Evolução do TBM 960 combina Garmin G3000 PRIME, recursos de segurança autônoma e cabine mais conectada, mantendo cruzeiro de até 330 ktas
A Daher anunciou em janeiro o TBM 980, nova versão da família de monoturboélice TBM, com foco na interface de pilotagem, com a adoção do Garmin G3000 PRIME (terceira geração), e aprimoramentos de cabine voltados à conectividade e ao conforto.
O lançamento ocorreu na linha de produção da empresa em Tarbes, na França, e as entregas foram habilitadas após certificação pela EASA e validação pela FAA, segundo o fabricante. A nova geração chega amparada por uma base instalada relevante: a Daher informa que, até 31 de dezembro de 2025, haviam sido entregues 1.294 aeronaves TBM no mundo.
No conjunto, o TBM 980 é menos uma ruptura e mais uma evolução orientada por duas demandas recentes do segmento. Aviônicos com operação “touch-first” auxiliado por automação que reduza carga de trabalho em voo single-pilot; e a expectativa de que um avião de negócios, mesmo turboélice leve, ofereça conectividade e ergonomia de cabine mais próximas das referências do mercado de jatos médios. A plataforma básica e o conjunto de propulsão, por sua vez, seguem a lógica já consolidada na série TBM 900.
Cockpit pensado para reduzir fluxo de ações
A maior novidade do TBM 980 é o Garmin G3000 Prime, com três telas touchscreen “edge-to-edge” de 14 polegadas. A proposta é melhorar ergonomia e legibilidade, permitindo que funções frequentes sejam acessadas por apps, atalhos e barras de acesso rápido, reduzindo a navegação por múltiplos menus. Um dos maiores entraves dos sistemas digitais sempre foi a interface entre humano e a máquina. Diversas suítes apresentam uma lógica inspirada em conceitos de programação, exigindo várias páginas sinóticas para chegar ao sistema desejado.
O G3000 Prime também traz presets configuráveis por fase do voo, com o objetivo de diminuir carga de trabalho em operações IFR e em ambientes de maior demanda, sobretudo em voos com apenas um piloto em fase de saída, aproximações, meteorologia adversa e tráfego intenso.
O ponto a observar é que o “ganho” dessa evolução não está apenas na tela maior ou maior personalização, mas no encurtamento do caminho entre intenção e ação: menos etapas para configurar, checar e corrigir.
Além do desenho de interface, o pacote do TBM 980 reforça funções voltadas a padronização e consciência situacional, com monitoramento de aproximação estabilizada, 3D SafeTaxi e recursos associados ao ecossistema de conectividade (atualizações e sincronização de bases, planejamento e acompanhamento de voo com aplicativos compatíveis).
Segurança e automação
A Daher mantém no TBM 980 o conjunto de automatismos e proteções que reúne sensores e lógicas de assistência ao piloto sob a marca e-copilot. O pacote inclui sensor de ângulo de ataque (AoA) e monitoramento de envelope de voo, com funções integradas ao piloto automático para mitigar excedências de parâmetros, como under-speed e instabilidade de atitude. Há também alertas por voz, incluindo estol e overspeed, assim como stick-shaker.
Já o modo de descida de emergência foi pensado para cenários de incapacitação por hipóxia, se a altitude de cabine (pressurização) exceder 11.500 pés, o sistema pode comandar automaticamente uma descida da aeronave até 15.000 pés, reduzindo a altitude de voo para uma faixa mais segura.

O destaque de segurança, porém, segue sendo o sistema de pouso autônomo de emergência (HomeSafe), acionado por um botão laranja no painel. Ao ser acionado, por qualquer ocupante do avião, o sistema busca um aeroporto adequado e conduz a aeronave até o pouso completo, informando automaticamente o ATC e configurando o transponder para código de emergência.
O HomeSafé é baseado na plataforma Garmin Autonomí, que integra dados de terreno e meteorologia, considera alcance e comprimento de pista, controlando trajetória de descida, potência, frenagem e corte do motor após a parada total. A função é apresentada como um último recurso em caso de incapacitação do piloto, e faz sentido operacionalmente em um avião cujo perfil de missão inclui a maior parte dos voos single-pilot.

O TBM 980 incorpora também o radar digital Garmin GWX 8000 com análise automática de ameaças e tecnologia StormOptix, que ajusta parâmetros para melhorar o perfil de células convectivas. Entre as funções listadas estão detecção de turbulência, previsão de granizo/raios, supressão de clutter e zero blind range para retornos de curto alcance.
Segundo a Garmin, a paleta de cores em alta definição pode exibir até quatro vezes mais cores do que radares tradicionais, permitindo interpretação mais “granular” da intensidade e da estrutura das células.
A herança do TBM 960

