“A Vida de Chuck“ é um filme estranho. Dirigido por Mike Flanagan e baseado em um conto de Stephen King, o longa-metragem foi duvidado até pelo autor, que não tinha certeza de que seria possível adaptar aquela história de formato complexo e excêntrico para as telas. Com receio de que os estúdios tentassem fazê-lo caber em um molde comercial, Flanagan optou por desenvolver o projeto de forma independente, garantindo maior autonomia criativa sobre as decisões.
Dividida em três partes, a história dialoga com um modo de enxergar a vida que vem das ideias da cosmologia de Carl Sagan. Ele diz que “somos poeira de estrelas“ e uma forma “do cosmos conhecer a si próprio“, além de outras ideias extraordinárias. Embora sejamos pequenos em um universo tão vasto, há também um vasto universo dentro de nós. Em nossa mente e imaginação guardamos mundos, pessoas, nomes, rostos, memórias que nos tornam quem somos. Elas podem ter existido em algum momento, acontecido em outros, cruzado nosso caminho, mas sobrevivem em uma existência particular dentro da mente de cada um.
Primeiro e segundo ato
Cada um dos capítulos de “A Vida de Chuck“ possui uma fotografia diferente. O primeiro tem uma proporção de tela de 2.39:1, com um visual mais próximo do padrão hollywoodiano contemporâneo. Nesta parte, o que vemos sobre Chuck são apenas luminosos e outdoors que dizem “Obrigado pelos 39 anos extraordinários“ e uma foto sua. O arco gira em torno de Marty (Chiwetel Ejiofor) e Felicia (Karen Gillan), um casal que se separou e agora vive em um mundo em colapso. Com terremotos, crateras e inundações acontecendo por toda parte, as pessoas começam a desistir de viver e passam a caminhar sem rumo pelas ruas. Coisas estranhas acontecem. Felicia é enfermeira e, no hospital onde trabalha, já não há mais pacientes. Ainda assim, os monitores mostram leituras idênticas de frequência cardíaca.
Na segunda parte, conhecemos Taylor (Taylor Gordon), uma baterista de rua que vê seu dia ser transformado por um homem de terno. O homem é Chuck (Tom Hiddleston), que, ao ouvir o som produzido por ela, decide se deixar levar por uma sequência de dança inspirada em musicais clássicos do cinema, como “West Side Story“, “Cantando na Chuva” e “The Umbrellas of Cherbourg”. A cena tem mais de cinco minutos de duração e inclui a participação de Annalise Basso como Janice, em uma dupla de dança com passos que transitam entre jazz, samba, swing e outros estilos. A imagem adota a proporção 2:1, com uma fotografia mais luminosa e colorida.
Quem é Chuck
Já no terceiro ato, a tela se ajusta para 1.85:1 e conhecemos a infância e adolescência de Chuck. Com o enquadramento mais fechado no protagonista, compreendemos que tudo, o tempo todo, esteve ligado a ele. Chuck fica órfão ainda criança e é criado pelos avós. O avô mantém a porta do sótão sempre trancada, afirmando que o lugar é assombrado. Chuck cresce curioso para descobrir o que há ali. Sua relação com a avó desperta o amor pela dança, mas a perda dos dois chega cedo, pouco antes de ele atingir a vida adulta.
Quando finalmente fica sozinho na casa, decide abrir o sótão e confrontar o medo alimentado desde a infância. Lá, ele vislumbra fragmentos de seu futuro. É ali que Chuck percebe que sua vida será curta. Isso não é exatamente um segredo: desde o início sabemos que Chuck está morrendo. O que o filme leva tempo para explicar é que ele é e por que sua existência parece importar tanto a ponto de ocupar anúncios espalhados por toda parte.
Em uma história atravessada por ideias de Sagan e escrita de forma sensível e poética por King, o autor celebra a vida. O colapso não é externo, é interno. O filme mostra que o mundo em ruínas pode refletir a experiência íntima de um corpo falhando, de uma mente que se apaga aos poucos. Enquanto isso, as pessoas que habitam a memória de Chuck parecem resistir dentro desse universo particular. As máquinas, os sinais, as repetições, tudo converge para um fim inevitável, como se o próprio mundo estivesse sincronizado com o encerramento de uma única vida.
