Ainda está por ser estudada a transformação do personagem Capitão Nascimento, de “Tropa de Elite” (1 e 2), em herói nacional. Volta e meia, esses filmes aparecem entre os mais assistidos de algum streaming. Desde 2007, eles encarnam, na verdade, uma utopia de país. Trata-se de um horizonte de expectativa, uma visão de comunidade nacional, e não de uma distopia, como se pode pensar de forma ligeira. O prestígio dos filmes, longe de serem produtos do entretenimento, reflete um desejo coletivo, que é o de encontrar um remédio qualquer para a violência cotidiana.
O afeto que move as duas criações do diretor José Padilha é o medo, e seu desdobramento está numa ideia de revide social ainda mais forte. Seus filmes foram legitimados pelo público, até desejados, em um contexto em que uma certa ideia de “ordem” é apresentada como valor social. A figura de Nascimento simboliza, portanto, a busca de uma paz garantida pela guerra permanente — uma “guerra particular”, para lembrar o documentário “Uma Guerra Particular”, do ano de 1999. Pacificador e pacifista são papéis diferentes. É o que Mano Brown chamou de “fórmula mágica da paz”.
Podemos encontrar dois aspectos nesses filmes. Um deles é mais geral e permite situar a narrativa no contexto do século 21. O outro é interno, fazendo parte da economia dos filmes, ou seja, da forma de contar as histórias. O resultado obtido é a construção de uma linguagem de poder e de uma utopia coletiva.
No primeiro aspecto, a contradição central é o próprio personagem-narrador, que promete instaurar a “ordem” por meio da mais absoluta “desordem”. Ele cria suas próprias leis, decide quem deve morrer e define os limites de sua própria autoridade. A crueldade de Nascimento se equipara à dos criminosos. Sua legitimidade se baseia apenas na crença de que a violência praticada por ele mesmo é moralmente superior. É a racionalidade do poder, descrita por Michel Foucault, levada ao extremo lógico. Por isso, a recusa explícita às ideias do pensador francês no primeiro filme.
Fora da ordem
O verdadeiro inimigo, no universo de “Tropa de Elite”, não é o traficante, mas sim o defensor dos direitos humanos e os estudantes universitários. Aqueles que imaginam outros afetos (que não sejam o medo e o ressentimento) são convertidos em inimigo interno. Os dois filmes fazem da compaixão um sinal de fraqueza, pois a crítica dos modos violentos seria um indício de cumplicidade com o mal. Mas o que se vê na tela é o retrato da exceção que Giorgio Agamben descreveu: o ponto em que a suspensão da lei se torna norma e a violência se apresenta como o fundamento da soberania.
Não é por acaso que o primeiro filme ridiculariza tanto os estudantes que leem Foucault. O filósofo mostrou que o poder moderno não se exerce apenas pela repressão e está na administração da vida, sobretudo na gestão de corpos e condutas. Estamos falando da ideia de “vida nua”, a vida que pode ser “matada”, sem que haja imputação de crime. “Tropa de Elite” revela a face concreta dessa ideia (a biopolítica). Não mais se administra a vida, mas se distribui a morte. Surge, então, a “necropolítica”, conceito de Achille Mbembe, o poder que decide quem pode viver e quem deve morrer.
Capitão Nascimento poderia ser um filho do delegado Sérgio Fleury, personagem real da ditadura militar retratado no filme “Batismo de Sangue” (2006), de Helvécio Ratton. Por coincidência, os dois filmes saíram na mesma época e são espelhos um do outro. Aqueles homens da ficção, baseados em figuras reais, vivem dentro e fora da lei, num estado permanente de exceção. Creem instaurar a ordem, porém só reproduzem o caos. Acreditam agir racionalmente e, como o personagem de Edgar Allan Poe, vivem “nos intervalos lúcidos da própria enfermidade”.
A figura de Nascimento foi uma virada na antiga utopia nacional. Não é mais a “democracia social” ou o “equilíbrio dos antagonismos” de Gilberto Freyre. Agora, existe a utopia de uma ordem purificada. A ambiguidade do homem cordial, de Sergio Buarque de Holanda, se mostra sem disfarce — vamos falar adiante dos motivos de “Tropa de Elite” recusar as mediações, os filtros para se entender a realidade. O herói sem nenhum caráter de nosso tempo é aquele que mata em nome da moral. Ele quer ser o guardião da lei que só existe porque ele próprio (e somente ele) pode suspendê-la.
