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Ela viveu 25 anos no automático — até fugir para a França mudar tudo nesta joia da Netflix

Ela viveu 25 anos no automático — até fugir para a França mudar tudo nesta joia da Netflix

A maioria das pessoas só vêm ao mundo para enchê-lo de sua parvidade megalômana e de seus arroubos de falsa modéstia, disfarçada de caridade, simpatia, empatia ou falsas boas intenções, manchadas pelo lodo dos hipócritas. Esse dom quase cartesiano de encaminhar os acontecimentos ao sabor das conveniências da hora não é o que se pode definir por vantagem. O amor tem seus caprichos e suas surpresas, e quem faz propaganda de sua alma pura, incorruptível, em geral está de olho nos privilégios que os demais não alcançam. Hedonista até sob tortura, a personagem central de “Meu Nome É Agneta” tem a sensação de ter desperdiçado os últimos 25 anos num trabalho estéril e sem sentido, num casamento monótono, numa vida miserável, mas decidiu que é mesmo verdadeira aquela máxima e vai tentar ser feliz enquanto é tempo e está viva. Guiadas pelo livro homônimo da sueca Emma Hamberg, de 2021, a diretora Johanna Runevad e a corroteirista Isabel Nylund dissecam as dores de uma mulher comum buscando os prazeres ordinários, que diferem existir de viver.

Crises e epifanias

Não é fácil aceitar o mundo como o conhecemos, e é ainda mais difícil tentar corresponder ao que podem esperar de nós aqueles que não nos conhecem e assim mesmo não demonstram pejo algum em arvorar-se em nossos juízes e nossos carrascos, condenando-nos por querermos ser quem deveríamos ter sido desde o primeiro momento. Isso é cada vez mais inequívoco em todas as ocasiões em que Agneta surge, sempre junto com Magnus, marido amoroso, porém um tanto dominador. Os filhos já saíram de casa, e agora os dois dormem em quartos separados, mas mesmo assim ela tem de esperar o cair da noite para consumar sua paixão e saborear seus amados queijos franceses, um pecado sem qualquer chance de indulto para ele, um atleta veterano. Agneta fica sabendo de um programa de intercâmbio na Provença, e se candidata à vaga de babá. Chegou sua hora de finamente conhecer a França, ela pensa — e de lambuja, ver-se libertada da vigilância carinhosa de Magnus.

Surpresas nunca são ruins

Agneta chega-se a sua nova casa, fica meio desapontada, mas paga para ver. O emprego que imaginava não existe (ou não existe como ela imaginava), e suas competências resumem-se a tomar conta não de uma criança, mas de Einar, um septuagenário excêntrico hoje viúvo e disposto a exercer o que pode ter restado de sua homossexualidade, secreta por muitos anos. Perspicaz, Runevad tira tal proveito da química entre Eva Melander e Claes Månsson que o filme passa de um melodrama banal a uma narrativa sobre amizades e outros afetos rica de nuanças. E sem a necessidade de nenhuma grande pirotecnia.



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