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Natalie Portman e Scarlett Johansson transformam ambição em veneno neste drama histórico na Netflix

Natalie Portman e Scarlett Johansson transformam ambição em veneno neste drama histórico na Netflix

“A Outra” funciona melhor quando abandona a pose de grande painel histórico e aceita sua vocação de melodrama de corte. O filme de Justin Chadwick parte de um material inflamável: duas irmãs, Anne e Mary Boleyn, são empurradas para o centro da corte inglesa por uma família que enxerga no desejo do rei Henrique VIII uma oportunidade de ascensão. A premissa tem força porque junta ambição doméstica, cálculo político e intimidade forçada em um mesmo espaço. O problema é que o filme percebe essa força, mas muitas vezes a organiza de modo estreito demais.

Há uma boa ideia na base de “A Outra”: o poder não aparece apenas nas decisões de Estado, mas nas camas, nos casamentos, nas conversas familiares, nas promessas sussurradas e nas expectativas depositadas sobre o corpo feminino. Anne e Mary não entram na corte como agentes plenamente livres. Antes de rivalizarem, são usadas. O pai e o tio veem nelas uma possibilidade de avanço social, e essa aposta contamina a relação entre as irmãs. Quando o filme observa essa engrenagem, encontra seu ponto mais incômodo. A rivalidade não nasce só de temperamentos opostos, mas de um sistema que transforma afeto em moeda.

Chadwick conduz a história com clareza, sem grandes desvios, e isso ajuda o filme a avançar. Também limita seu alcance. A questão sucessória, o peso religioso e a instabilidade política do reinado de Henrique VIII ficam frequentemente reduzidos a pano de fundo para uma disputa sentimental. Não se trata de cobrar de “A Outra” uma fidelidade absoluta aos fatos. O filme é uma ficção histórica baseada em um romance, e sua natureza permite compressões, deslocamentos e escolhas dramáticas. O ponto é outro: ao simplificar demais o conflito, a narrativa troca parte de sua densidade por um folhetim de prestígio, bem acabado, mas menos perturbador do que poderia ser.

Corte e desejo

A corte é o melhor cenário possível para esse tipo de drama, e “A Outra” sabe aproveitar parte dele. Tudo ali parece vigiado. Um olhar pode abrir caminho; uma ausência pode sugerir queda; uma preferência do rei altera a temperatura de uma família inteira. O filme entende que o ambiente palaciano é feito de aparência, cálculo e ameaça. A proximidade com Henrique VIII nunca é apenas privilégio. É também exposição.

Scarlett Johansson interpreta Mary com uma contenção que favorece a personagem. Ela não a transforma em figura simplesmente ingênua, embora o roteiro muitas vezes a empurre para essa função. Sua Mary parece alguém que demora a compreender o custo do lugar que ocupa. Há nela uma vulnerabilidade menos romântica do que prática: a sensação de estar presa a decisões tomadas por outros, em nome de uma recompensa que talvez nunca seja sua.

Natalie Portman, como Anne, trabalha em registro mais frontal. Sua personagem entende com mais rapidez a lógica cruel da corte, mas essa percepção não a torna imune ao jogo. Ao contrário. Anne tenta dominar as regras e acaba se enredando nelas. O roteiro exagera na oposição entre as irmãs, fazendo de Mary a figura do sentimento e de Anne a figura do cálculo, mas Portman consegue sugerir que a ambição da personagem não é apenas vaidade. É também uma forma de não desaparecer em um mundo no qual mulheres são valorizadas enquanto servem a interesses masculinos.

Eric Bana, como Henrique VIII, ocupa o centro da narrativa mais como força de desestabilização do que como personagem investigado em profundidade. Isso funciona em parte. Para Anne, Mary e a família Boleyn, o rei é menos um homem comum do que uma instância de poder: deseja, escolhe, abandona, exige. Ainda assim, essa opção empobrece alguns aspectos do filme. Henrique aparece muitas vezes como agente de sedução e ameaça, mas sua dimensão política poderia ter recebido tratamento mais incisivo. A corte gira ao redor dele; o filme, porém, nem sempre quer entender o tamanho desse movimento.

O limite do folhetim

O acabamento visual sustenta boa parte do interesse de “A Outra”. A fotografia, os figurinos e o desenho de produção constroem um mundo de solenidade e controle. Os interiores parecem feitos para abafar impulsos; os trajes, para lembrar que cada corpo ali ocupa uma função social. O luxo não aparece apenas como enfeite. Em vários momentos, ele reforça a dureza de um ambiente onde aparência e sobrevivência se confundem.

Mesmo assim, há uma diferença entre usar a história como matéria dramática e usá-la como moldura elegante. “A Outra” oscila entre esses dois caminhos. Quando observa a família Boleyn como uma pequena máquina de ambição, o filme ganha precisão. Quando reduz Anne e Mary a polos de uma rivalidade excessivamente marcada, perde força. A relação entre as duas poderia carregar mais ambivalência, mais ressentimento misturado a afeto, mais contradição. O que aparece, muitas vezes, é uma disputa conduzida por viradas calculadas, quase sempre mais funcionais do que surpreendentes.

A fluidez da narrativa, nesse caso, é virtude e problema. O filme é acessível, direto, fácil de acompanhar. Mas essa facilidade vem acompanhada de certa pobreza de tensão histórica. A religião quase desaparece como força decisiva. A sucessão pesa sobre a trama, mas muitas vezes apenas como mecanismo dramático. A política da monarquia, com suas consequências amplas, é comprimida até caber no drama privado. O resultado tem ritmo, mas deixa a sensação de que um material mais áspero foi polido para não oferecer resistência demais.

Isso não significa que “A Outra” seja um fracasso. Longe disso. O filme tem elenco forte, atmosfera competente e uma leitura clara sobre a forma como mulheres podem ser usadas por estruturas familiares e políticas. Seu mérito está em mostrar que Anne e Mary não são apenas competidoras pelo amor ou pela atenção de um rei. São peças de uma engrenagem que as antecede e, em grande medida, as supera. Quando essa ideia aparece com nitidez, a crítica ao poder masculino e à ambição familiar ganha peso.

O que impede o filme de ir mais longe é a confiança excessiva no melodrama como atalho. O melodrama não é, por si, um defeito. Pode ser uma ferramenta poderosa para revelar injustiças, dependências e violências íntimas. Em “A Outra”, porém, ele frequentemente simplifica aquilo que deveria tensionar. A tragédia se torna mais arrumada do que incômoda. A história ganha brilho, mas perde rugosidade.

“A Outra” permanece, assim, como um drama de época elegante e irregular. Tem presença, bons intérpretes e um conflito central capaz de sustentar o interesse. Também tem uma visão estreita demais de um período histórico complexo. Sua melhor leitura está no meio desses polos: não é um retrato confiável da era Tudor, nem apenas uma intriga vazia com figurinos bonitos. É um folhetim de corte que acerta quando expõe a ambição usando o afeto como instrumento, e tropeça quando transforma essa engrenagem cruel em rivalidade simplificada. O filme entretém, mas o material prometia mais atrito.



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