Baseado no crime de Santoalla/Petín, na Galícia, o longa-metragem de Rodrigo Sorogoyen, com roteiro coescrito por ele e Isabel Peña, narra a história de um casal francês que se muda para uma propriedade rural na Galícia para recomeçar a vida. Ambos são instruídos, viajados e retomam a rotina com certa segurança financeira em uma pequena cidade espanhola tomada pela pobreza e pelo abandono institucional.
O filme começa com homens simples em um bar local discutindo. Entre eles, estão Xan (Luis Zahera) e seu irmão, Lorenzo (Diego Anido). Dois homens rústicos e grosseiros, que parecem implicar com o novo morador, Antoine (Denis Ménochet), um produtor rural que planta verduras para vender em uma feira local. Antoine é discreto e escolhe bem as palavras antes de pronunciá-las. Ele observa a hostilidade dos anfitriões, mas tenta manter o equilíbrio em prol de uma convivência civilizada. Não coincidentemente, Xan e Lorenzo moram muito próximos, na casa ao lado de sua propriedade, junto da mãe.
Há um misto de raiva, inveja, xenofobia e ressentimento em Xan, um homem na faixa dos 50 anos, com pouquíssimo estudo e condições ainda menores de melhorar de vida. Para os antigos moradores da cidade, há uma soberba nos novos cidadãos. Sorogoyen cria, a partir de um caso policial real, um recorte sociopolítico complexo e denso. O filme se desenrola com calma. Não há pressa em explicar por que aqueles dois homens odeiam tanto Antoine. Eles provocam, riem dele e muitas vezes o confrontam diante dos vizinhos. Antoine tenta responder com calma e racionalidade, até que as coisas fogem do controle.
O ressentimento como combustível
A disputa tem relação com uma usina de energia eólica interessada em se instalar na cidade, oferecendo pequenas quantias pelas propriedades. Como a região está praticamente abandonada e afundada na miséria, a maioria quer ceder suas terras para a empresa, com exceção de Antoine, que acredita que o valor oferecido não é suficiente para compensar a perda das terras. Para Xan, porém, aquele dinheiro simboliza uma mudança de vida que ele jamais alcançaria com os duros dias de trabalho ao lado do irmão e da mãe.
Há uma masculinidade brutal que domina aquele território árido. Existe um clima constante de intimidação, violência e força física que rege a lógica daquele lugar abandonado, onde tudo parece exigir esforço extremo para continuar funcionando. Até mesmo o fato de Antoine ser casado com Olga (Marina Foïs) desperta inveja nos vizinhos, rejeitados pelas mulheres da região por serem figuras excessivamente broncas e agressivas.
Mulheres que permanecem
Os irmãos passam a perseguir Antoine com cada vez mais veemência, fazendo o clima de insegurança crescer gradualmente. O que começa com pequenas provocações infantis e inconsequentes se transforma em uma ameaça real ao casal. Antoine procura a polícia, que minimiza as atitudes dos irmãos. Xan e Lorenzo passam a envenenar a plantação, cercar Antoine e Olga na estrada durante a madrugada e vigiá-los pela janela no meio da noite. As coisas se tornam insuportáveis até culminarem em uma tragédia irremediável.
Uma espécie de rural noir atravessado por elementos de faroeste moderno, o longa de Sorogoyen dá uma virada brusca nos momentos finais. Se ao longo da história acompanhamos uma disputa acirrada e profundamente masculina, o desfecho revela que tudo gira em torno de como as mulheres permanecem. Seja a mãe dos irmãos ou Olga, são elas que seguem resistindo às situações mais extremas, sobrevivendo em territórios violentos, cruéis e hostis. Enquanto os homens se destroem uns aos outros, as mulheres continuam ali, sustentando aquilo que sobra.
