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Timothy Spall entrega uma atuação devastadora neste drama do Prime Video sobre genialidade e rejeição

Timothy Spall entrega uma atuação devastadora neste drama do Prime Video sobre genialidade e rejeição

Laurence Stephen Lowry (1887-1976) foi um artista genial e um indivíduo tomado por dores. Sua rara sensibilidade, esquadrinhada por Adrian Noble em “L.S. Lowry: Retratos de uma Paixão”, permitiu-lhe enxergar no tédio da rotina um aspecto completamente novo, que transpôs para centenas de desenhos e retratos, em grande parte dos quais retratava figuras alongadas, meio fantasmagóricas, arremedo de homens como em transe, perdidos na imensidão da metrópole. Os homens de palito de fósforo representavam para Lowry a melancolia e a solidão da classe trabalhadora do noroeste da Inglaterra pós-Revolução Industrial (1760-1840), fenômeno que marca apenas o passo inicial de um movimento que desembocaria no princípio de desempenho do teuto-americano Herbert Marcuse (1898-1979); na privatização do estresse analisada pelo britânico Mark Fisher (1968-2017); nas relações líquidas do polonês Zygmunt Bauman (1925-2017); e nessas sociedades do cansaço que nos integram, conceito descrito pelo sul-coreano Byung-Chul Han. Lowry, filho de um corretor de imóveis e de uma aspirante a pianista que trocaram a bucólica Manchester pela morbígera Pendlebury, sede da nova potência fabril que se levantava, ratifica a máxima de que a verdadeira arte é a junção da profecia com a beleza. O que não o poupou de embates pessoais e violentos infortúnios domésticos.

Ver, sentir e pintar

Numa cena sob o céu nublado de Pendlebury, um ascético Laurence da pistas sobre sua relação com o mundo, e então se tem uma pálida ideia do que é a arte para ele. Ele vê, sente e, só depois, pinta, obcecado pelos tons de branco acinzentado tão típico de sua terra, não com uma possibilidade distante de glória. Essa abnegação de Laurie e, o mais importante, sua fidelidade ao que considera inegociável, nunca foram bem entendidas pela mãe, Elizabeth, e nesse momento o roteiro de Martyn Hesford entra num pedaço decisivo da história. Laurence pode não se importar com glória ou dinheiro, mas Elizabeth não se conforma em ver o filho às voltas com terebintina, varando noites no sótão a pintar, esbanjando gás nas lâmpadas por um capricho. O mais lógico seria aplicar-se no ofício de cobrador de aluguéis e arrumar uma esposa, mas sensatez não cabe nos sonhos.

A vida autêntica é aquela que busca a verdade, mesmo que só se descubra incômodo e mágoa. Lowry concorda com Nietzsche, e poderia dar as costas a uma mãe egocêntrica e cruel ao ponto de ler críticas desfavoráveis ao trabalho do filho na sua presença e concordar com todas, fazendo questão de dizer o quão insignificante e feio ele é, mas fica, sem se incomodar com seu emprego — esse, sim, nada nobre —, honrando as dívidas do falecido pai e mantendo o faustoso estilo de vida de Elizabeth, que reclama também da casa e da vizinhança. Entremeando sequências assumidamente melodramáticas e passagens lúdicas em que coloca Lowry nas situações registradas por ele em seus quadros, caso de “Homem deitado em uma parede” (1957), Noble erige uma narrativa original, biográfica e delirante, respaldado pelas atuações seguras de Timothy Spall e Vanessa Redgrave num tom raro de tristeza e lirismo.



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