No final da dcada de 560, um grupo germnico conhecido como lombardos devastava o norte de Itlia. Para escapar dos invasores, barcos apinhados de gente fugiram para a Lagoa de Veneza, um pntano de lamaais e ilhas dispersas. Formado ao longo de sculos pelo escoamento de sedimentos dos rios P e Piave e pela fora contrria das correntes do Adritico, este labirinto pantanoso estava em constante transformao e desaparecimento. Estas caractersticas tornavam-no tanto o local perfeito para se esconder como um lugar muito instvel para se viver. |

Assim, os recm-chegados decidiram domar a lagoa e construir a mais improvvel das cidades a partir da lama. Embora alguns pescadores j habitassem a regio em palafitas, os colonos queriam construir uma base para suportar estruturas mais pesadas e duradouras. Mal sabiam eles que o seu trabalho iria sustentar Veneza at aos dias de hoje.
Espetaram conjuntos de estacas de madeira com 1 a 3 metros de comprimento no solo, em um processo que espremia a gua subterrnea e compactava a lama em redor das estacas. Isto criou um ambiente sem oxignio que protegeu a madeira de insetos e fungos.
As estacas eram ainda vulnerveis a pequenos danos bacterianos, mas, de resto, impermeveis deteriorao. E este sistema selado de madeira, gua e lama ainda sustenta Veneza 1.500 anos depois.
Vigas de madeira e plataformas de pedra sobre as estacas forneciam as bases para os edifcios. E por volta de 697, os colonos declararam formalmente a sua nova casa como a Repblica de Veneza.
Inicialmente, foram construdas pontes para ligar as ilhas, mas estas eram propensas deteriorao, derrocada e incndio. Muitas, como a famosa Ponte de Rialto, tiveram de ser reconstrudas regularmente, incorporando de cada vez novos materiais e tcnicas para aumentar a sua durabilidade.
No sculo XI, os canais entre as ilhas foram reforados e transformados em canais revestidos de pedra, navegados por esbeltas gndolas.
E, ao contrrio do resto da Europa, onde os nobres se deslocavam geralmente acima dos plebeus, o traado da cidade exigia que todas as classes sociais se deslocassem a p.
No entanto, apesar desta engenharia inteligente, a Repblica ainda no tinha terras para a agricultura, pelo que os venezianos eram fortemente dependentes do comrcio.
Felizmente, a localizao de Veneza tornou-a a cidade porturia perfeita para ligar os mercados da Europa Rota da Seda. A sua rede de canais permitia que os barcos atracassem perto dos armazns, e o desafio de navegar pelas suas vias navegveis estreitas protegia a cidade dos invasores.
Estas vantagens ajudaram a transformar Veneza numa grande potncia martima, e o sculo XIII comeou com o seu maior negcio at ento. O Papa intermediou um acordo com o lder eleito de Veneza, Enrico Dandolo, para produzir navios e armas para os 33.000 soldados esperados para a Quarta Cruzada.
Enrico concordou, investindo enormes quantias do dinheiro e dos recursos da repblica. Mas, quando chegou a altura de zarpar, apenas um tero dos soldados compareceu, com menos de metade do pagamento prometido.
Furioso, Enrico redirecionou o exrcito cruzado contra os rivais cristos de Veneza, incluindo Constantinopla. Esta campanha lanou as bases para o imprio ultramarino de Veneza e, ao longo dos sculos seguintes, mercadores venezianos como Marco Polo aventuraram-se at China.
Durante o Renascimento, a repblica tornou-se um centro de arte e de vida intelectual. Os seus teares para a fabricao de velas foram reutilizados para criar telas gigantescas, os seus artesos foram pioneiros em diversas tcnicas de impresso e as areias ricas em slica dos rios Ticino e Adige alimentaram extravagantes fbricas de vidro.
No entanto, para alm da arte, das sedas e das especiarias, os venezianos tambm comercializavam pessoas escravizadas para trabalhar em casas particulares ou em navios.
Uma vez libertados, alguns permaneciam na cidade, chegando a trabalhar como gondoleiros. O domnio de Veneza sobre o Mediterrneo manteve-se incontestvel at meados do sculo XV, quando os otomanos conquistaram Constantinopla.
