Gabriel García Márquez acreditava que “Cem Anos de Solidão”, sua obra-prima, era inadaptável. Infelizmente, o escritor colombiano – que morreu em 2014 – não viveu tempo suficiente para descobrir que estava completamente errado.
A prova do engano é o êxito alcançado pela série inspirada no livro, que estreou em 2024 na Netflix. Nesta quarta-feira (5), a plataforma lança a segunda parte da produção, com sete novos inéditos – vistos antecipadamente pela Folha de Pernambuco.
Com direção de Laura Mora e Carlos Moreno, a nova fase traz a conclusão da trágica saga da família Buendía. A árvore genealógica dos fundadores de Macondo se expande, enquanto novos infortúnios atingem os herdeiros de Úrsula e José Arcádio.
Nestes novos episódios, a trama mergulha mais profundamente em sua dimensão política e escancara as feridas ainda abertas da América Latina. Mesmo com a assinatura do armistício entre Conservadores e Liberais, a paz não se estabelece por completo em Macondo, espelhando a história do próprio continente.
A construção de uma ferrovia traz ao povoado o progresso ilusório e o imperialismo, representados pela companhia bananeira norte-americana. Prometendo uma modernização ilusória, a empresa entrega exploração e, por fim, um massacre violento de trabalhadores. Depois de maratonar os novos episódios, é difícil não perceber como a trama soa atual.
Por outro lado, a história segue explorando a temática moral. Fernanda del Carpio (Carla Baratta), que chega de Bogotá e se casa com Aureliano Segundo (Julián Román), encarna o conservadorismo religioso.
Mesmo em meio às repressões, os amores não deixam de florescer em Macondo. Aureliano encontra nos braços de Petra Cotes (Ángela Cano) a alegria que falta em casa. Já sua filha com Fernanda, Renata Remedios (Juanita Molina), se entrega a um amor proibido.
As atuações seguem tão viscerais quanto na fase anterior da série. Embora sua Úrsula apareça com bem menos destaque desta vez, Marleyda Soto não deixa de emocionar a cada cena em que está presente. Outro destaque é Claudio Cataño, que sustenta a carga dramática necessária para defender um desiludido Coronel Aureliano.
Toda filmada na Colômbia, em espanhol, e com o apoio da família de García Márquez, a produção audiovisual captura bem a essência do romance publicado em 1967. A fotografia e a direção de arte dão à série o tom de “realismo mágico” que a obra literária constrói tão bem em suas páginas.
“Cem Anos de Solidão” é uma declaração de amor à América Latina. Em meio a tantos títulos que replicam fórmulas prontas, é prazeroso passar algumas horas diante de uma obra que não abre mão da identidade local na forma de contar uma história. A série ainda retorna para um episódio final no dia 26 de agosto, quando finalmente nos despedirmos – saudosos – de Macondo e seus personagens.
