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“Toró”: filme-concerto de Vitor Araújo projeta a música instrumental brasileira na Europa

“Toró”: filme-concerto de Vitor Araújo projeta a música instrumental brasileira na Europa

O álbum audiovisual “Toró”, gravado ao vivo em Amsterdã – já disponível no Youtube e outras plataformas digitais – registra a estreia do pianista e compositor recifense Vitor Araújo como solista de uma orquestra sinfônica internacional. Ele entrou no seleto grupo de artistas que tiveram o privilégio de se apresentar ao lado da Metropole Orkest – mais importante orquestra sinfônica permanente dedicada a jazz, pop e world music da Europa.


Lançado no Brasil pelo selo Risco, o projeto é um registro fonográfico e audiovisual do concerto apresentado pelo pianista na capital holandesa em junho de 2024, a convite do prestigiado Holland Festival. O pernambucano foi desafiado pelo evento a apresentar um repertório como solista e compositor junto à famosa orquestra holandesa.


“Quando surgiu o convite, fiquei em dúvida do que fazer, de que repertório tocar. E como tinha a possibilidade, por ser um enorme festival lá da Europa, pensei: ‘pô, eu vou levar comigo alguns músicos de Recife com quem eu gosto muito de tocar”, relembra o pianista.




Veja o concerto completo:



Convidados

Para imprimir o ritmo e a ancestralidade idealizada para o projeto – que teve nove peças assinadas por Vitor, Jacome Bairros e Metropole Orkest – o artista convidou dois percussionistas que surgiram no Morro da Conceição, no Recife: Aduni Guedes e Amendoim, que agregaram o “molho pernambucano” aos arranjos de “Toró”.

O percussionista catarinense radicado em Nova York, Mauro Refosco – famoso por tocar com o Red Hot Chili Peppers, idealizar a banda Atoms For Peace (ao lado de Thom Yorke e Flea) e atuar como diretor musical de David Byrne – também foi chamado para completar o trio de ritmistas. O violinista Felipe Pacheco Ventura e o compositor, músico e produtor Charles Tixier completaram o time.


“O conceito do álbum veio muito dessa união dos músicos, tanto das possibilidades que eu tinha com a sessão de cordas da Metropolitan Orkest, quanto desse grupo de músicos que pude levar comigo”, conta Vitor, que destaca suas influências na música em mestres como Moacir Santos, Heitor Villa-Lôbos e Tom Jobim.


O concerto

Sob regência do maestro Jacomo Bairos, Vitor se apresentou em noite única no Holland Festival e passou a integrar o seleto grupo de artistas que já colaboraram com a Metropole Orkest, entre eles Ella Fitzgerald, Brian Eno, Jacob Collier e o coletivo Snarky Puppy. Vencedora de quatro Grammys e com mais de 20 indicações ao prêmio, a Metropole já havia produzido álbuns com apenas dois outros artistas brasileiros: Edu Lobo e Ivan Lins.

“Confesso que fiquei nervoso. É engraçado que a minha primeira vez como solista e compositor à frente de orquestra sinfônica não foi no Brasil. Na minha cabeça, no que se planeja sobre as etapas e degraus de uma carreira na música instrumental sendo pianista, pensava que a primeira vez seria com uma orquestra recifense e depois, quem sabe, uma orquestra brasileira fora de de Recife, talvez em São Paulo… e dei um pulo maior do que eu imaginava”, comenta.


E não faltou drama para como solista internacional a Vitor. No exato dia do concerto, uma agressiva infecção no dedo anelar quase levou ao cancelamento da apresentação pela junta médica do Holland Festival. Ao invés disso, o pianista decidiu subir no palco contra todas as indicações e durante uma tarde re-escreveu e re-estudou suas partes de piano para tocar à noite com apenas nove dedos.

Ouça o álbum completo:



Repercussão

A imprensa europeia recebeu com entusiasmo o concerto, elogiado em veículos europeus importantes como a revista italiana Musica Jazz, que dedicou quatro páginas ao artista, classificando-o como “uma das mais interessantes personalidades a emergir nos últimos tempos”.

Já a britânica Songlines Magazine destacou a “criatividade incandescente” de Vitor, o comparando a Heitor Villa-Lobos, enquanto a alemã Le Groove ressaltou que “quando se pensar em música inovadora que arrebata, Vitor Araújo é o nome que deve vir à mente”.


Preparação

“Primeiro, formatamos como seria o concerto. Era uma noite só de concerto em Amsterdã. Então, ficamos uma semana na cidade, meio como se fosse um laboratório, uma residência para esse concerto. A gente ficou um tempo ensaiando só eu e os músicos da banda e, depois, um tempo ensaiando junto com a orquestra sinfônica e o maestro Jacob Bairus, que é um regente norte-americano que foi até Amsterdça fazer a regência desse desse concerto”, detalha Vitor.

“Então, a coisa toda nasceu dessas junções, dessas junções que são muito complexas de fazer e isso dá também um divertimento muito grande, um prazer de fazer, porque era uma junção completa, complexa em termos de como unir essas sonoridades, de como fazer elas soarem em conjunto, com muita coisa, muitos músicos em cima do palco”, lembra.

