Uma escultura de três metros de altura foi ao chão depredada, em 2024, no bairro da Iputinga, Zona Oeste do Recife. Era o “Monumento ao Bairro dos Artistas”, de José Corbiniano Lins (1924 – 2018), um dos mais importantes nomes da arte moderna e contemporânea de Pernambuco. No ano de 1983, ele criou a obra em homenagem ao movimento artístico que revitalizou o bairro após os estragos da grande enchente de 1975.
A ausência do monumento no canteiro central da Avenida Caxangá, no exato ano do centenário de vida do seu criador, simboliza bem o apagamento de uma história de resistência pela arte naquele território onde um movimento de artistas ajudou a recuperar um lugar devastado pelas chuvas. No Recife, 31 bairros foram atingidos e cerca de 80% da Capital ficou debaixo d’água naquele ano.
Por meio de nota, a Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) informou que “o monumento sofreu danos e teve parte de sua estrutura furtada. Os fragmentos remanescentes foram recolhidos e encontram-se sob os cuidados da autarquia”. A Emlurb diz, ainda, que “está avaliando alternativas técnicas para viabilizar a restauração da obra e sua posterior reinstalação, considerando a importância histórica, artística e cultural do monumento para a cidade”.
Bairro dos Artistas
O olindense Corbiniano, integrante do movimento de Arte Moderna do Recife nos anos de 1950 ao lado de nomes como Abelardo da Hora, Reynaldo Fonseca e Samico, instalou sua casa e ateliê na Iputinga e passou a integrar ativamente aquele circuito cultural. Ele e o professor e artista Val Bonfim, morador e liderança local, foram pilares de uma articulação que ali se formava. Era uma resistência de escultores, entalhadores, pintores, fotógrafos, cantores, ceramistas e poetas. O movimento Iputinga Bairro dos Artistas teve forte atuação para a reconstrução do bairro nos anos de 1980.
Por meio do movimento, as ruas da Iputinga passaram a receber obras de arte. “Era um museu a céu aberto, onde cada artista colocou sua obra. A obra de Corbiniano era a primeira a aparecer, na entrada da Iputinga. Um totem com placa e painel com o nome do artista e três obras ao redor. Em cima, ficava o pescador. Obra que retratava a realidade do povo aqui da área, dos ribeirinhos”, detalha Chico Lins, filho do artista e atual diretor do Ateliê Corbiniano Lins. Ele afirma que ainda não teve resposta da causa da depredação e diz nunca ter sido procurado pelo poder público desde que a obra foi removida.
Casarão do antigo Engenho Barbalho, no bairro da Iputinga | Foto: Divulgação/FundarpeCasarão
Além de fomentar intervenções urbanas, Val Bonfim idealizou e fundou um polo de ateliês compartilhados no antigo casarão do Engenho Barbalho. A edificação histórica, que estava abandonada, se transformou, assim, em galeria de arte para fruição da produção do grupo junto à comunidade local. Nesse casarão hoje funciona a Escola Municipal Casarão do Barbalho. Infelizmente, a instituição não guarda mais nenhum vestígio daquele período.
A ausência de marcas de uma história tão recente desse território evidencia o perigo de seu completo esquecimento. “São processos que levam as pessoas, de alguma maneira, não só ao desconhecimento daquilo, como a uma completa falta de identificação com certos símbolos culturais da cidade. Um grande risco é que algo de muita importância culturalmente para um lugar, uma cidade, às vezes sofre um grande apagamento, um processo de esquecimento. E isso é muito complicado, muito triste”, avalia o professor e sociólogo Paulo Marcondes.
Novos artistas
Mais recentemente, o mesmo Casarão do Barbalho, polo de resistência do movimento Bairro dos Artistas, tem sido palco de intervenções de cultura urbana por jovens artistas, na tradicional Batalha do Casarão – que realizou sua 7ª edição no ano passado. Mutirões de grafite também são promovidos por coletivos e institutos socioculturais da comunidade.
A rapper Bione já esteve em uma dessas batalhas, apesar de sua especialidade ser de escrita e não de freestyle, mais comum nesses eventos. “A arte, em especial o rap – que é parte da cultura hip hop – mudou completamente o rumo da minha história. Sempre morei pela Zona Oeste do Recife e, por conta da falta de moradia fixa, reconheço que sou cria dessa região inteira. Vivi na Iputinga (Favela do Detran) por pouco mais de um ano em um momento decisivo para minha carreira. Precisei me concentrar muito em onde a arte me levaria sendo uma negra, lésbica e pobre tentando se sustentar com 19 anos em meio a tudo (de bom e ruim) que acontece dentro das favelas”, compartilha a artista.
Bione conheceu o movimento Iputinga Sociocultural através do graffiti; na imagem, ela e o artista Jeff Alan | Foto: Acervo pessoalAo conhecer o movimento Iputinga Sociocultural, Bione participou do seu mutirão de graffiti e isso foi uma virada de chave para ela. “Quando me mudei para a Rua Sandolândia, convidei o artista Jeff Alan para trazer arte visual para a casa de uma artista da voz que estaria chegando ali. Ofereci meu muro e um caldinho de feijão. Ele topou na hora, também porque entende o que significava levar arte para aquele loca”, conta.
“Esse muro definitivamente demarcou o meu lugar na Iputinga e atraiu a admiração e o respeito que eu não conseguiria atrair com palavras. Pude aprender e ensinar sobre rap feito por mulher, vivi momentos muito desafiadores, ganhei e perdi pessoas que sempre serão lembradas. Torço para que um dia todas essas favelas encontrem com a paz que só a arte é capaz de transmitir”, deseja a jovem artista.
