Anuário 2026 da associação registra faturamento de R$ 3,35 bilhões entre meios de hospedagem, crescimento de 5,9% nas unidades habitacionais vendidas e meta de certificar 100% dos associados até 2028 (Yuri RicciM&E)

SÃO PAULO – O turismo de luxo brasileiro encerrou 2025 em um cenário de estabilidade dos principais indicadores financeiros, mas com avanços em volume de hospedagens, geração de empregos, experiência do viajante e adoção de práticas socioambientais. É o que aponta o Anuário BLTA 2026, apresentado nesta terça-feira (25), em São Paulo, pela Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), em parceria com o Centro Universitário Senac.

O levantamento reúne dados de 63 meios de hospedagem e oito operadoras e DMCs associados à entidade e registra faturamento bruto estimado de R$ 3,35 bilhões entre os meios de hospedagem, alta nominal de 0,8% em relação aos R$ 3,32 bilhões registrados em 2024. No mesmo período, as unidades habitacionais (UH) vendidas avançaram 5,91%, passando de 558,8 mil para 591,8 mil.

A taxa média de ocupação permaneceu praticamente estável, em 50,18%, enquanto a diária média recuou 4,83%, de R$ 3.267 para R$ 3.109. O RevPAR, indicador que mede a receita por quarto disponível, passou de R$ 1.577 para R$ 1.560, queda de 1,08%.

Para a BLTA, os resultados indicam um mercado em processo de consolidação. A entidade ressalta que a comparação dos números absolutos precisa considerar a ampliação da amostra, que passou de 59 para 63 meios de hospedagem entre as duas edições.

“O turismo de luxo brasileiro vive um momento de maturidade, diversidade e solidez”, afirmou Roberto Klabin, presidente do Conselho da BLTA, em mensagem divulgada pela associação.

Camilla Barretto, CEO da BLTA, também associa o atual momento à maturidade alcançada pela entidade após 18 anos de atuação. Segundo ela, o reconhecimento do mercado é resultado de um trabalho contínuo de estruturação da associação e de seus critérios.

“Hoje a associação atingiu uma maturidade onde, junto com a maturidade, vem a credibilidade através de um trabalho longo feito nos últimos 18 anos”, afirmou.

Mercado mantém predominância brasileira e amplia interesse internacional

O mercado doméstico continuou sendo a principal origem dos hóspedes dos meios de hospedagem associados à BLTA em 2025, representando 70% da demanda, enquanto os visitantes internacionais responderam por 30%.

Entre os estrangeiros, a Europa representa 13% dos hóspedes, seguida pela América do Norte, com 9%, e pela América Latina, com 5%. Segundo Camilla, os dados também apontam sinais de diversificação dos mercados emissores.

A França permanece como o principal mercado europeu citado pelos associados, seguida por Reino Unido e Portugal. A Itália, entretanto, ganhou espaço: passou de quarto lugar entre os emissores europeus, apontado por 19% dos associados em 2024, para 52% em 2025.

Na América do Norte, os Estados Unidos continuam na liderança, seguidos por Canadá e México. Na América Latina, Argentina, Chile e Uruguai aparecem como principais mercados.

Entre as operadoras e DMCs, a América do Norte respondeu por 38% dos viajantes, seguida pela Europa, com 36%. O Brasil representou 15%, enquanto outros mercados chegaram a 11%, ante 7% no levantamento anterior.

Para a BLTA, o crescimento do interesse de mercados asiáticos representa uma oportunidade de expansão. Camilla afirmou que a associação já começou a estudar esses mercados e considera realizar uma primeira ação comercial na Ásia.

O movimento ocorre em um momento de crescimento da entrada de estrangeiros no Brasil. Durante a apresentação, Roberto Klabin destacou que o país precisa transformar seus atributos naturais em diferenciais competitivos para ampliar sua participação no turismo internacional.

“Praias existem no mundo todo, mas o que que nós, brasileiros, acrescentamos às praias que nós temos? Então, qual é a diferença? O que que nós podemos fazer? O que nós podemos acrescentar a toda a experiência de natureza?”, questionou.

Segundo o presidente do Conselho da BLTA, destinos como Pantanal, Amazônia e Cerrado podem ser utilizados para ampliar a oferta de experiências associadas à natureza e à identidade brasileira.

