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Ninguém esperava que esse filme de monstros acabaria vencendo o Oscar, na Netflix

Ninguém esperava que esse filme de monstros acabaria vencendo o Oscar, na Netflix

“Godzilla Minus One” começa poucos meses depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando o Japão ainda tenta juntar os pedaços da própria existência. Casas destruídas, bairros improvisados e filas por comida aparecem antes mesmo do monstro surgir por inteiro. É nesse cenário que Kōichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), um piloto kamikaze, retorna para casa carregando um peso que ele não consegue esconder. Durante a guerra, ele evitou cumprir sua missão suicida e acabou sobrevivendo. O problema é que sobreviver, naquele momento, parece quase um crime.

Shikishima chega a uma base militar na Ilha Odo alegando problemas mecânicos no avião. Os técnicos percebem rapidamente que há medo por trás da desculpa. Pouco depois, a base é atacada por uma criatura gigantesca saída do mar. Godzilla aparece ainda menor do que a versão tradicional conhecida pelo público, mas suficientemente brutal para transformar homens armados em vítimas impotentes. Os mecânicos da instalação tentam reagir, soldados entram em pânico e Shikishima trava diante da situação. Quando amanhece, poucos continuam vivos. A culpa daquele episódio passa a perseguir o personagem como uma sombra difícil de largar.

Trauma coletivo

Ao voltar para Tóquio, Shikishima encontra uma cidade tão destruída quanto ele próprio. Sua casa praticamente desapareceu, vizinhos morreram durante os bombardeios e o país inteiro parece funcionar no improviso. É nesse momento que ele conhece Noriko Oishi (Minami Hamabe), uma jovem tentando sobreviver enquanto cuida de um bebê abandonado chamado Akiko. O relacionamento dos dois nasce sem romantização exagerada. Eles se aproximam porque precisam dividir comida, teto e algum conforto emocional num país onde quase ninguém possui estabilidade.

O filme não trata Godzilla apenas como atração visual. O monstro é uma continuação do trauma coletivo deixado pela guerra. Cada vez que surge no horizonte, ele interrompe qualquer tentativa de normalidade. Trens param, bairros entram em alerta, trabalhadores abandonam ruas e autoridades demonstram um desespero silencioso. O Japão retratado por Takashi Yamazaki não possui estrutura militar suficiente para enfrentar outra tragédia daquela dimensão. Os americanos observam à distância, enquanto o governo japonês tenta administrar a crise com poucos recursos.

Tentativa de continuar

Shikishima consegue trabalho retirando minas marítimas do oceano ao lado de outros sobreviventes da guerra. Entre eles está Shirō Mizushima (Yuki Yamada), um jovem cheio de energia que ainda acredita existir algum heroísmo possível depois de tanta destruição. A convivência no barco traz momentos mais leves e até engraçados em meio ao desastre permanente. Há uma cena particularmente boa em que os personagens discutem estratégias absurdas para enfrentar Godzilla enquanto o barco balança perigosamente no mar. O humor surge do nervosismo daqueles homens, não de piadas forçadas.

Só que a situação piora rapidamente. Godzilla cresce, torna-se mais destrutivo e passa a atacar regiões inteiras do litoral japonês. Yamazaki conduz essas sequências com enorme senso de escala. Há pânico nas ruas, prédios desabando e multidões correndo, mas o diretor nunca abandona o ponto de vista humano. O espectador acompanha pessoas tentando escapar, mães procurando filhos e trabalhadores comuns assistindo ao impossível acontecer diante dos próprios olhos.

Personagens humanizados

O suspense passa sempre a sensação de vulnerabilidade. Diferente de muitos blockbusters americanos, “Godzilla Minus One” apresenta personagens que realmente parecem frágeis perto da criatura. Não há tecnologia milagrosa nem militares superpoderosos surgindo para salvar o dia. O que existe é um grupo de veteranos cansados tentando encontrar alguma maneira de impedir uma nova catástrofe nacional usando barcos antigos, equipamentos improvisados e coragem acumulada no desespero.

Ryunosuke Kamiki entrega uma atuação muito forte porque interpreta Shikishima como alguém permanentemente esmagado pela culpa. O personagem não fala o tempo inteiro sobre seus sentimentos, mas basta observar seus silêncios, suas hesitações e a maneira como ele reage ao perigo para entender o tamanho do trauma carregado desde a guerra. Minami Hamabe também oferece humanidade ao filme. Noriko poderia facilmente virar apenas “a mulher que espera”, mas ganha personalidade própria, firmeza e presença emocional dentro da narrativa.

Visual que impressiona

O longa impressiona bastante mesmo sem possuir orçamento gigantesco comparado aos grandes estúdios americanos. Takashi Yamazaki aposta mais na tensão e na construção do medo do que em excesso digital. Godzilla demora a aparecer plenamente em algumas cenas, e essa escolha aumenta a sensação de ameaça. Quando surge por inteiro, ocupa a tela como uma força impossível de controlar.

Existe ainda algo muito inteligente na forma como o diretor liga o monstro ao sentimento de humilhação nacional vivido pelo Japão naquele período. O país já estava derrotado, ferido economicamente e emocionalmente devastado. Godzilla chega justamente quando os sobreviventes começam a acreditar que talvez fosse possível seguir em frente. É quase cruel. O monstro não invade uma potência organizada. Ele pisa sobre um lugar que mal consegue ficar de pé.

“Godzilla Minus One” entende que filmes de monstros dão mais certo quando o público se importa genuinamente com quem está correndo deles. Por isso a destruição impressiona tanto aqui. Cada prédio destruído parece atingir alguém específico. Cada ataque altera a vida de personagens que o espectador aprendeu a acompanhar. Takashi Yamazaki transforma uma história gigantesca em algo profundamente humano, e talvez seja justamente por isso que Godzilla pareça tão assustador desta vez.



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