A voz legitimada
Os dois “Tropa de Elite” anteciparam o léxico e a sintaxe dos discursos políticos que dominariam o Brasil a partir de 2010. Já estavam ali, condensados no interior dos filmes, não apenas um imaginário. Havia, sobretudo, um modo de representar, enquadrar e narrar a realidade que moldou a gramática do radicalismo contemporâneo. Em outras palavras, estamos diante de uma construção ideológica, no sentido estrito do termo, ainda que muita gente torça o nariz para a palavra “ideologia”. Mas é justamente a ideologia que opera por meio de formas de linguagem que, repetidas à exaustão, organizam a percepção coletiva. E os exemplos acumulados nos filmes deixam isso evidente.
As expressões (“pede pra sair”, “bandido bom é bandido morto”) e a numeração dos soldados do BOPE em “01, 02, 03, 04” são miniaturas discursivas prontas para a circulação viral da internet. São verdadeiros memes avant la lettre, moldados para uma cultura digital que ainda se formava 18 anos atrás. José Padilha intuiu ou constituiu isso na própria escrita do roteiro. As frases são afiadas como slogans, ritmadas como bordões políticos e desenhadas para serem repetidas. Assim, a ficção já prepara o terreno para a gramática da política contemporânea.

O dispositivo que organiza tudo isso é a voz em off do Capitão Nascimento, o narrador que manda e desmanda no relato. A voz dele opera no papel de consciência autorizada. Faz a promessa de acesso direto aos bastidores do “real”. É ele (e somente ele) quem “sabe” o que realmente acontece nas ruas e morros do Rio de Janeiro. Como diz Anna Kornbluh, há uma fabricação de “imediatez”, a ausência de mediação. O relato não precisa ser interpretado, contextualizado, pensado. Ele é apresentado como a evidência direta da realidade. O olhar de Nascimento seria a prova de tudo.
É justamente a recusa das “mediações” (sociologia, história, ciência política, psicanálise, Foucault) que transforma a voz em off dos filmes em uma espécie de verdade absoluta. A narrativa só é tomada como verdadeira, pelo espectador, porque elimina previamente qualquer outra forma de interpretação — daí a sua “imediatez”, no sentido de Kornbluh. “Tropa de Elite” já é uma autoficção, pois a verdade, no universo dos dois filmes, provém exclusivamente da fala do narrador.
A mesma lógica se organiza em torno de uma outra palavra-chave de “Tropa de Elite”: sistema. O Capitão Nascimento é apresentado como o sujeito que combate o sistema, um tema que José Padilha aprofundaria na série “O Mecanismo”. São sempre mecanismos ou sistemas que precisam ser enfrentados por alguém supostamente de fora (um outsider). A ironia é que esse personagem que se enuncia do lado externo é, na verdade, parte orgânica do próprio sistema (um estabelecido). Criados por Norbert Elias, os conceitos de outsider e estabelecido iluminam bem “Tropa de Elite”.
Máquina cultural
Nascimento reproduz as engrenagens do sistema. Aqui estamos falando, mesmo usando um conceito que muitos rejeitam, de contradições sociais. A narrativa inteira resulta em contradições estruturais do discurso do personagem. Ao final das contas, pode-se pensar mesmo na existência de um delírio do Capitão Nascimento (que se entope de antidepressivos). O filme é uma contradição encarnada, tanto na forma como é narrado quanto nos valores que diz defender.
Outro ponto de “Tropa de Elite” é que não existem “danos colaterais” nos atos dos homens da lei e da ordem. Aquilo que é chamado de dano colateral (assassinatos, ocultação de corpos, tortura) é a própria essência do processo de produzir a ordem pelo Capitão Nascimento. A violência é o método, o meio e a justificativa para tudo. Não há separação entre combate ao crime e prática sistemática de ilegalidades. A narrativa legitima essa fusão e, com ou sem intenção, vai se transformar, anos depois, em discurso radical e em populismo digital.

A força desse arranjo estético-narrativo explica por que “Tropa de Elite” não se limitou ao cinema. Trata-se de uma “máquina cultural”, para usar a ideia de Beatriz Sarlo, capaz de transbordar para a política, o cotidiano, a educação e as percepções mais elementares. Produtos culturais dessa envergadura vão além de refletir um imaginário, pois ajudam a moldá-lo. Os filmes de Padilha moldaram o nosso em profundidade, dando formas de linguagem, estruturas emocionais e modelos de interpretação que organizam os discursos estabelecidos hoje no país.
Após a utopia de “Tropa de Elite”, José Padilha partiu para Hollywood, onde dirigiu um novo “RoboCop”, a versão cibernética do mesmo tipo, o policial que encarna o poder de punir. Depois, na série “Narcos”, transferiu essa lógica para a Colômbia de Pablo Escobar. O messianismo biopolítico tornou-se, assim, estética, moral exportável e política. A indústria do entretenimento fechou o círculo. Do morro carioca à fronteira mexicana, do caveirão ao drone, o herói se repete sempre armado, se achando justo e fora da lei. O medo tornou-se o último afeto de coesão social.
