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Black Pantera faz do Brasil matéria-prima para o pesado “Continental”

Black Pantera faz do Brasil matéria-prima para o pesado “Continental”


O Black Pantera nunca pareceu interessado em ficar parado. Em ”Continental”, quinto álbum de estúdio do trio mineiro – Charles Gama (guitarra e vocal), Chaene da Gama (baixo) e Rodrigo “Pancho” Augusto (bateria), conhecido pelo crossover thrash, thrash metal e hardcore punk, que será lançado nesta sexta-feira (21), essa disposição para avançar aparece em 13 faixas que partem do hard rock e do groove metal para atravessar o rap, o soul, referências latinas e elementos da cultura pop.




O resultado mantém a essência da banda, mas encontra espaço para experimentar, olhar para dentro e falar de um Brasil formado por muitos “brasis”.


Sem adornos

A faixa-título dá a medida do que vem pela frente. ”Continental” começa com uma fala de Milton Santos, geógrafo e pensador baiano, antes de desembocar em uma música que trata do país a partir de suas contradições, da diáspora e da identidade.


O recurso não soa como um adorno intelectual. A voz de Milton funciona como ponto de partida para um álbum que olha para o Brasil a partir de sua dimensão social, histórica e geográfica. Embora seu som tenha raízes no metal, o grupo sempre integrou outros ritmos e artistas de outros estilos em seus projetos. Esse movimento aparece na trajetória da banda e na própria construção do novo álbum.


Na faixa ”Ascensão” (2022), o grupo havia consolidado a identidade que o levou a grandes festivais e a uma circulação cada vez maior pelo Brasil e pelo exterior. ”Perpétuo” (2024) ampliou a conversa ao incorporar ritmos latinos e uma reflexão mais voltada à ancestralidade e às próprias experiências. Agora, ”Continental” (2026) transforma esse percurso em matéria musical, com faixas que alternam confronto, memória, humor e vulnerabilidade.

Melhor álbum


”É o melhor álbum que a gente construiu até hoje. É a soma de tudo que a gente passou, e trata desse Brasil que é gigante e desse Black Pantera também, imenso, muito maior do que a gente”, comenta Chaene da Gama.


O disco também deixa claro que a expansão sonora não significa abandonar o que fez o Black Pantera chegar até aqui. ”Start The Game”, um dos singles que anteciparam o lançamento, é uma das faixas que melhor traduz essa combinação.


O groove e os riffs de inspiração noventista aparecem acompanhados por referências aos videogames e à cultura pop, sem suavizar o discurso da banda. O jogo funciona como linguagem, enquanto a crítica social continua no centro.


”Hórus”, outro single, segue por uma direção diferente, aproximando metal, espiritualidade, ancestralidade e resistência. A partir daí, o álbum abre espaço para diferentes atmosferas. ”Velho Jeans Rasgado” olha para a vida na estrada. ”Negusa Nagast”, ”Punhos Cerrados”, ”Yasuke”, ”Sic Mundus” e ”W.P.P.” completam um repertório que não parece interessado em oferecer uma única porta de entrada.




Parcerias

A diversidade também está nas participações. Sandra Sá aparece em ”Quando Canto”, música atravessada pela ancestralidade e pela ideia de cura através da voz. Já Duquesa participa de ”Serotonina”, aproximando o Black Pantera de uma das principais vozes do rap contemporâneo.


Derrick Green, vocalista do Sepultura, surge em ”Obsoleto”, reforçando a conexão do trio com o metal e com uma referência que atravessa sua formação. Enquanto ”Banzo”, parceria com Chico César, volta a uma discussão sobre meritocracia.


”É um álbum que fala desses vários gêneros, de vários Brasis”, comenta o baixista e vocalista Chaene da Gama. Ele também destaca a importância da parceria com as cantoras Sandra Sá e Duquesa: ”É especial que as duas convidadas representem gerações distintas, porém complementares, da música brasileira.”


Segundo o artista, a presença de Sandra Sá é especialmente simbólica. A banda cresceu ouvindo a cantora, e ”Quando Canto” pede justamente uma voz que carregue história. A faixa encontra no soul uma extensão natural para o discurso ancestral que atravessa o álbum, sem perder a identidade do trio.


Já a participação de Duquesa, em ”Serotonina” amplia esse diálogo entre gerações e gêneros. A faixa já fazia referência à rapper antes da parceria acontecer e ganha outro contorno com seu improviso.


Projeção Nacional

O Black Pantera chega a ”Continental” em um momento particularmente movimentado. Apenas no primeiro semestre de 2026, o grupo foi anunciado pela terceira vez no Rock in Rio, pela segunda vez no Primavera Sound, abriu o show do Korn no Allianz Parque, lançou seu primeiro audiovisual e recebeu novamente o Prêmio da Música Brasileira na categoria ”Melhor Artista de Rock”.


O novo disco, porém, não parece interessado apenas em celebrar o tamanho que a banda alcançou. Há uma tentativa clara de entender o que fazer com esse espaço. O Brasil aparece como território, mas também como experiência. A ancestralidade está presente sem transformar o álbum em uma peça de museu. E a cultura pop entra em cena sem tirar o peso das questões sociais.


Essa é talvez a principal característica de ”Continental”: a banda não precisa escolher entre ser agressiva e experimentar. O groove metal, o thrash metal e as influências do hardcore punk continuam no centro, mas deixam de funcionar como fronteira. Em vez de repetir uma fórmula, o Black Pantera amplia a própria linguagem e faz do quinto álbum um retrato sonoro de suas referências, inquietações e vivências.



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