Categories: Cultura

A Netflix acaba de receber um dos filmes mais intensos e ambiciosos do cinema moderno

Em “Magnólia”, Paul Thomas Anderson reúne Tom Cruise, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman e John C. Reilly num Vale de San Fernando atravessado por um único dia. Um produtor de televisão à beira da morte tenta falar com o filho de quem se afastou, enquanto um apresentador doente, uma filha dependente de cocaína, um policial solitário, um ex-campeão infantil e um menino-prodígio circulam pelo mesmo ambiente de estúdio, apartamento e hospital. O programa “What Do Kids Know?” não fica na margem dessa rede, porque liga adultos e crianças por dinheiro, prestígio e desgaste. Quando a narrativa passa de um quarto para um auditório, de um apartamento para o palco de um seminário, ela prende cada personagem a um lugar que já traz uma função e um limite.

Earl Partridge passa os últimos dias num leito, com câncer terminal, e entrega a Phil Parma uma tarefa simples e urgente, encontrar Frank T.J. Mackey antes que o tempo acabe. Phil não aparece ali como confidente abstrato, mas como enfermeiro que ajusta o cuidado, atende ao pedido e sustenta a rotina de um quarto onde remédio, espera e telefone organizam a ação. Linda Partridge entra nesse espaço por outra via, porque o casamento começou no interesse financeiro e agora esbarra no susto de amar um homem que está morrendo. O filme encontra peso nesse quarto quando insiste menos na confissão do que no procedimento de tentar alcançar alguém que ainda está longe do leito.

Seminário e leito

Frank T.J. Mackey ocupa essa distância com uma persona pública vendida em auditórios cheios de homens, repetindo slogans de humilhação e conquista como se o desejo pudesse ser reduzido a método. Anderson não separa esse seminário do quarto de Earl, porque o chamado do pai e a entrevista que desmonta a pose começam a cercar o mesmo personagem por lados diferentes. Tom Cruise segura a passagem do palco para a defensiva, do domínio verbal para o travamento, sem que o filme precise transformar a biografia dele numa tese geral sobre masculinidade. O que aparece em cena é um homem que fala alto diante da plateia e perde terreno quando a conversa sai do script e volta para a casa que deixou para trás.

Jimmy Gator também carrega o peso de um passado que não ficou guardado fora de quadro. Ele é o rosto veterano de “What Do Kids Know?”, está doente e já não tem acesso à filha Claudia, que vive isolada, usa cocaína e mantém contra o pai uma acusação que rompe qualquer gesto automático de reconciliação. Quando Jim Kurring chega ao apartamento dela por causa do som alto, o encontro não dissolve esse histórico, porque a aproximação nasce dentro de um espaço tomado por recuo, medo e descontrole. John C. Reilly faz do policial um sujeito que insiste em permanecer ali com o próprio constrangimento, enquanto Melora Walters mantém Claudia oscilando entre abrir a porta e fechar o corpo.

Quiz show e desgaste

O programa de perguntas e respostas amplia esse circuito de dano quando coloca Stanley Spector e Donnie Smith em pontos opostos da mesma vitrine. Stanley ainda é a criança levada pelo pai para render prêmio e dinheiro diante das câmeras, e o cansaço dele já aparece como limite físico dentro de uma engrenagem que exige acerto contínuo. Donnie surge depois desse brilho, preso à lembrança de ter sido campeão infantil e incapaz de transformar esse passado em vida estável na idade adulta. William H. Macy segura esse resíduo de fama no corpo de um homem financeiramente frágil, ainda preso a um programa que prometeu visibilidade e deixou para trás um adulto sem direção.

A sequência em que os personagens cantam “Wise Up” só se sustenta porque o filme já espalhou esses corpos por quartos, carros e apartamentos, e a canção passa a ligar o que antes seguia isolado por parede, função e segredo. O mesmo vale para a chuva de sapos, que cai sobre a cidade como interferência material e atinge um enredo até então preso a doença terminal, cocaína, dinheiro, abuso e rotina televisiva. Anderson arrisca muito ao empurrar esses personagens para um acontecimento que rompe o naturalismo, mas o impacto não apaga o que o filme acumulou antes. Quando a noite fecha esse dia no Vale de San Fernando, ainda restam um enfermeiro tentando cumprir uma ligação, um policial parado diante de uma mulher assustada e um menino pressionado a continuar respondendo.

Em “Magnólia”, Paul Thomas Anderson reúne Tom Cruise, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman e John C. Reilly num Vale de San Fernando



Fonte

Redação

Recent Posts

Boeing supera Airbus em entregas no 1º trimestre de 2026

Boeing entrega 143 aeronaves no 1º trimestre de 2026, liderada pelo 737, e supera AirbusA…

25 minutos ago

Relator da indicação de Jorge Messias ao STF apresenta parecer favorável

O relator da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) no Senado, Weverton…

27 minutos ago

Gabriela Saporito, a “Panquequinha”, é a 15ª eliminada do BBB 26 com 64,12% dos votos

Gabriela Saporito foi a décima quinta eliminada do Big Brother Brasil 26. Nesta terça-feira…

38 minutos ago

Uma mulher desaparece e dá início a um dos filmes mais inteligentes e imprevisíveis do Prime Video

Sonhar pode vir a ser uma perigosa armadilha. Quando a vida entra numa espécie de…

39 minutos ago

Vencedores do M&E Awards 2026 são premiados durante a WTM-LA 2026; veja fotos

SÃO PAULO — Na tarde desta terça-feira (14), durante a WTM Latin America 2026, o…

1 hora ago

Lula envia ao Congresso projeto de lei pelo fim da escala 6×1

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso Nacional, na noite desta terça-feira…

1 hora ago