Luxo baseado em autenticidade e experiência

A expansão do mercado internacional também está relacionada, segundo a associação, à própria definição de luxo trabalhada pela BLTA.

Camilla afirma que o segmento brasileiro não está necessariamente associado à ostentação ou à grandiosidade das estruturas, mas à capacidade de oferecer experiências que não podem ser reproduzidas em outros destinos.

“Então o nosso luxo não é o luxo da ostentação, dos grandes palácios, dessa grandeza, mas é o luxo daquilo que é único, daquilo que é genuíno, daquilo que não pode ser replicado, daquilo que respeita o território, a cultura, a natureza onde ele está inserido”, disse.

Essa característica aparece também no perfil dos empreendimentos associados. Entre os 63 meios de hospedagem participantes da pesquisa, 43 são hotéis, 10 são pousadas, sete são lodges e três são resorts.

Mais da metade dos empreendimentos, 52%, está localizada próxima ou junto à praia. Outros 29% estão em centros urbanos e 19% em áreas de natureza.

Na classificação por proposta, os hotéis boutique aparecem em primeiro lugar, mencionados por 51% dos empreendimentos. Na sequência estão os hotéis de luxo tradicional, com 29%, lodges de natureza, com 16%, hotéis design, com 14%, e hotéis spa, com 13%.

A pequena escala também é uma característica relevante. A maior parte dos associados possui menos de 60 unidades habitacionais, modelo que, segundo a BLTA, favorece a personalização do atendimento e a relação mais próxima com o hóspede.

Para Camilla, esse aspecto será especialmente importante diante do avanço da inteligência artificial no planejamento de viagens e na personalização de serviços.

“Eu acho que vai ser muito difícil replicar essa capacidade que uma pessoa tem de entender a outra. E a humanização, ela jamais vai deixar de estar presente dentro desse segmento. É isso que hoje faz a diferença”, afirmou.

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Bem-estar ganha espaço na experiência de luxo

O conceito de experiência também aparece nos serviços mais procurados pelos hóspedes. Bem-estar, spa e relaxamento foram mencionados por 93% dos 60 meios de hospedagem que responderam à questão, ante 90% em 2024.

Pela primeira vez, as massagens aparecem à frente da gastronomia entre os serviços mais solicitados, sendo citadas por 92% dos empreendimentos. A gastronomia de alto padrão aparece com 87%, seguida por serviços personalizados, com 65%, e atividades e experiências VIP, com 53%.

O lazer continua sendo o principal motivo de viagem, responsável por 55% das hospedagens em 2025. Negócios e eventos corporativos e viagens com família ou amigos aparecem na sequência, ambos com 10,5%.

Entre os eventos que mais geram demanda estão o Réveillon, citado por 81,67% dos empreendimentos, o Carnaval, com 66,67%, e casamentos, com 60%.

Os festivais gastronômicos também ganharam espaço, passando de 13% para 18,33% das indicações. Já os eventos esportivos recuaram de 25% para 16,67%.

A permanência também apresenta diferenças entre os mercados. Entre os hóspedes domésticos, 58% permanecem até três diárias, enquanto 35% ficam entre quatro e sete noites.

Entre os estrangeiros, a permanência é mais longa: 63% ficam de oito a 14 dias e 17% permanecem por mais de duas semanas. Com isso, 80% dos viajantes internacionais permanecem no Brasil por mais de sete dias.

Entre os clientes das operadoras, o viajante independente, categoria que inclui viagens individuais, de casais e famílias, representa 80% dos hóspedes dos meios de hospedagem associados.

Os destinos mais procurados também mantiveram relativa estabilidade. Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu e Pantanal permanecem nas primeiras posições. Entre as operadoras, aparecem ainda Maranhão, litoral da Bahia, Salvador, São Paulo, litoral do Ceará e Fernando de Noronha.

Hotelaria de luxo amplia geração de empregos

BLTA aponta maturidade do turismo de luxo brasileiro e avanço da agenda ESG em 2025
Simone Scorsato, gerente de Eventos Internacionais da Embratur (Yuri RicciM&E)

O desempenho econômico dos empreendimentos também se reflete no mercado de trabalho. Os 63 meios de hospedagem respondentes empregavam aproximadamente 8,9 mil profissionais em 2025, ante 7,7 mil na edição anterior. Ao longo do ano, foram registradas 3.897 contratações.

