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Benicio Del Toro domina na Netflix um thriller brutal que merecia ser redescoberto

Benicio Del Toro domina na Netflix um thriller brutal que merecia ser redescoberto

“Sicário: Dia do Soldado” parte de uma situação ingrata. De um lado, retorna a um universo dramático que já nasceu forte, marcado por violência institucional, fronteiras borradas e personagens habituados a decidir a vida dos outros longe de qualquer prestação de contas. De outro, carrega a memória de “Sicario: Terra de Ninguém”, filme cuja força vinha menos da ação do que do desconforto moral que ela provocava. O primeiro longa colocava o público ao lado de uma personagem ainda capaz de se chocar com aquilo que via. A continuação retira essa proteção. Aqui, o olhar já começa dentro da engrenagem.

Essa mudança não é pequena. Sem a personagem de Emily Blunt, a história se concentra em Matt Graver e Alejandro Gillick, dois homens que conhecem bem o terreno contaminado em que pisam. Matt, vivido por Josh Brolin, age como alguém que aprendeu a transformar violência em procedimento. Alejandro, interpretado por Benicio Del Toro, carrega outro tipo de peso: é mais silencioso, mais ferido, mas não menos perigoso. A partir dessa troca de perspectiva, o filme se torna mais direto, mais físico, mais interessado na execução das operações. Também se torna menos inquietante. Parte da dúvida que movia o original já chega resolvida.

A máquina por dentro

A trama acompanha uma operação secreta criada para provocar uma guerra entre cartéis mexicanos. O plano envolve o sequestro de Isabel, filha de um chefe do tráfico, dentro de uma estratégia que trata a fronteira como território de exceção. Como motor de suspense, é uma premissa eficiente. Como comentário político, é mais instável. “Sicário: Dia do Soldado” coloca terrorismo, cartéis, imigração e segurança nacional no mesmo tabuleiro, criando um ambiente em que o Estado combate o crime com métodos que se confundem com a própria criminalidade. A contradição é forte, mas o filme nem sempre tem paciência para examiná-la.

Stefano Sollima conduz esse material com uma secura que combina com o universo da franquia. As ações têm pouco brilho heroico. Homens entram em carros, recebem ordens, cruzam estradas, preparam emboscadas, calculam perdas. A violência não surge como descontrole, e sim como parte de uma rotina. Esse é um dos acertos do filme. Quando melhor funciona, “Sicário: Dia do Soldado” mostra que o horror não precisa vir acompanhado de discursos inflamados. Às vezes ele aparece com roupa tática, autorização informal e uma frase curta dita por alguém que já decidiu demais.

A fotografia de Dariusz Wolski reforça essa sensação de desgaste. A paisagem árida não vira enfeite nem metáfora pesada demais; parece apenas o lugar possível para uma guerra sem nome oficial. Tudo soa exposto, seco, hostil. A trilha de Hildur Guðnadóttir trabalha na mesma direção, criando pressão sem transformar cada cena em anúncio de tragédia. Há um peso sonoro que sustenta a tensão e ajuda a manter o filme em estado de alerta. A direção sabe organizar espaço, ameaça e espera. Em um cinema de ação muitas vezes confundido com barulho, isso já diferencia o longa.

Ainda assim, a competência formal não resolve tudo. A continuação é mais interessante quando deixa a operação escapar do plano abstrato e encara suas consequências humanas. É aí que Isabel ganha importância. Interpretada por Isabela Merced, creditada à época como Isabela Moner, a personagem poderia ser apenas a refém necessária para movimentar a trama. Em alguns momentos, o roteiro quase a reduz a essa função. Mas a atriz encontra uma combinação de medo, orgulho e desorientação que impede a personagem de virar apenas peça de tabuleiro. Isabel introduz um corpo vulnerável em um mundo onde quase todos falam de corpos como se fossem dados estratégicos.

Força e desgaste

Benicio Del Toro segue sendo a presença mais magnética desse universo. Alejandro é uma figura de ameaça, mas o ator evita transformá-lo em ícone vazio de vingança. Seu silêncio tem densidade. Há nele uma violência conhecida, praticada, mas também uma espécie de cansaço que o filme explora melhor quando não tenta explicar demais. A relação com Isabel desloca sua função dentro da operação e cria uma tensão produtiva: o homem treinado para eliminar obstáculos passa a lidar com alguém que não cabe inteiramente na lógica da missão. Del Toro sustenta esse conflito sem sublinhar.

Josh Brolin trabalha em outra chave. Matt Graver é menos misterioso, mais pragmático e, por isso mesmo, perturbador. Ele não parece movido por prazer sádico, mas por uma convicção funcional: se a estratégia pede brutalidade, a brutalidade será aplicada. O ator compõe essa frieza sem excesso. Matt assusta porque trata o absurdo como expediente de trabalho. A cada decisão, fica mais claro que o filme não está lidando apenas com homens violentos, mas com uma estrutura que permite terceirizar a violência, negá-la e, quando conveniente, descartá-la.

O limite de “Sicário: Dia do Soldado” aparece justamente nesse ponto. O filme sabe mostrar a estrutura, mas nem sempre aprofunda o que ela significa. A aproximação entre cartéis, terrorismo e política migratória cria tensão imediata, porém também simplifica questões complexas. Não se trata de exigir de um thriller uma tese sociológica, nem de cobrar que a obra resolva os conflitos que encena. O problema é mais cinematográfico do que didático: quando temas tão carregados entram em cena, a força do filme depende da forma como eles são organizados. Aqui, muitas vezes, a engrenagem anda rápido demais para que o desconforto ganhe espessura.

A comparação com “Sicario: Terra de Ninguém” é inevitável, não por saudosismo, mas porque a continuação decide habitar o mesmo território moral por outro ângulo. O primeiro filme perturbava porque acompanhava a corrosão de uma consciência. A sequência já começa depois dessa corrosão. O choque existe, mas é menos gradual. A dúvida existe, mas aparece abafada pelo movimento da operação. A tensão física cresce; a tensão ética, embora presente, perde parte de sua precisão. “Sicário: Dia do Soldado” não é menos sério por ser mais direto, mas é menos afiado quando troca ambiguidade por mecanismo.

Mesmo assim, seria injusto reduzir o filme a uma continuação menor sem valor próprio. Há ritmo, presença, atmosfera e domínio claro do suspense. Sollima não tenta copiar Denis Villeneuve, e isso é uma escolha saudável. Seu filme tem outra temperatura: mais áspera, mais operacional, menos contemplativa. O que falta é uma visão crítica tão cortante quanto sua encenação. A brutalidade tem impacto, mas nem sempre deixa marca proporcional ao estrondo que provoca.

“Sicário: Dia do Soldado” funciona melhor quando aceito como thriller sombrio e imperfeito, sustentado por bons atores e por uma direção que entende o peso da violência sem glamourizá-la demais. O filme avança com firmeza, cria tensão e preserva algo da aspereza do universo original. Mas o incômodo que fica é menor do que poderia ser. Ele atira bem, calcula bem, pressiona bem. Só não corta tão fundo.



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