Filme-concerto

Dirigido por Paulo Camacho e Yara Ktaishe, o filme-concerto capta a intensidade da apresentação. Após pré-estreias na Sala São Paulo e no Cinema São Luiz (Recife), a obra está disponível na íntegra nos canais de YouTube do artista e da orquestra.


“Quando a gente ouviu o que estava gravado, que estava muito bom – porque como era uma noite só de concerto, a gente não tinha a possibilidade de fazer outros takes, não tinha dois dias de concerto para escolher as melhores músicas de um dia, só tinha aquela noite – a gente ouviu e se empolgou com o material. Depois de já mixado e masterizado é que eu decidi dar um nome ao disco”, lembra o pianista.


Capa do álbum “Toró, por Raul Luna.


“Toró”

O nome do projeto audiovisual, que antes iria se chamar “Vitor Araújo e Metropole Orkest – Live em Amsterdã”, foi batizado só depois de pronto, após uma provocação do artista visual Raul Luna, amigo de Vitor. E nada mais recifense e adequado do que um dilúvio musical que o artista derrama ao piano.

“O Raul Luna, que trabalha comigo há muitos anos e também é Recifense, falou: ‘essa parada é muito especial, precisa de um nome. Aí eu fiquei com isso na cabeça e buscando nomes e é muito difícil para mim dar título a disco, a música, muito difícil. Eu queria um título que fosse bastante pernambucano e que, de certa forma, amalgamasse essa ideia de caos e da força mesmo que tem dessa massa sonora muito grande que se formou nesse disco”, conta.


“Queria tentar uma palavra que não fosse em português. E aí eu cheguei no “toró”, que é uma palavra tupiniquim que ficou no vocabulário pernambucano muito usada. A gente usa muito para com esse sinônimo de chuva forte repentina que vem aí, em Recife, e a gente sabe como é”, brinca.


Faixa a faixa por Vitor Araújo:


“Toque n.1”

A abertura do concerto se dá através de uma das “macumbas orquestrais” do repertório, peça maximalista com forte inspiração nos trabalhos instrumentais de Villa-Lobos, Moacir Santos e Antônio Carlos Jobim, onde melodias e harmonias com característica de cantiga brasileira vão se avolumando numa espiral crescente entre orquestra, piano e percussões.


“Toque n.3”

Faixa inspirada nas agremiações de afoxé que saem às ruas no carnaval de Recife e Olinda. Um confronto entre os frenéticos elementos cíclicos e percussivos em 140bpm e a melancolia espacial da voz e das cordas da orquestras, com ambos elementos pairando etéreos sobre a acelerada sessão rítmica.


“Toque n.2”

Talvez a mais experimental das músicas de TORÓ, onde um rádio de pilha sintonizado ao vivo é o instrumento solista à frente da orquestra sinfônica. A faixa, construída com técnica minimalista, traz uma homenagem às peças para rádio do vanguardista John Cage e também uma memória da já clássica performance ao vivo do Radiohead tocando “National Anthem”.


“Canto n.5”

Seguindo esse trecho mais especulativa do álbum, “Canto n.5” tem uma veia mais pop, com melodia de voz, sintetizador, guitarra, drum machines, MPC, vibrafone e as paisagens sonoras grandiosas da Metropole Orkest, desenhando uma música onírica que bebe da estética do trip-hop.


“Canto n.1”

Mais longa das 9 faixas do disco, essa peça passeia por diversos panoramas emocionais, começando com um improviso ingênuo de piano solo e terminando com todo o peso das alfaias pernambucanas. No meio do caminho vamos achando gestos de orquestra típicos do tropicalismo de Rogério Duprat, e a enorme preponderância dos ilús nagô e suas claves afro-brasileiras.


“Toque n.4”

Peça íntima para piano solo e orquestra, talvez a única do repertório onde o piano é de fato instrumento protagonista e certamente a mais doce e contemplativa música de TORÓ. É também a única composição assinada em parceria. O outro responsável por sua criação é o também pernambucano Mateus Alves, conhecido pela trilha sonora original dos filmes premiados em Cannes “Agente Secreto” e “Bacurau”.


“Toque n.6”

Lançada ainda em 2025 como single, “Toque n.6” traz fortes ecos da tradição instrumental brasileira de explorar os limites e as intersecções entre erudito e popular. Um compêndio de ritmos se mostra aos poucos como um mosaico: o Toré indígena, o Boi do Maranhão, o Maracatu e, finalmente, quando todos os instrumentos se calam sobra um Côco violento com as percussões estremecendo as paredes do teatro.


“Canto n.6”

Difusa e oceânica, a voz molhada de eco carrega essa melodia que nunca se repete e caminha como que sem rumo, sozinha, até encontrar sua vestimenta das camadas profundas da Metropole Orkest. Felipe Pacheco Ventura na guitarra traz cores inspiradas na banda islandesa Sigur Rós, enquanto Mauro Refosco tira sons improváveis de sua percussão, como se fossem ruídos submersos na água.


“Canto n.3”

Fechamento do concerto com uma “quase-canção”. A voz murmura fonemas que parecem estar na iminência de virarem palavras, enquanto um crescente acúmulo de camadas sonoras violentas se sobrepõem ao frenesi tribal das alfaias. Culmina o clímax da música e do concerto, quando todos tocam no máximo da potência: orquestra, banda e artista num tutti explosivo.



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