológico, mas organizacional, exigindo mudanças nos processos corporativos e maior integração entre áreas tradicionalmente estruturadas em silos.
Cadeia de suprimentos e atração de talentos
O CEO da Latam disse ainda que os problemas globais de cadeia de suprimentos continuam afetando a indústria aérea, em um cenário marcado por pressões de custos, conflitos geopolíticos e volatilidade econômica.
Segundo ele, a Latam mantém uma postura de monitoramento constante e busca preservar flexibilidade operacional diante das incertezas.
Em relação à disputa por profissionais especializados em tecnologia, o executivo avaliou que as companhias aéreas precisam oferecer propostas de valor diferenciadas para atrair talentos. “O local de trabalho não é definido apenas pela remuneração. Também depende do tipo de problema que a pessoa deseja resolver e do propósito associado ao seu trabalho”, concluiu.
