Nordeste Magazine
Cultura

Bárbara Buzatti transforma memória familiar em cena no monólogo “Vózes”

Bárbara Buzatti transforma memória familiar em cena no monólogo “Vózes”


Há lembranças que não cabem em fotografias. Permanecem guardadas em sotaques, conselhos repetidos à mesa, canções antigas e histórias contadas de geração em geração.


É desse território invisível – e sensível – que nasce “Vózes”, primeiro monólogo autoral da atriz e criadora Bárbara Buzatti, que estreia nesta sexta (12), em única apresentação no Teatro Arraial Ariano Suassuna.


Em cena, a artista constrói uma travessia poética pelas memórias de suas avós para refletir sobre ancestralidade, luto, desejo e permanência.


A montagem, dirigida por Maju Cavalcanti, reúne teatro, canto, material audiovisual e uma complexa paisagem sonora composta por registros domésticos.


O espetáculo procura compreender como as experiências e as vozes de outras gerações continuam nos atravessando e moldando quem somos.




Para além do cuidar

O ponto de partida da criação surgiu anos antes da estreia. Em 2018, Bárbara começou a gravar longas conversas com sua avó materna, Marília, movida por uma inquietação que a acompanha desde a infância: “Quem são essas mulheres para além da dimensão do cuidado?”, questiona a artista.


“Não elas só como a avózinha que cuidou, que botou para dormir, mas quem são essas mulheres? O que você é além de ser mãe, além de ser avó?”, completa Bárbara.


Ao ouvir relatos sobre sonhos interrompidos, projetos abandonados e caminhos que nunca puderam ser percorridos, Bárbara encontrou um material que ultrapassava a memória afetiva.


Havia ali uma reflexão sobre o lugar das mulheres em diferentes contextos históricos e sobre os desejos que sobreviveram mesmo quando não puderam ser realizados.


Quando ausência vira linguagem

O processo ganhou outra dimensão após a morte das duas avós da artista, em 2025 – Marília, materna, faleceu no Carnaval; Lurdes, avó paterna, no Natal.


“Acho bonito que elas tenham ido em momentos de celebração. Corpos que se despediram em festa”, relembra Bárbara. A perda transformou uma pesquisa íntima em necessidade criativa.


Foi durante um período de recolhimento que Bárbara encontrou a estrutura dramatúrgica que daria forma ao espetáculo. “Eu entendi que era o teatro. Não tinha como fugir”, recorda.


Mais tarde, com a partida da avó Lurdes, veio a percepção de que a obra precisava abarcar todas aquelas presenças.


A encenação se organiza em quadros que dialogam com lembranças, registros sonoros e fragmentos de vida – registros familiares em VHS, conversas de WhatsApp, áudios, vídeos e escritos foram matéria-prima para a montagem.


Em vez de narrar uma história linear, o espetáculo trabalha com sobreposições de vozes, ruídos e memórias, reproduzindo a forma como as recordações costumam emergir: incompletas, afetivas e múltiplas.


Uma tecnologia de escuta

Ao longo do espetáculo, a voz aparece como ferramenta de conexão entre tempos distintos. Áudios familiares, conversas gravadas e canções herdadas – como “Estrela de nós dois”, primeira canção que o avô da artista, Dauro Buzatti, fez em homenagem à companheira, Marília – compõem uma espécie de arquivo vivo que atravessa gerações.


Para Bárbara, o trabalho também propõe uma reflexão sobre a importância da transmissão oral em uma época marcada pela velocidade e pelo esquecimento. “A gente vive numa carência de fazer uma escuta dessas vozes de quem veio antes”, afirma.


Ela define a obra como “um ritual de inventar uma passagem” e uma tentativa de criar novas formas de ouvir. A cada palavra pronunciada, existe sempre um coro silencioso de presenças antigas que nos atravessam e afetam. Crescer talvez seja aprender a escutá-las.


SERVIÇO

Monólogo “Vózes”, de Bárbara Buzatti

Quando: Sexta (12), às 19h

Onde: Teatro Arraial Ariano Suassuna – Rua da Aurora, 457, Boa Vista, Recife

Ingressos: a partir de R$ 33,50, no Sympla

Informações: (81) 3184-3057

Veja também



Fonte

Veja também

Próxima novela das sete, “Por Você” aposta em relações e conflitos afetivos

Redação

Morre o artista britânico David Hockney, aos 88 anos

Redação

Entenda por que a filha de Graciele Lacerda e Zezé Di Camargo teve de retirar nódulo do rosto

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.