Vestida com a camisa da Seleção após a vitória do Brasil sobre o Japão, a diretora Dandara Ferreira (de “Meu nome é Gal”, 2023) concedeu entrevista à Folha de Pernambuco em um momento de comemoração coletiva, algo impensável há seis anos, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) determinou o estado de pandemia de Covid-19.
O caos
Em 2021, assistir a um jogo cercado de pessoas parecia um sonho. Além do isolamento, o Brasil enfrentava uma condução desastrosa do quadro pandêmico pelas autoridades, que terminou resultando na morte de mais de 700 mil brasileiros.
É justamente esse período que “Anatomia do Caos” revisita. O documentário de Dandara Ferreira estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (2) e terá sessão especial no Cinema São Luiz, no Recife, no próximo sábado (4), às 18h, com a presença da diretora.
O filme mostra como decisões deliberadas e a ausência de respostas adequadas à emergência sanitária agravaram a crise, reunindo registros inéditos dos bastidores da CPI da Covid, documentos e investigações que evidenciam falhas estruturais na condução da pandemia.
A pandemia ainda gera caos interno e, simbolicamente, é um período que não passou. “Eu acho que revisitar esse período não é confortável, porque eu acho que ele acessa um trauma coletivo”, reflete Dandara Ferreira.
Produção e coragem
Mesmo diante de tanto medo e incerteza, Dandara, que nunca havia operado uma câmera, em abril de 2021, decidiu ir a Brasília com uma filmadora com microfone acoplado e acompanhou de perto, dentro do Senado, os bastidores de todo o processo da Comissão Parlamentar de Inquérito. Em meio à avalanche de informações truncadas e muita desinformação, o documentário organiza os acontecimentos e ajuda o público a reviver, de alguma forma, esse período com mais clareza.
Memória
Diante de horas e horas de material coletado, o desafio era definir o fio condutor da narrativa. Dandara, juntamente com a equipe de montagem – encarregada por Lara Becke Renato Sircilli – dividiu o filme em três atos. “Poderiam ser vários assuntos abordados, mas a gente se concentrou mais ou menos em três atos. O primeiro ato é o gabinete paralelo. O segundo ato é o esquema de corrupção e o terceiro ato é negacionismo e fake news”. O fotógrafo Roberto Stuckert, que também tinha acesso ao Senado no período, contribuiu com algumas imagens.
O filme preserva a memória de filhos que ficaram sem pais. Pais que perderam seus pais e filhos e amores por, além de um vírus, e faz refletir sobre as responsabilidades políticas daquele período. A diretora vê a CPI da Covid como palco de uma tragédia nacional. “Sem memória, é difícil evoluir como nação e pensar que país queremos construir”, afirma.
Em um momento em que a pandemia começa a ocupar um lugar cada vez mais distante na memória coletiva, “Anatomia do Caos” propõe revisitar esse capítulo da história recente do Brasil a partir de documentos, bastidores e personagens que ajudam a compreender como o país chegou àquele cenário.
Mais do que reconstruir os acontecimentos, o documentário convida o público a refletir sobre a importância da memória como instrumento para fortalecer a democracia e evitar que tragédias semelhantes se repitam. “É muita gente que ainda tem esperança de uma justiça. Porque ninguém nunca foi punido, nunca ninguém, nem pedido de desculpas”, conclui a diretora.
Música e política e música
Com carreira marcada pela estreia no cinema de ficção com a cinebiografia de Gal Costa (“Meu Nome É Gal”), protagonizada por Sophie Charlotte, Dandara fará seu retorno à temática musical com o documentário “Vou Tirar Você Desse Lugar”, sobre a trajetória e a obra de Odair José, já em fase de conclusão.
“Eu acho que, na verdade, de alguma forma, os três (documentários) se interligam porque os três querendo ou não têm a política”, analisa Dandara sobre a costura entre os mundos.