Se a aviônica é a grande evolução específica do TBM 980, o conjunto motor/hélice é o mesmo do TBM 960, mantendo o Pratt & Whitney Canada PT6E-66XT e a hélice Hartzell Raptor, composta, de cinco pás, integrados a um sistema de controle eletrônico (EPECS) com lógica de FADEC para motor e hélice.
Os números divulgados pela Pratt & Whitney posicionam o PT6E-66XT entre os mais fortes da família PT6, com potência termodinâmica de 1.844 hp e potência nominal flat rated de 850 shp. Um ponto de evolução é o aumento do TBO, que com o redesenho da turbina e gerenciamento eletrônico, o intervalo entre revisões passa de 3.500 para 5.000 horas. Na hélice, a rotação em potência máxima é indicada em 1.925 rpm, com nível de ruído de decolagem divulgado em 76,4 dB.
No cockpit foi mantida a manete única de potência, chamada de “e-throttle”, que permanece em posição única da decolagem ao pouso, enquanto o sistema otimiza ajustes e monitora limites de temperatura e parâmetros.
O sistema foi lançado no TBM 940 e aprimorado no TBM 960, oferecendo controle automático de velocidade. Após mover o manete para posição de decolagem, o piloto seleciona a velocidade desejada no Piloto Automático, e o sistema ajusta automaticamente a potência para manter a velocidade selecionada, otimizando o torque e a temperatura (ITT).
O autothrottle funciona em conjunto com o FMS (Flight Management System). Se a velocidade cair muito, o sistema aumenta a potência automaticamente para evitar um estol. Por outro lado, se a velocidade exceder os limites, o sistema reduz a potência.
Outro item operacional que acompanha o pacote é a aprovação para operação PRIST-free, eliminando a necessidade de aditivo anti-gelo no sistema de combustível. Embora o tenha pouca utilidade na maior parte do Brasil, ele garante um ganho de simplicidade de operação e abastecimento.
Avião como escritório móvel

Uma das maiores evoluções da família TBM desde que a Daher assumiu o projeto foi a preocupação com a ergonomia e conforto de cabine. Ao longo dos anos houve uma evolução constante nos detalhes e otimização de espaço. O TBM 980 é oferecido com a cabine Prestige, que foi apresentada como uma atualização “com base na experiência das versões anteriores”.
Assim, o Prestige concentra melhorias incrementais como assentos aquecidos, refinamentos de acabamento, e um sistema de controle por telas touchscreen para iluminação e temperatura. Outra novidade é a adoção de janelas com escurecimento eletrônico, substituindo cortinas manuais. Ainda que o sistema seja polêmico, pois nem sempre oferece a melhor experiência, a Daher trabalhou para obter máximo escurecimento do painel, aliado a redução de peso.
Na conectividade, o TBM 980 oferece de série um item que virou referência de expectativa no segmento, a possibilidade de utilizar um terminal Starlink Mini. A instalação prevista inclui suporte dedicado e alimentação por USB-C de 100 W. Para os passageiros, a cabine incorpora quatro portas USB-C de 100 W, e o chamado Passenger Comfort Display, que permite ajustar temperatura e luz ambiente e exibir dados de rota. O pacote reforça a ideia de cabine funcional, alinhada ao uso executivo: energia disponível, dados do voo acessíveis e um ambiente mais controlável.
Há dez anos, a oferta de tomadas USB era vista como diferencial; hoje, é um requisito básico. Com dispositivos portáteis cada vez mais presentes no dia a dia — especialmente smartphones e laptops —, a recarga a bordo tornou-se fundamental em qualquer perfil de viagem, curta ou longa, a trabalho ou a lazer.
Desempenho e envelope operacional

Os dados preliminares de desempenho publicados para o TBM 980 mantêm a proposta tradicional da família de monoturboélices: alta velocidade e alcance. O fabricante divulga que o cruzeiro máximo é de 330 ktas a 28.000 pés; com cruzeiro de longo alcance de 252 ktas; subida até 31.000 pés em 18 min 45; e teto certificado de 31.000 pés.
O alcance com combustível máximo (ISA, MTOW, sem vento, um piloto e reserva de 45 minutos), o material de promocional indica até 1.730 milhas náuticas a 252 ktas; 1.585 milhas náuticas a 290 ktas; e 1.440 milhas náuticas a 326 ktas. Em um perfil operacional com alternativa a 100 milhas náuticas e espera de 30 minutos (nível do mar, ISA, sem vento), são indicadas 1.542 milhas náuticas em longo alcance, 1.376 milhas náuticas em cruzeiro recomendado e 1.213 milhas náuticas em cruzeiro máximo. Números que refletem a manutenção do desempenho do TBM 980 como um referencial na categoria.
Dimensões e pesos

Nas dimensões externas, o TBM 980 manteve os números dos modelos anteriores, com 10,74 m de comprimento, envergadura de 12,83 m e altura de 4,36 m. No interior, a largura máxima de cabine é de 1,21 m, comprimento máximo de 4,05 m e altura máxima de 1,22 m.
Já o peso o básico vazio com a cabine Prestige aparece em 4.806 lb; máximo de rampa de 7.650 lb e o peso máximo de decolagem com 7.615 lb; Já o payload máximo é de 1.446 lb.
O TBM 980 consolida a estratégia de evolução contínua da série TBM 900: mantém o motor e a arquitetura digital já validados no TBM 960, mas reposiciona a experiência no cockpit com o G3000 PRIME e atualiza a cabine com recursos alinhados às expectativas do passageiro, sobretudo em conectividade e disponibilidade de energia.
O resultado é uma aeronave que preserva o apelo histórico do TBM — velocidade e alcance — enquanto moderniza a interface homem-máquina e a experiência a bordo.
** Publicado originalmente na AERO Magazine 381 · Fevereiro/2026