A BLTA ressalta, entretanto, que o aumento do número de profissionais precisa ser analisado junto à ampliação da amostra, que passou de 59 para 63 empreendimentos.

A média de funcionários por unidade habitacional recuou de 3,16 para 2,76. Ainda assim, o indicador permanece acima do observado na hotelaria convencional, segundo a associação.

A relação com as comunidades locais também aparece nos dados. Profissionais da comunidade onde os empreendimentos estão instalados representam 60,9% das equipes.

A participação de profissionais negros passou de 28,2% para 30,1%, enquanto a presença de pessoas com deficiência aumentou de 1,5% para 1,7%. As mulheres em cargos de liderança representaram 6,6% do quadro total de profissionais, ante 7% em 2024.

Entre os principais treinamentos realizados estão os voltados a competências comportamentais e desenvolvimento de lideranças, mencionados por 41 empreendimentos. Práticas de sustentabilidade aparecem na sequência, citadas por 39.

Para Camilla, a geração de empregos locais é uma das contribuições que o turismo de luxo pode oferecer aos destinos.

“Quando a gente fala que a gente precisa trabalhar no desenvolvimento da mão de obra, é realmente uma grande responsabilidade do turismo de luxo, de trazer essas oportunidades”, afirmou durante a apresentação.

BLTA reforça critérios para entrada e permanência de associados

Além dos resultados econômicos, a edição 2026 do anuário destaca a mudança no processo de avaliação dos associados.

Desde 2025, a metodologia de cliente oculto passou a ser obrigatória tanto para o ingresso quanto para a permanência dos meios de hospedagem na BLTA. O processo é realizado em parceria com a OnYou e utiliza um questionário com aproximadamente 250 critérios.

A avaliação considera diferentes etapas da jornada do hóspede, desde o primeiro contato com a marca e o processo de reserva até check-in, check-out, estrutura física, atendimento, gastronomia, experiências, equipe e sustentabilidade.

Para permanecer ou ingressar na associação, o empreendimento precisa alcançar pelo menos 80% de desempenho.

Em 2024, a BLTA recebeu 26 candidaturas, das quais nove foram aprovadas. Em 2025, foram novamente 26 candidaturas, com sete aprovações.

Em 2026, até o momento da apresentação, 19 candidaturas haviam sido registradas, das quais quatro foram aprovadas. Entre os novos associados estão duas fazendas, o Villas de Trancoso e o Palácio Tangará, que retornou à associação.

Ao longo de 2026, 35 hotéis já haviam passado pelas avaliações, com média geral de 83,2%.

Camilla ressalta que a metodologia não tem caráter punitivo, mas busca identificar pontos de melhoria nos empreendimentos.

“E o nosso objetivo não é ser punitivo, e sim educativo. Porque o objetivo da BLTA é elevar a qualidade do turismo de luxo brasileiro”, explicou.

Durante o período de realização da pesquisa do anuário, entre março e junho de 2026, a BLTA contava com 73 integrantes: 65 meios de hospedagem e oito operadoras ou DMCs. Na apresentação atual, o número havia chegado a 74 membros, sendo 66 hotéis e oito DMCs.

A associação não estabelece um número máximo de integrantes. Segundo Camilla, a expansão deve acompanhar a evolução do próprio mercado.

“Ninguém tá competindo com ninguém. A gente tem espaço para todo mundo, a gente só recebe menos de 10 milhões de turistas internacionais. Então, tem muito espaço para crescer”, afirmou.

ESG avança, mas comunicação ainda é desafio

A agenda ambiental, social e de governança também ganhou destaque no Anuário BLTA 2026.

Entre os meios de hospedagem respondentes, 35,48% já possuem certificação de sustentabilidade ou iniciaram o processo. Entre as operadoras, o percentual é de 28,57%. Sistema B e Green Key estão entre as certificações buscadas pelos associados.

Quarenta e dois meios de hospedagem apoiaram 164 projetos socioambientais, enquanto as oito operadoras participantes apoiaram outras 26 iniciativas. Somados, os associados apoiaram 190 projetos.

As principais áreas de atuação são desenvolvimento socioeconômico, educação e conservação ambiental.

Entre os meios de hospedagem, desenvolvimento socioeconômico aparece em 50% dos projetos, educação em 47% e conservação ambiental em 44%. Entre as operadoras, as três áreas aparecem com 75%, 63% e 75%, respectivamente.