Nos sculos seguintes, os otomanos usaram a sua marinha para interferir nos negcios de Veneza, enquanto novas rotas comerciais transocenicas excluam os venezianos.
A repblica resistiu at que os ataques franceses a obrigaram a dissolver-se em 1797, altura em que Veneza trocou de mos entre a ustria e a Frana por diversas vezes antes de ser finalmente cedida a Itlia em 1866.
Incapaz de competir comercialmente, Veneza reinventou-se como destino turstico. Mas hoje, a subida do nvel do mar ameaa afundar a chamada “cidade flutuante”.
Em 1900, a Baslica de So Marcos, ento com 900 anos, era inundada cerca de sete vezes por ano e agora, sofre aproximadamente 250 inundaes anuais. E os turistas so talvez to perigosos quanto.
medida que milhes de visitantes anuais navegam a alta velocidade em lanchas rpidas, erodem a barreira de lama que protege as fundaes de Veneza.
Se no forem tomadas medidas, estes avanos modernos podero destruir uma das cidades mais extraordinrias do mundo.
A cidade corre o risco de se tornar inabitvel at o final do sculo se o avano do mar continuar. A cidade passa por um processo duplo de afundamento relativo -solo que cede e nvel do mar que sobe- e enfrenta desafios constantes.
A cidade afunda cerca de dois milmetros por ano, enquanto o Mar Adritico sobe cerca de cinco anualmente devido s mudanas climticas.
Inundaes: A famosa Praa de So Marcos j fica submersa quase 250 vezes por ano.
Para proteger a cidade, a Itlia utiliza o MOSE, um sistema de barreiras mveis contra enchentes, mas a famosa Praa de So Marcos j fica submersa quase 250 vezes por ano.Engenheiros tambm estudam projetos ainda mais radicais para elevar fisicamente toda a cidade e garantir sua preservao.
Engenhosidades para preservar Veneza no so novidade. Durante os mil anos da Repblica de Veneza, os governantes da chamada “Serenssima” redirecionavam rios, escavavam canais e redesenhavam a hidrografia da lagoa para atender s necessidades da cidade.
No sculo 20, no entanto, os erros comearam. Nas dcadas de 1960 e 1970, a extrao de gua subterrnea da zona industrial de Marghera, no continente em frente lagoa, provocou um afundamento significativo. Entre 1950 e 1970, o centro histrico de Veneza perdeu quase 13 centmetros de altura.
Tambm no h como contemporizar a questo do cheiro da cidade, especialmente no auge do vero, quando a mar baixa expe algas em decomposio. A cidade no possui rede de esgoto convencional e utiliza um sistema onde a maior parte dos efluentes vai para os canais e levada para o mar pelas mars.
Isso significa que a gua nunca deve ser tocada e nadar proibido, sujeito a multas. Me parece realmente que existe uma certa romantizao da cidade e suas gndolas e vista grossa para as ratazanas que infestam a cidade.
– “H quatro ratos para cada habitante. Um total de 200 000 ratos”, disse o jornalista brasileiro Diogo Mainardi que mora na cidade. uma proporo alarmante, quatro vezes maior do que a de Nova Iorque.
Junte-se a isso a poltica antiturismo de Veneza, que lida com o turismo de massa atravs de uma srie de regulamentaes multifacetadas destinadas a controlar as multides e preservar a delicada infraestrutura da cidade.
Essas polticas incluem:uma taxa de R$ 60 para acesso dirio para visitantes de um dia, limites rigorosos para o tamanho dos grupos de turistas, proibio de alto-falantes e a proibio total de grandes navios de cruzeiro na lagoa.
Isso me parece um tiro no p para uma cidade fortemente dependente do turismo, que representa a base da sua economia. Essa massificao trouxe impactos profundos: hoje so menos de 50 mil habitantes, aps a sada de cerca de 70% da populao nas ltimas sete dcadas, em grande parte por conta da prpria economia.
Onde vimos mesmo esse fenmeno de cidadezinhas histricas virando cidades fantasmas? Ah sim… na Itlia! Pelo “andar da carruagem“-ou seria “remar da gndola“?- ser que logo veremos imveis oferecidos por um euro na cidade?
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apie o MDig com o valor que voc puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuio:
- Faa um doao pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patro no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com
