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Um dos filmes mais importantes do século 21 está na Netflix — e quase ninguem percebeu

Um dos filmes mais importantes do século 21 está na Netflix — e quase ninguem percebeu

A primeira coisa que vem à cabeça diante de um enredo como o de “Spotlight: Segredos Revelados” é a velha máxima de que ninguém engana a todos por todo o tempo, muito menos para sempre. Conquanto verdadeira, essa ideia pode levar uma eternidade para converter-se em justiça de fato, a despeito dos esforços renitentes de quem esteja nos bastidores, perseguindo o furo que pode acabar com uma série de iniquidades e levar a seu justo castigo, moldando uma transformação nos costumes e nos rumos da História. Em 6 de janeiro de 2002, o “Boston Globe” publicou na primeira página que padres haviam abusado de crianças e adolescentes, estimulados pela omissão da cúpula da Igreja. Assinada por Michael Rezendes, a matéria imediatamente repercutiu no mundo todo, acendendo uma luz amarela que logo bateu no Vaticano. Para ficar num caso local — e por essa razão emblemático —, Bernard Law (1931-2017), o arcebispo de Boston, viu-se obrigado a admitir suas “falhas”, mas permaneceu como uma figura de destaque na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, salvo por João Paulo 2º (1920-2005). O escândalo dos sacerdotes pedófilos, um ocaso melancólico e vergonhoso para Karol Wojtyła, o primeiro pontífice de fora da Itália em 455 anos, desde Adriano 6º (1459-1523), e conhecido pela atuação em temas sociopolíticos, voltou a capturar os olhares para os Estados Unidos e a fragilidade de suas instituições, apenas quatro meses depois do 11 de Setembro.

O porão que engole a vida

O diretor Tom McCarthy dá a sensação de querer que quem assiste seja um pouco repórter ao frisar a motivação dos jornalistas e a importância de seu trabalho, uma denúncia do cinismo e da hipocrisia de clérigos e autoridades, que mexem seus pauzinhos para minimizar danos e interromper a escalada da crise. Rezendes e os colegas Sacha Pfeiffer e Matty Carroll, liderados pelo editor Walter Robinson e pelo adjunto Ben Bradlee Jr., amplificam a reportagem do “Boston Phoenix”, um semanário alternativo que também cobria abusos sexuais na Igreja, mas sem a tiragem e o alcance popular do “Globe”. O forasteiro Marty Baron chega para reforçar o time, e é justo ele que menciona o concorrente, suscitando uma celeuma que tempera a abertura.

Depois da ligeira hesitação de Robinson, o sexteto, nomeado de Spotlight (“holofote”, em inglês), fecha-se num escritório no porão e se debruça sobre o material, esquecendo-se do mundo lá fora, o que inclui, claro, cônjuges e filhos. McCarthy e o corroteirista Josh Singer oferecem pílulas do que é a vida particular do grupo, com Rezendes enfrentando dificuldades no casamento, e Pfeiffer num embate com sua fé católica, incipiente, mas avassalador. Numa performance no tom exato de convicção e vulnerabilidade, Mark Ruffalo ancora um “filme sobre jornalismo” com margem fértil para que se entenda o gênero humano, e Rachel McAdams investe na sutileza de Pfeiffer, que não precisa de muito para sentir o desapontamento e a mágoa de fiéis para com seus líderes religiosos.

O padre que nunca paga

O estopim da maior debacle moral do catolicismo americano atende pelo nome de John J. Geoghan (1935-2003), um padre que, apesar das polêmicas constantes, nunca paga nenhuma penitência. De maneira quase didática, o longa explica o porquê: sempre que um novo escândalo ameaçava pipocar, a Igreja o transferia de jurisdição, eternizando o problema e fazendo com que a anomalia se alastrasse. Ao descobrir e apurar os fatos, os personagens explicitam detalhes do expediente jornalístico interditados ao cidadão comum, o que valeu a “Spotlight” o Oscar de Melhor Filme e a estatueta de Melhor Roteiro Original — e antes disso, o livro que deu origem ao filme ganhou o Pulitzer.

O mundo mudou demais nas últimas duas décadas. Talvez não se veja mais um trabalho de tamanho fôlego na comunicação mundial neste século, malgrado barbáries igualmente repulsivas sigam campeando. Será o Apocalipse, aceito bovinamente (e até promovido) por quem o deveria combater?



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