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A atuação emblemática de Leonardo DiCaprio em faroeste baseado em drama de sobrevivência real

A atuação emblemática de Leonardo DiCaprio em faroeste baseado em drama de sobrevivência real

“O Regresso”, dirigido por Alejandro G. Iñárritu, mostra Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) depois que o experiente guia sofre um ataque de urso durante uma expedição de caça no interior gelado da América do Norte e passa a lutar para sobreviver após ser abandonado pelos próprios companheiros. O filme mergulha o espectador num território hostil onde qualquer erro custa comida, abrigo ou alguns minutos de vida. Desde a primeira sequência, Iñárritu deixa evidente que aqueles homens estão longe de qualquer segurança. Flechas atravessam corpos em ataques repentinos, cavalos desaparecem rio abaixo e decisões precisam ser tomadas sob pressão constante.

Glass conhece aquela região melhor que muitos integrantes do grupo. Ele sabe identificar rastros, prever mudanças do clima e localizar caminhos mais seguros. Ainda assim, o ataque do urso destrói completamente sua condição física. A cena é longa, brutal e desconfortável. Iñárritu não corta os golpes nem transforma o momento em espetáculo heroico. Hugh Glass é esmagado, arrastado e mutilado diante dos outros caçadores. Quando sobrevive, já não consegue andar sozinho, respirar sem dor ou se defender adequadamente.

Abandono cruel

É nesse momento que John Fitzgerald, personagem de Tom Hardy, ganha espaço dentro da história. Fitzgerald aceita permanecer com Glass até sua morte em troca de pagamento, acompanhado do jovem Jim Bridger, interpretado por Will Poulter. Só que o personagem de Hardy nunca demonstra qualquer compaixão verdadeira. Ele enxerga o homem ferido como atraso perigoso num território tomado pelo frio e pela ameaça de novos ataques indígenas. A situação piora quando Hawk, filho de Glass vivido por Forrest Goodluck, interfere numa discussão entre os dois homens. Fitzgerald reage de forma violenta e empurra a narrativa para um caminho marcado pela vingança.

O abandono de Glass acontece num cenário sufocante. A neve cobre tudo, os rios congelam parcialmente e até acender fogo parece exigir esforço absurdo. Leonardo DiCaprio passa boa parte do filme quase sem diálogos, apoiando a interpretação em respiração pesada, olhares exaustos e movimentos lentos. Existe algo impressionante na maneira como o ator transforma dor física em linguagem corporal. Glass rasteja, cai, se arrasta entre árvores e tenta fechar ferimentos improvisando recursos mínimos. Em alguns momentos, o personagem parece movido apenas por teimosia. E talvez seja exatamente isso.

Iñárritu filma essa travessia com uma proximidade angustiante. A câmera acompanha o rosto congelado de Glass, registra o vapor saindo da boca e permanece perto do corpo do personagem até durante mergulhos em água quase congelante. Emmanuel Lubezki, responsável pela fotografia, utiliza luz natural em cenas abertas que deixam os homens pequenos diante daquela paisagem branca e silenciosa. O frio parece atravessar a tela. Há momentos em que o espectador quase sente necessidade de pegar um cobertor enquanto assiste.

Enquanto Glass tenta sobreviver sozinho, Fitzgerald foge carregando dinheiro e uma versão conveniente dos acontecimentos. Tom Hardy constrói um personagem profundamente desagradável sem transformá-lo em vilão caricatural. Fitzgerald é egoísta, racista e covarde, mas também parece resultado daquele ambiente brutal onde ninguém acredita muito em solidariedade. O ator trabalha a voz rouca, o olhar inquieto e a agressividade permanente de maneira tão intensa que cada aparição do personagem produz tensão instantânea.

Jim Bridger vive outro tipo de conflito. O rapaz acompanha Fitzgerald mais por medo do que por convicção. Will Poulter interpreta o jovem com insegurança visível. Bridger percebe que tomou parte num ato cruel, mas não possui experiência ou autoridade suficiente para enfrentar Fitzgerald naquele momento. Essa culpa acompanha o personagem durante boa parte do filme e impede que ele simplesmente siga em frente sem carregar consequências emocionais.

Respeito aos povos indígenas

Há também uma camada importante envolvendo os povos indígenas retratados no longa. Diferente de muitos faroestes antigos, “O Regresso” não transforma os indígenas em figuras genéricas surgindo apenas para atacar homens brancos. O grupo Arikara possui objetivos próprios, especialmente a busca pela jovem Powaqa, sequestrada por franceses. Essa procura atravessa o filme inteiro e interfere diretamente no caminho dos personagens principais. Os conflitos surgem por disputa de território, violência e exploração constante. Iñárritu trabalha essas relações sem romantizar ninguém.

Mesmo sendo um filme marcado por sofrimento físico intenso, “O Regresso” encontra espaço para pequenos momentos de humanidade. Um desconhecido oferece abrigo temporário para Glass, outro divide comida e alguns personagens demonstram gestos simples de compaixão em meio ao caos. Esses instantes ganham força porque o restante do percurso é extremamente cruel. Cada pequena ajuda parece enorme quando o personagem passa dias cercado por neve, fome e solidão.

Peregrinação

A obsessão de Glass por Fitzgerald sustenta a parte final da narrativa. O personagem segue avançando mesmo sem condições físicas adequadas. Ele atravessa rios, enfrenta tempestades e quase perde a consciência repetidas vezes porque precisa alcançar o homem que destruiu sua família. Iñárritu transforma essa busca numa experiência cansativa para o espectador também. O tempo parece longo, pesado e desconfortável. E isso funciona muito bem dentro da proposta do filme.

“O Regresso” impressiona pela resistência física exigida de seus atores, pela fotografia grandiosa e pela capacidade de transformar sobrevivência em algo brutalmente concreto. Alejandro G. Iñárritu filma homens tentando permanecer vivos em condições absurdas, sem glamour, sem frases de efeito e sem qualquer interesse em suavizar a violência daquele ambiente. Quando Hugh Glass finalmente se aproxima de Fitzgerald outra vez, o que resta entre os dois já não envolve dinheiro ou recompensa. Restam frio, desgaste e uma dívida aberta desde o momento em que aquele corpo ferido foi deixado sozinho na neve.



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