Na Frana do sculo XVI, no bastava ter pele impecvel, uma peruca deslumbrante e um traseiro avantajado; era preciso tambm ter o clon imaculado. Felizmente, havia uma grande quantidade de pessoas prontas e dispostas a administrar quantos “clisteres”, tambm conhecidos como enemas, ou enteroclismas, voc desejasse. Muitos jovens no sabem do que se trata, mas at hoje este aparelho utilizado para injetar lquido na parte inferior do intestino atravs do reto, para aliviar a constipao e para limpar o intestino antes de um exame ou procedimento mdico. |

Embora seguro quando indicado tecnicamente, o enema considerado um tabu devido ao estigma sobre prticas anais, vergonha na procura mdica e riscos associados ao usao indevido.
Invariavelmente, pessoas que tem o costume de manter uma “farmacinha” tinham “mocosado” em casa um modelo chamado “enema de bulbo” (foto acima), popularmente conhecido como chuca, com seu formato semelhante a uma buzina de mo.
Quando criana encontrei um enterrado no meio dos cobertores e lenis no guarda-roupa. E o que a criana faz quando encontra algo desconhecido? Minha me at hoje “se mija” de rir por lembrar-se que me flagrou com a cnula na boca apertando a pera de borracha fazendo “peidorretas”.
Para quem ainda no sabe do que se trata, enteroclima um procedimento no qual um lquido , digamos, introduzido fora pelo nus para limpar o clon. Normalmente, as pessoas pensam nisso em termos estritamente modernos, como um procedimento mdico desagradvel que envolve gua morna, um profissional de sade e privacidade, mas… nem sempre foi assim.

A primeira meno ao enema na literatura mdica encontra-se no Papiro de Ebers do Antigo Egito, de aproximadamente 1550 a.C. Um dos muitos tipos de especialistas mdicos era o Nery-Pehuyt, o Pastor do nus, cujos enemas administravam muitos medicamentos.
Existia mesmo at um Guardio do Anus Real, sim, um PhD em encanamento real, o responsvel pela preparao e aplicao dos enemas do fara. De acordo com a mitologia egpcia, o deus Thoth inventou o enema.
A prtica de administrar clisteres remonta a tempos antigos da histria da humanidade. Em 600 a.C., os babilnios podiam desfrutar de um desses procedimentos midos, e, se preferissem viajar para as amricas no sculo X a.C., os olmecas estavam prontos para ajud-los a transcender a conscincia por meio de um enema.

Os maias, no sculo VII d.C., tambm a utilizavam, assim como os antigos gregos e egpcios. O objetivo desses procedimentos variava; por exemplo, os olmecas adicionavam uma substncia extra aos seus clisteres para induzir estados de transe.
Os babilnios acreditavam que um clister expulsava o demnio da doena. E muitos, incluindo os gregos, consideravam-no uma forma eficaz de se livrar da constipao.
Caso voc tenha curiosidade, os povos antigos eram bastante criativos com os materiais que usavam para seus enemas. Tubos de bambu, ossos e chifres ocos, bexigas de porco, tecidos de seda e uma variedade de escrotos de animais eram utilizados, dependendo da regio.
Em algumas partes da frica, a cabaa era usada tradicionalmente para administrar enemas no sculo XIX. Na Costa do Marfim, o gargalo estreito da cabaa, cheio de gua, era inserido no reto do paciente e o contedo era ento injetado por meio de insuflao oral forada por um assistente, ou o prprio paciente pode autoadministrar o enema usando suco para criar uma presso negativa na cabaa, colocando um dedo na abertura e, em seguida, aps a insero anal, removendo o dedo para permitir que a presso atmosfrica fizesse o fluxo.

Na frica do Sul, o povo Bhaca usava um chifre de boi para administrar enemas. Ao longo do alto rio Congo, um aparelho para enema era feito fazendo-se um furo em uma das extremidades da cabaa para ench-la e usando resina para fixar uma cana oca ao gargalo da cabaa. A cana era inserida no nus do paciente, que permanecia em uma postura que permitia que a gravidade fizesse a infuso do fluido.
O lquido prescrito para o enema tambm variava. Claro que havia gua morna, mas tambm existem receitas com nomes mais macabros, como bile de porco e vinagre, leite de burra cozido e suco de repolho.
No final do sculo XVI, os enemas eram a grande moda. Acreditava-se que um bom clister curava tudo, uma panaceia que curava manchas na pele e priso de ventre, dexintoxicante, emagrecedor, antiinflamatrio,antifebril at anti-envelhecimento.

Aristocratas da moda podiam tomar at quatro “chucadas” por dia. No era incomum ver boticrios andando pelas ruas com seus tubos de clister jogados casualmente sobre os ombros, vista de todos.
Dizem que Lus XIV, antecessor de Lus XVI, tambm conhecido como o Rei Sol, era to f de chucas que aplicava em si mesmo diante de sua corte. Era o acessrio de luxo da poca, quase o “iPhone” do perodo barroco, s que com uma entrada de carregamento bem mais especfica.
Se essa histria verdadeira ou no, fato que o Rei Lus era um grande apreciador de enemas e incentivava sua corte a fazer o mesmo.
Era comum terminar o jantar e, em seguida, retirar-se para um de seus aposentos para que seu mdico real lhe administrasse um clister, talvez com gua de rosas, gua de anjo ou leite de amndoas, e depois retornar corte, sentindo-se revigorado.

