Existe um momento em que tradição deixa de ser retrato na parede e volta a pulsar como corpo. Em “Caymmi”, Alice Caymmi escolhe justamente esse ponto de combustão.
Lançado em 30 de abril, data em que Dorival Caymmi completaria 112 anos, o álbum mergulha na obra do compositor baiano sem o verniz protocolar das homenagens solenes.
Há respeito, claro, mas há também dub, reggae, salsa, beats eletrônicos e uma artista decidida a atravessar o próprio sobrenome sem pedir licença.
O álbum nasce de um reencontro íntimo. Alice conta que o processo começou antes da morte da tia Nana Caymmi (1941-2025), mas acabou atravessado pela necessidade de revisitar as próprias raízes.
“Esse processo de olhar para o meu avô já era um processo de encontro com minhas raízes, minhas origens”, afirma. “Hoje estou mais certa de mim mesma, da minha identidade. Então, eu posso olhar para a minha família com um olhar fresco”.
São 12 faixas do cancioneiro de Dorival, vertidas em boleros, sambas banhados de reggae, calypso e mares transformados em pista de transe afetivo. Alice reposiciona Dorival no presente, não como peça de museu, mas como linguagem ainda em movimento.
Sem altar
Dorival Caymmi é daqueles nomes tratados quase como patrimônio arquitetônico da música brasileira: admira-se à distância, com medo de tocar. Alice prefere outra relação. Ao longo da carreira, construiu uma estética baseada justamente em deslocamentos, excessos e pequenas implosões de expectativa.
“O peso foi muito mais para mim, para o que a obra significava para mim, do que no geral”, diz Alice sobre “mexer” na obra de Dorival. Ainda assim, ela faz questão de diferenciar “Caymmi” de um gesto puramente iconoclasta. “Não é um desmonte da obra do meu avô”, explica. “Ele traz coisas novas, mas ele não é tão iconoclasta quanto eu costumo ser”.
Alice não pretender fazer um “resgate” ou atualização da obra do avô. “Não é exatamente atualizar”, afirma. “Quando eu atualizo com a intenção de eternizar, eu pego aquilo que é fresco, que é jovem, mas que eu sei que vai ficar”.
Estúdio
As 12 faixas de “Caymmi” foram escolhidas quase como quem monta um mapa astral afetivo. Sem rigidez conceitual, Alice e o produtor Iuri Rio Branco deixaram que as músicas apontassem os caminhos durante as gravações.
Dessa dinâmica nasceram versões que atravessam a América Latina e o Caribe sem cair na pasteurização pop do presente. “A gente sabia que queria uma coisa latino-americana. Uma coisa reggae, salsa”.
O resultado transforma “Modinha para Gabriela” em um reggae introduzido por um alujá, “Maracangalha” em um calypso caribenho; “Adeus” envereda pelo trip-hop; “Eu Não Tenho Onde Morar” vira um dub praieiro; e “Dora” ganha dramaticidade quase cinematográfica.
Mais fogo
Curiosamente, Alice percebe que o disco se afasta de um dos elementos mais associados à obra do avô: a morte rondando o mar. “Eu fiz um corte que acabou indo para um lugar mais fogo, menos água”, reflete. “A morte, o risco de vida do pescador ficou para um outro capítulo”.
O coração espiritual do álbum aparece em “Canto de Obá”, composição de Dorival com Jorge Amado, em que o patriarca dos Caymmi invoca proteção para a linhagem familiar. Para Alice, a faixa funciona como centro emocional do projeto. “É uma oração de proteção à minha família”, resume.
“Caymmi” parece menos interessado em revisitar o passado do que em provar que certas obras sobrevivem porque continuam capazes de mudar de pele. Alice sabe disso. “A longevidade dele vem das ideias dele”, diz sobre o avô. “Era um homem à frente do tempo”.