A BLTA estabeleceu como meta chegar a 2028 com 100% dos associados certificados.

Para Camilla, entretanto, o avanço da sustentabilidade não depende apenas da implementação das práticas, mas também da capacidade de comunicá-las aos hóspedes.

“Infelizmente, a sustentabilidade ainda é um ponto que merece atenção, mas não porque a gente não tá praticando, mas porque talvez a gente ainda não seja capaz de comunicar o que a gente tá fazendo, da maneira que possa ser percebida pelos hóspedes”, afirmou.

Segundo a CEO, as auditorias também funcionam como ferramenta de diagnóstico para os empreendimentos, permitindo identificar pontos fortes e aspectos que precisam ser aprimorados.

Brasil busca transformar atributos naturais em diferencial internacional

BLTA aponta maturidade do turismo de luxo brasileiro e avanço da agenda ESG em 2025
Roberto Klabin, Presidente da BLTA (Yuri RicciM&E)

A expansão do turismo internacional aparece como uma das principais oportunidades identificadas pela associação.

Roberto Klabin defendeu que o país precisa trabalhar não apenas na divulgação dos destinos, mas na criação de experiências capazes de diferenciar o Brasil de outros mercados.

“Isso é bom trabalho do Embratur, isso é bom trabalho de todos nós associados aqui, e isso são as características que nos diferenciam dos outros, características que só o Brasil tem”, afirmou.

Camilla segue na mesma linha ao defender que a brasilidade seja utilizada como ativo do turismo de luxo.

“Hoje existe um grande interesse pelo Brasil, eu acho que a gente tem mais do que nunca empreendimentos que realmente são empreendimentos de qualidade, que podem competir em pé de igualdade com os melhores empreendimentos que existem no mundo. E a gente tem atributos no Brasil que são incríveis, o nosso país tem tudo”, disse.

Para a BLTA, o desafio passa por transformar esses atributos em experiências que combinem natureza, cultura, hospitalidade e personalização, ao mesmo tempo em que os destinos preservem os recursos que sustentam a atividade.

Novo portal amplia atuação da BLTA junto ao consumidor

A apresentação do Anuário BLTA 2026 também foi acompanhada pelo lançamento do novo portal da associação.

A plataforma foi reformulada para aproximar a entidade tanto do consumidor final quanto do trade turístico e reunir informações sobre os associados e os destinos brasileiros de alto padrão.

O evento foi realizado na Casa Sweet Pimenta, em um casarão modernista da Vila Madalena projetado pelo arquiteto brasileiro David Libeskind. A escolha do espaço também foi apresentada como parte da proposta da BLTA de valorizar referências brasileiras que, muitas vezes, permanecem pouco conhecidas.

A associação afirma que o novo portal busca justamente ampliar essa conexão e apresentar a diversidade da oferta nacional.

Para Camilla, a nova plataforma acompanha a transformação pela qual a própria entidade passou nos últimos anos.

“Eu acho que o luxo, ele sempre existiu, o luxo, ele sempre chamou atenção, o luxo, ele cria tendências. Tá todo mundo querendo acompanhar o que tá acontecendo com o mercado de luxo para depois entender o que que vai acontecer nos outros cenários”, afirmou.

Com 74 membros atualmente, entre hotéis e DMCs, a BLTA busca ampliar a presença do Brasil no mercado internacional sem abandonar os critérios que definem sua atuação. A estratégia passa pela combinação entre qualidade, autenticidade, diversidade e sustentabilidade.

O Anuário 2026 mostra um segmento que, depois do crescimento mais acelerado registrado no período posterior à pandemia, entrou em uma fase de maior estabilidade nos indicadores financeiros. Ao mesmo tempo, os dados apontam aumento das unidades habitacionais comercializadas, diversificação dos mercados emissores, geração de empregos locais, fortalecimento da experiência e avanço da agenda ESG.

Mais do que uma expansão baseada apenas em faturamento, a associação procura consolidar um modelo de turismo de alto padrão associado à identidade dos destinos brasileiros. Como resume Camilla, “o luxo daquilo que é único, daquilo que é genuíno, daquilo que não pode ser replicado” é o principal ativo que a BLTA pretende levar ao mercado internacional.