Tom Zé está chegando aos 90 anos, mas continua interessado naquilo que ainda não ganhou nome. É desse misto entre a curiosidade, o desejo e a invenção que nasce “Futuro Fruto”, single que reúne o compositor baiano aos paulistas Marcelo Segreto, 43, e Loretta, 26.
A canção parte de um texto livre enviado por Tom Zé a Loretta, que o transformou em poema antes de Segreto, junto com o autor, convertê-lo em música.
O resultado chegou às plataformas nesta quinta-feira (20), pela dobra discos em parceria com a Gravadora Experimental, com produção e arranjo de Segreto e uma formação instrumental pouco usual: apenas um quinteto de metais.
Uma fruta para chamar de desejo
No centro da canção está a fantasia de encontrar uma criatura inédita – uma “pessoa-fruta” que jamais existiu – como metáfora para a procura amorosa e artística.
Tom Zé ainda participa da gravação declamando a frase que abriu seu texto original. A ideia poderia desembocar numa meditação sisuda sobre desejo, ciência e criação. Mas, nas mãos do trio, ganha outra temperatura: a filosofia veste fantasia, põe confete no bolso e sai andando pela rua.
Para Loretta, o texto revelou uma dimensão de Tom Zé que vai além de sua conhecida invenção musical. “Esse texto me fez admirá-lo pela precisão intelectual com que descreve a insaciável ambição humana, traçando um paralelo entre o desejo romântico e a busca científica”, afirma.
Segundo ela, existe ali uma espécie de encantamento infantil diante dos mistérios do mundo, justamente a chave que levou os músicos a buscar uma sonoridade “divertida e fantasiosa”.
A canção também cutuca a idealização do amor e da arte e convoca a ideia do “bruto jardim”, aproximando a utopia tropicalista da aspereza da vida urbana. O diálogo com a Tropicália também aparece na música como método: misturar o incompatível, desconfiar das fronteiras e fazer da música uma ferramenta para pensar.
Metais em marcha
A escolha de abandonar bateria, violão e baixo em favor de dois trompetes, trompa, trombone e tuba nasceu de uma antiga vontade de Marcelo Segreto de escrever para quinteto de metais.
Quando a parceria com Tom Zé e Loretta apareceu, ele percebeu que aquela formação poderia vestir perfeitamente o humor da composição.
“Eu já tinha uma vontade antiga de escrever um arranjo para quinteto de metais”, conta Segreto. Para ele, os sopros acentuam justamente o caráter brincalhão e irreverente da letra, além de reforçarem sua aproximação com o universo tropicalista.
O efeito é quase de banda marcial atravessando uma esquina improvável: os metais carregam a melodia, produzem movimento e dão à canção uma graça física.
É uma escolha que combina com a lógica de Tom Zé, mestre em fazer ideias aparentemente incompatíveis caberem na mesma canção.
A invenção como estado de espírito
A parceria também coloca em contato três momentos distintos da música brasileira. Loretta, de 26 anos, vem de uma formação clássica ao piano e pesquisa caminhos autorais atravessados por soul, blues e música brasileira.
Segreto, 43, é cantor, compositor e criador da Filarmônica de Pasárgada, grupo que há anos trabalha no cruzamento entre canção, experimentação e humor. Tom Zé, por sua vez, segue produzindo como quem ainda desconfia de qualquer ponto final.
É essa capacidade de conciliar estranhamento e comunicação que Marcelo identifica como uma das forças do compositor. “Ele tem um estilo muito único (ele inventou uma maneira só dele de criar) e, ao mesmo tempo, também compõe canções muito populares, melodiosas, engraçadas, obras que conquistam o público de supetão”, observa. Para Segreto, essa convivência entre experimentalismo e música popular é uma das marcas mais férteis do espírito tropicalista.
Loretta chama Tom Zé de “cientista musical”, alguém cuja obra nasce de pesquisa, combinação e experimentação. E enxerga no encontro uma espécie de antídoto para a velocidade contemporânea.
“Dialogar com o tropicalismo hoje requer muita atenção aos próprios pensamentos. A internet provocou uma compressão do tempo-espaço e a rapidez virou regra. Trabalhar com Tom Zé me convida a refletir antes de adotar conclusões prontas. E que honra trabalhar com alguém que faz tamanho bom uso da própria mente!”, destaca a artista.
O que ainda não existe
“Futuro Fruto” chega, assim, às vésperas das nove décadas de Tom Zé, mas olha para frente.
A própria maneira como o compositor trabalha ajuda a explicar essa vocação: Segreto conta que ele modifica letras e melodias até os últimos instantes, perseguindo uma forma que, de algum modo, já está em sua cabeça antes de existir plenamente na canção. “Ele é um cancionista incansável, um trabalhador da canção”, resume.
E a “pessoa-fruta” ansiada pelo baiano? Ela não é apenas uma invenção estranha, mas uma declaração de princípios. Aos quase 90, Tom Zé continua procurando o que ainda não foi encontrado. E, desta vez, encontrou dois parceiros de gerações diferentes dispostos a procurar com ele.
