BJ (Anderson .Paak) acredita que nasceu para ser famoso. O problema é que, por enquanto, quase ninguém concorda com ele. Em “K-Pops!”, dirigido pelo próprio Anderson .Paak, o músico passa os dias tocando bateria em um pequeno bar de Los Angeles, onde tenta transformar cada apresentação em uma grande chance. Ele canta, improvisa, chama atenção e ocupa o espaço com a confiança de quem já se imagina no topo. Só falta combinar com o público, que aparece cada vez menos.
A história começa mostrando um artista talentoso, mas parado no mesmo lugar há muito tempo. BJ não é um fracassado sem brilho. Ele tem presença, voz, ritmo e uma capacidade real de entreter. O problema está na distância entre o tamanho do sonho e o tamanho do palco. O bar onde toca já não oferece futuro, os frequentadores parecem cansados de suas tentativas e até quem gosta dele começa a perder a paciência. O músico quer reconhecimento, mas sua rotina entrega apenas contas, frustração e noites cada vez mais vazias.
Antes desse desgaste ficar completo, o filme apresenta Yeji (Jee Young Han), mulher com quem BJ vive um relacionamento importante. A passagem entre os dois aparece em uma montagem animada, embalada por música e pequenas lembranças de convivência. A escolha dá leveza ao romance e resume anos sem transformar a narrativa em explicação cansativa. Quando a relação acaba, BJ perde mais do que uma namorada. Ele perde uma pessoa que acompanhava de perto suas ambições, suas falhas e sua insistência quase profissional em acreditar no próprio destino.
A chance vem da Coreia
Doze anos depois, BJ continua no mesmo bar. O cenário, porém, piorou. O lugar está mais vazio, mais gasto e menos disposto a bancar o sonho de alguém que nunca virou atração principal. Cash (Jonnie Park), amigo do músico e responsável pelo espaço, chega ao ponto de demiti-lo. A mãe de BJ, interpretada por Yvette Nicole Brown, também sabe que o filho precisa sair daquela repetição antes que a carreira vire apenas uma lembrança barulhenta.
A saída surge de maneira improvável. BJ recebe a chance de viajar para a Coreia do Sul e tocar na banda de apoio de “Wildcard”, um programa musical de grande audiência. A proposta não o coloca no centro do palco. Ele continuaria atrás da bateria, servindo de suporte para outros artistas. Mesmo assim, o convite oferece algo que Los Angeles já não consegue entregar. Pela primeira vez em muitos anos, existe uma porta aberta, ainda que estreita, para alguém vê-lo trabalhar.
Ao chegar a Seul, BJ entra em um universo que não domina. Os bastidores de um programa de K-pop têm regras, hierarquia, ensaios e uma organização que contrastam com sua personalidade espalhafatosa. Ele fala demais, tenta se vender o tempo todo e parece acreditar que todo corredor pode virar uma vitrine. A comédia nasce desse desencaixe. BJ não precisa fazer força para parecer perdido. Basta entrar no lugar errado, na hora errada, com confiança demais e informação de menos.
Um filho nos bastidores
BJ conhece Tae Young (Soul Rasheed), jovem competidor de “Wildcard”. A semelhança entre os dois logo deixa de ser apenas um detalhe engraçado. Aos poucos, BJ percebe que pode estar diante do filho que nunca soube que existia. A viagem, que parecia uma tentativa de recuperar a carreira, passa a envolver uma dívida muito maior.
O filme melhora quando troca a pressa pelo convívio entre pai e filho. Tae Young não aparece como uma criança carente esperando salvação. Ele tem rotina, talento, objetivos e uma vida construída sem BJ. Isso torna a aproximação mais interessante. O músico não pode simplesmente chegar atrasado e exigir afeto. Precisa lidar com o fato de que sua ausência ocupou muito espaço antes de sua chegada.
Soul Rasheed, filho de Anderson .Paak na vida real, traz naturalidade às cenas. A química entre os dois ajuda muito, porque o roteiro se apoia menos em grandes discursos e mais em pequenas tentativas de aproximação. BJ tenta ensinar, impressionar, corrigir e participar. Nem sempre acerta. Muitas vezes fala quando deveria ouvir. Ainda assim, cada ensaio, conversa e gesto de cuidado abre um pouco mais de espaço para que Tae Young aceite sua presença.
A música aproxima os dois
A música é o caminho mais bonito dessa reconexão. BJ apresenta ao filho referências do hip-hop, do funk e do R&B, enquanto tenta compreender o universo do K-pop que fascina Tae Young. O filme não transforma essas trocas em aula formal. Elas surgem em ensaios, conversas e momentos de descoberta, quando pai e filho percebem que podem se conhecer melhor através das canções.
Anderson .Paak aproveita sua própria bagagem musical sem transformar “K-Pops!” em vitrine para fãs iniciados. Há referências a artistas, ritmos e canções que ajudam a situar BJ como alguém formado por muitos sons. Essa mistura combina com a proposta do longa. O personagem viaja para outro país achando que vai ensinar alguma coisa, mas também precisa aprender a ouvir. Para um sujeito acostumado a ocupar todos os espaços, isso já é quase um milagre.
O filme tem passagens muito simpáticas quando deixa os personagens respirarem. Nem tudo tem a mesma precisão. Algumas situações avançam depressa demais, e certos conflitos mereciam mais tempo antes de serem resolvidos. Ainda assim, a leveza do conjunto sustenta a experiência. “K-Pops!” sabe rir de BJ sem humilhá-lo, e isso faz diferença. Ele é vaidoso, teimoso e um pouco inconveniente, mas também é alguém tentando chegar tarde a um lugar onde deveria ter estado desde o começo.
Um debut cheio de energia
Como estreia de Anderson .Paak na direção de um longa, “K-Pops!” tem o entusiasmo de quem quer colocar muita coisa na tela ao mesmo tempo. Há música, animação, bastidores de televisão, relação familiar, choque cultural e uma boa dose de brincadeira com a própria imagem do artista. Em alguns momentos, essa soma deixa o filme apressado. Em outros, dá ao longa uma vitalidade difícil de fabricar.
A história cresce quando deixa de perguntar se BJ será reconhecido pelo público e passa a observar se ele conseguirá ser reconhecido pelo próprio filho. A fama continua ali, rondando os estúdios, os ensaios e o programa “Wildcard”. Mas a parte mais interessante está fora do holofote principal. BJ foi a Seul tentando conquistar uma plateia. Ao se aproximar de Tae Young, descobre que sua apresentação mais importante talvez tenha apenas um espectador, e ele ainda precisa merecer esse lugar.
