O Canadá mantém a revisão da compra de 88 caças F-35 da Lockheed Martin e avalia o Gripen da Saab como alternativa parcial
O governo do Canadá mantém em andamento a revisão do contrato para aquisição de 88 caças Lockheed Martin F-35 Lightning II, firmado com a Lockheed Martin em 2023 por cerca de US$ 13,9 bilhões (R$ 69,3 bilhões), sem previsão para uma decisão final.
A informação foi confirmada por David McGuinty, ministro da Defesa canadense, durante audiência no comitê de defesa do Senado, ontem (27).
Segundo McGuinty, Ottawa continua analisando com profundidade a composição futura da frota de caças do país e considera inclusive fornecedores fora dos Estados Unidos. “A revisão da compra dos F-35 continua”, disse. “Estamos tomando o tempo necessário para estudar muito, muito de perto a questão da frota de caças.”
Contrato de 2023 sob análise
O Canadá assinou no início de 2023 o contrato para compra de 88 unidades do F-35A Lightning II, encerrando um longo processo de aquisição marcado por adiamentos e revisões políticas.
Em março de 2025, o primeiro-ministro Mark Carney determinou uma nova revisão militar do acordo, citando preocupações com a dependência excessiva da indústria de defesa dos Estados Unidos, em meio ao agravamento das relações comerciais entre Ottawa e Washington.
A expectativa inicial era de que a análise fosse concluída até setembro, mas o processo permanece aberto.
Gripen como alternativa parcial
Entre os cenários considerados está uma divisão parcial da frota, com redução do número de F-35 adquiridos e complementação da capacidade com caças F-39 Gripen, fabricados pela Saab.
Em março, o CEO da Saab disse que a empresa poderia entregar aeronaves Gripen ao Canadá em até cinco anos, caso o governo opte por essa alternativa.
Apesar da revisão em curso, Ottawa já assumiu compromisso financeiro legal para os primeiros dezesseis F-35 e iniciou discretamente pagamentos de componentes de longa antecedência para outras quatorze unidades, com o objetivo de preservar seus slots de produção.
F-35 favorecido nos bastidores
Mesmo com a incerteza política, autoridades do Ministério da Defesa canadense defenderam internamente, em agosto de 2025, a continuidade da compra integral dos 88 F-35.
Dados internos de avaliação divulgados no fim de 2025 mostraram que o F-35 superou o Gripen com ampla margem em todas as principais categorias de capacidade analisadas durante a concorrência original.
O desempenho técnico da aeronave norte-americana reforçou argumentos favoráveis à manutenção integral do contrato, especialmente em missões de superioridade aérea, interoperabilidade e integração com parceiros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Relação com os EUA
A revisão ocorre em meio a um período de forte tensão diplomática entre Canadá e Estados Unidos.
No início do ano, Pete Hoekstra, embaixador norte-americano no Canadá, alertou que uma eventual desistência do contrato do F-35 poderia afetar a parceria no Norad, o Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte.
Segundo ele, os EUA poderiam precisar deslocar seus próprios caças para o espaço aéreo canadense para compensar eventuais lacunas de capacidade operacional.
Questionado se o atraso refletia preocupação com a reação do presidente Donald Trump, McGuinty disse que o prolongamento da análise representa prudência orçamentária. “O que isso mostra, espero, para os canadenses, é que estamos sendo muito responsáveis”, declarou.
Participação no GCAP
Na mesma audiência no Senado, McGuinty confirmou que o governo canadense também analisa a possibilidade de obter status de observador no Global Combat Air Programme (GCAP), programa multinacional de caça de sexta geração liderado por Japão, Reino Unido e Itália. Ainda não há decisão definitiva sobre essa participação.
O GCAP surgiu a partir do programa Tempest, do Reino Unido, e busca desenvolver o sucessor do Eurofighter Typhoon. Uma eventual adesão canadense, mesmo como observador, seria interpretada como movimento de diversificação das parcerias estratégicas de defesa aérea além da dependência dos Estados Unidos.
Separadamente, a Saab também sugeriu que o Canadá poderia integrar seu programa de aviação de combate de próxima geração, conhecido como KFS, em parceria com a Suécia.
