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A obra-prima do cinema iraniano que vai te deixar estarrecido e arrepiado, na MUBI

A obra-prima do cinema iraniano que vai te deixar estarrecido e arrepiado, na MUBI

Atualmente, o cinema iraniano é um dos mais importantes e proeminentes do mundo. De Abbas Kiarostami a Jafar Panahi, a linguagem cinematográfica do Irã sofreu uma transformação profunda a partir de 1979, com a ascensão da República Islâmica do Irã. A partir daí, com a imposição de códigos morais rígidos, a repressão às mulheres, a vigilância da vida privada e a censura, o cinema passou a se consolidar como uma forma indireta de expor e tensionar o governo teocrático.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional e lançado no Festival de Cannes de 2024, “A Semente do Fruto Sagrado” viveu uma verdadeira saga para ser produzido. Gravado em segredo, com um elenco reduzido para não levantar suspeitas e formado por pessoas de confiança, o longa-metragem só conseguiu ser finalizado graças a investimentos de coprodução europeia, especialmente de empresas francesas e alemãs. A existência do filme só se tornou amplamente conhecida após sua seleção para Cannes, e Mohammad Rasoulof chegou a ser condenado a oito anos de prisão, além de outras penalidades, incluindo confisco de bens, em meio à repressão estatal.

A semente da polarização

Quando convocado judicialmente, Rasoulof aproveitou a brecha de tempo que tinha para deixar o país, em um movimento arriscado que atravessa o próprio espírito do filme. Clandestinamente, o material foi enviado para a Europa, onde foi finalizado, incluindo a etapa de montagem. Tudo ao redor do filme carrega essa atmosfera de tensão, risco e subversão.

Se, no Brasil, a polarização política dividiu famílias e separou amigos nas eleições de 2018 e 2022, “A Semente do Fruto Sagrado” é a materialização de como a política pode se infiltrar nas relações pessoais e corroer vínculos por dentro. No enredo, Iman (Missagh Zareh) é nomeado juiz e passa a atuar diretamente dentro da engrenagem do regime iraniano. Seu trabalho é um tabu dentro de casa, já que representa exatamente o sistema que suas filhas questionam. Rezvan (Mahsa Rostami) e Sana (Setareh Maleki) são jovens conscientes da repressão, especialmente contra mulheres e opositores do governo. A mãe, Najmeh (Soheila Golestani), tenta sustentar um frágil equilíbrio, mediando conflitos que já não cabem mais no silêncio.

Caso que inspirou

O filme também observa, a partir de imagens reais de manifestações, o impacto da morte de Mahsa Amini, jovem iraniana de 22 anos detida pela polícia da moralidade sob acusação de uso inadequado do véu. Sua morte desencadeou protestos em todo o país e a transformou em símbolo de resistência. Esse contexto atravessa o cotidiano das filhas, que desejam se juntar às manifestações, mas enfrentam dentro de casa uma estrutura igualmente autoritária, já que o próprio pai integra o sistema que pune e controla.

Desconfiança corrosiva

Quando a arma de Iman desaparece misteriosamente, uma intriga familiar passa a se intensificar e tensionar o ambiente doméstico. Desconfianças, pressões e interrogatórios passam a fazer parte da rotina, enquanto o pai já não confia nas próprias filhas. A tensão cresce de forma contínua, e o filme também muda de ritmo e gênero. Se antes parecia um thriller político, aos poucos assume contornos de um terror alegórico, em que o desaparecimento da arma simboliza a erosão da autoridade, não apenas do pai, mas da própria ideia de controle. A convivência se torna insustentável, e a desconfiança contamina todas as relações.

“A Semente do Fruto Sagrado” é uma obra feita sob condições extremas, marcada por riscos reais ao cineasta, ao elenco e à equipe. Não é somente um filme, é um sopro de resistência. A obra mostra como o cinema iraniano, ao longo das décadas, transformou restrições em linguagem, e como seus realizadores seguem produzindo não apenas arte, mas registros vivos de um autoritarismo em curso.



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