Um fato histrico que no deve ser esquecido que tambm ocorreram assassinatos por enemas durante esse perodo. O assassino precisava apenas adicionar veneno ou alguma outra substncia txica ao enema administrado para que o efeito passasse de “timo para a pele” para “o paciente est morto“.
Esse fenmeno tornou-se to alarmante que o Rei Sol criou uma fora-tarefa especial dedicada a proteger a aristocracia de enemas envenenados.
Infeliz e eventualmente, as pessoas comearam a criar clisteres perigosos, embora com as melhores intenes. De fato, durante bastante tempo se tornou um procediemnto mdico estendido fumar tabaco ou tomar caf pelo nus mediante um clister. Em algum momento do sculo XVIII, os europeus adotaram um conceito dos povos indgenas da Amrica do Norte e comearam a usar enemas de fumaa de tabaco para reanimar vtimas de afogamento.
A Royal Humane Society de Londres posicionou estrategicamente kits com foles e tubos para esses procedimentos ao longo do Tmisa. No encontramos estatsticas sobre a frequncia com que uma vtima de afogamento era salva pela inalao de fumaa de tabaco pelo nus, mas, sem se deixar abalar, a sociedade comeou a usar esse tipo de clister para tratar doenas como clera, febre tifoide, insuficincia respiratria e clicas.

Diz-se que Lus XIV recebeu mais de 2.000 enemas durante seu reinado. Muitos artistas da poca parecem ter se encantado em retratar esse ritual com seus pincis, e o resultado que hoje temos uma srie de pinturas que revelam mais do que apenas as costas do retratado: tambm vislumbramos como as pessoas se sentiam em relao a esses rituais de purificao.
Nem todos os contemporneos eram grandes admiradores da aristocracia. A arte era um meio de satirizar os ricos, e a mania do clister fornecia um alvo fcil. O famoso dramaturgo francs do sculo XVII, Molire, tambm criticou duramente essa prtica, tanto em seus escritos quanto em suas peas teatrais.
A prtica de administrar enemas mudou medida que as pessoas desenvolveram mais tcnicas para a autoadministrao. No sculo XIX, a Europa Ocidental administrava seus prprios clisteres em grande parte dos casos.

No sculo XX, a popularidade do enema diminuiu, embora ainda seja amplamente praticada na medicina moderna. Acabou-se o tempo em que homens e mulheres pensavam que podiam tratar suas imperfeies com um jato de gua perfumada pelo nus. Hoje, os enemas so usados principalmente para o alvio da constipao e so muito mais seguros do que costumavam ser.
Evidentemente que um procedimento to comum com uma finalidade especfica deu rdea criatividade criando todo tipo de clister. Qualquer frasco almotolia, em ltima instncia, um enema.
A existncia de diversos modelos de enemas se deve principalmente finalidade do procedimento, ao volume de lquido necessrio e convenincia do uso (hospitalar vs. caseiro).
Os diferentes tipos so projetados para atender a necessidades especficas de alvio de constipao, preparao para exames mdicos ou administrao de medicamentos.
Lgico que o tabu deu origem a prazer em enemas, conhecido como clismafilia, que classificada medicamente como uma parafilia. Uma pessoa com clismafilia um clismaflico.
Um episdio mais cmico do que eu com uma chuca na boca fazendo peidorreita, ocorreu com o pai do amigo Rusmea, que adaptou um tipo espeffico de enema como piteira, sem saber do que se tratava.
E por fim uma nota triste sobre o assunto. Idiotas, a par de igualdade com terraplanistas, alegam falsamente que a administrao de enemas com dixido de cloro (Qboa) a crianas autistas resulta na expulso de “vermes-de-corda“, que na verdade so fragmentos de epitlio intestinal danificado que so interpretados erroneamente como patgenos humanos.
Enemas de gua sanitria so comercializados fraudulentamente como tratamento mdico, principalmente para autismo. Isso resultou, por exemplo, em um menino de seis anos que precisou ter o clon removido e uma bolsa de colostomia alm de vrios relatos de reaes com risco de vida e at morte, segundo uma reportagem do Mirror de 2017.
Como vimos, a histria do enema , essencialmente, a prova de que a humanidade sempre foi disposta a tentar caminhos “alternativos” para alcanar o bem-estar.
Depois das cabaas, chifres bovinos, mquinas vitorianas de pisto, modelos de borracha e, finalmente, a cincia moderna decidiu que talvez um suco de laranja e fibras fosse menos traumtico.
Hoje, olhamos para trs com gratido por vivermos em uma era onde o autocuidado geralmente envolve apenas uma mscara facial e um ch relaxante.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apie o MDig com o valor que voc puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuio:
- Faa um doao pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patro no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com
