Em uma das paredes, o badalo de um relógio antigo não ressoa para adiantar o tempo. O tom exalta pessoalidades de um universo criativo perene, que não combina com o passar das horas. No canto, um par de pantufas é acessório de uma cadeira vazia, outrora ocupada. E na mesa, os óculos repousados.
Mais adiante, pincéis sujos de tintas e um cavalete iluminado pela luz natural da janela por onde Francisco Brennand (1927-2019) fazia as vezes de observador imerso em um universo particular que a partir de hoje se torna público.
Trata-se do ateliê construído na década de 1970 na Oficina Francisco Brennand, na Várzea, Zona Oeste da cidade, ambiente principal utilizado pelo artista por muito tempo e que, após sua morte, manteve-se fechado para ser reaberto ao público pela primeira vez.
O espaço “Ateliê Francisco Brennand – Uma Janela Para o Mundo” abriga detalhes cuidadosamente percebidos pela equipe de Acervo e Documentação do museu, responsável pelo levantamento da coleção que resguarda livros, manuscritos, fotografias e obras, entre outras minúcias.
“Constituímos o espaço como ele deixou. Abrimos os livros, olhamos os objetos. São infinitas curiosidades, entre elas, um troféu da Infraero que ele recebeu com a inscrição que o tem como o maior artista dos aeroportos”, conta Camila Bechelany, diretora Artística e de Programação da Oficina, que também assina a curadoria da exposição, em conversa com a Folha de Pernambuco, e que esteve, a convite, em visita ao espaço.
Camila revela, ainda, a admiração de Brennand pelo escritor argentino Jorge Luís Borges. “Vimos que ele tinha todos os livros, e com anotações. Isso foi um achado muito importante. Os animais que ele reproduziu em cerâmica, alguns deles aparecem em obras de Jorge Luís Borges, por exemplo”, destaca Camila.
Ela ainda cita a coleção de música erudita como parte do acervo. O público, aliás, poderá adentrar o universo musical de Brennand em uma playlist elaborada com composições apreciadas pelo artista, acessando um QR Code fixado na parede da primeira sala do ateliê. A organização foi da curadora-assistente do museu-ateliê, Rita Vênus.
Vista para o jardim
Localizado nos Salões de Esculturas da Oficina, o ateliê – de 65m², com duas salas e pelo menos 2 mil itens – é formado pela Sala de Memória, com objetos pessoais e de valor afetivo. No mesmo ambiente o visitante é convidado a assistir trechos do documentário “Francisco Brennand” (2012), dirigido por Mariana Brennand Fortes.
Uma segunda sala reproduz a visão de mundo de Brennand vista através de uma janela com vista para o jardim da Praça Burle Marx.
Espaço está aberto a partur deste sábado (8), na Oficina Francico Brennand | Crédito: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco
“A gente sabe que ele gostaria de fazer isso, abrir o espaço dele para as pessoas entenderem onde era que o sonho nascia, onde as obras eram criadas. O ateliê era o momento dele do desenho, da leitura, de ver filmes, dos pensamentos, tudo que inspirava”, pontua Marcos Baptista, presidente da Oficina Francisco Brennand.
Itinerância
Completando um primeiro ciclo de celebrações dos 100 anos de Francisco Brennand – completados em junho de 2027 – a Fundação Bienal de São Paulo também abre hoje, na Oficina, as portas para itinerância de sua 36ª Bienal.
É a segunda vez que o evento traz um recorte para Recife, a primeira se deu em 2011. Agora será com a exposição “Nem Todo Viandante Anda Estradas – da Humanidade como Prática”. “Vamos realizar um dos sonhos que ele tinha, dialogar com outros artistas, outras expressões”, ressalta Marcos Baptista.
Itinerância integra celebrações do centenário de Francisco Brennand, em 2027 | Crédito: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco
Com curadoria de André Pitol e Leonardo Matsuhei, e assinatura da Petrobras, a itinerância reúne obras de Alberto Pitta, Metta Pracrutti, Ming Smith e Rebeca Carapiá, entre outros artistas.
A mostra veio para o Recife com o Movimento manguebeat como uma das bases conceituais e os rios Capibaribe e Beberibe presentes como referência geográfica e como paradigma conceitual.
Serviço
“Ateliê Francisco Brennand – Uma Janela para o Mundo”
Quando: aberto a partir de hoje (8)
Itinerância 36ª Bienal de São Paulo
Quando: de hoje até 18 de outubro
Onde: Oficina Francisco Brennand – Rua Diogo de Vasconcelos, s/n, Várzea
A partir de R$ 20 (visitação gratuita na abertura e às terças)
Visitação: de terça a domingo, das 9h às 17h – o acesso ao ateliê é até às 16h
Informações: @oficinafranciscobrennand
