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A Vênus das Peles, de Sacher-Masoch: o desejo da dor e o limite do humano

A Vênus das Peles, de Sacher-Masoch: o desejo da dor e o limite do humano

Sem moralismo ou preconceitos. É assim que se deve ler Sacher-Masoch. Mas nem é necessário se preocupar com isso. O próprio autor vai impor o limite. Comecemos por um extremo, uma vez que coisas relacionadas ao sofrimento humano são sempre delicadas. Alejandra Pizarnik, a poeta argentina, excelente, diga-se como complemento, escreveu sobre a sádica condessa Erzsébet Báthory, a Condessa Sangrenta, assassina de jovens mulheres. Pizarnik não economiza para explicar os níveis absurdos de crueldade que a condessa imprimia em seus terríveis atos desumanos. Matou, mas antes torturou. E nisso consiste o horror. É nesse ponto que a comparação com Sacher-Masoch se torna inevitável, não pela semelhança, mas pela diferença radical entre sofrer sem escolha e desejar o próprio sofrimento. É inevitável pensar que as vítimas da condessa não queriam sofrer e foram vítimas de uma mente perturbada. Mas, mais terrível ainda, é pensar que cada mulher torturada e morta era um ser humano cujas características não diferem em nada das da condessa. Humanos são essencialmente iguais. Essa igualdade, no entanto, não impede que o desejo produza abismos éticos entre indivíduos. Mesmo assim, uma pessoa com interesses sinistros, sentimentos obscuros e desejos perversos, unida a uma alta condição social, pode fazer grandes estragos. As vítimas não tinham escolha nem condições de se defender ou se rebelar contra as crueldades de Báthory. Um caso distinto daquele descrito por Sacher-Masoch em sua maior obra literária, “A Vênus das Peles”. Se em Báthory a dor é um instrumento de poder absoluto, em Masoch ela se torna objeto de desejo e construção subjetiva. Severin, o narrador, é impelido, essencial e constantemente, pelo desejo de sofrer. Mas esse desejo não é passivo: Severin organiza, antecipa e encena sua própria submissão. De que tipo: qualquer um que o faça menor, subjugado, massacrado e, finalmente, molestado. A vontade pela violência, pelo castigo de seu corpo, por uma mulher, especialmente uma que ele deseja e que o encanta pela beleza e atributos físicos especiais, faz com que ele busque as situações mais inusitadas e patéticas. Não se trata apenas de desejar a dor, mas de abdicar sistematicamente de qualquer forma de resistência a ela. Severin, ou Masoch, não é apenas impelido por uma força anímica, mas também por uma lógica interna que transforma a dor em condição para o prazer e, paradoxalmente, em forma de controle. A excitação erótica, a volúpia sexual, são intensas na medida em que a dor é imprimida pela violência do ser amado.

A Vênus das peles, de Leopold Von Sacher-Masoch (Editora Hedra, 184 páginas)

Em “A Vênus das Peles”, mais do que nomear uma prática, Masoch constrói uma estética da submissão. Sacher-Masoch empresta seu nome para popularizar o masoquismo, ou seja, a “tendência, prática ou transtorno sexual (parafilia) no qual um indivíduo obtém prazer, satisfação ou excitação por meio da dor física, da humilhação ou da submissão”. E mais, Masoch faz um grande desfavor aos humanos. Explico. Num sentido amplo, para além de suas tendências peculiares, Severin é um covarde. Sua covardia não está no medo da dor, mas na recusa em existir fora dela. Parece que Masoch quer alegar, em sua literatura, que as duas coisas andam de mãos dadas. Não se pode ser masoquista sem ser covarde. Em função disso, o narrador protagoniza situações absurdamente patéticas e ridículas. No romance, a tensão cresce à medida que Severin leva a humilhação a um limite perigoso, que beira a insanidade. Sua parceira, Wanda, estabelece claramente uma relação em que não se sente à vontade com seu papel, o de torturar incondicionalmente o seu escravo voluntário até o mais baixo nível do suportável, física e psicologicamente, embora em muitos momentos pareça gostar e gozar de sua atribuição. Wanda oscila entre a execução de um papel e a descoberta de um prazer que inicialmente não lhe pertencia. Ela é uma moralista no sentido em que desempenha uma função de educadora de um possível desvio comportamental. Isso enfraquece o romance pioneiro de um tema raramente exposto na época e precursor não somente de uma literatura original e com estilo, mas também de estudos no campo da psiquiatria. Nesse sentido, sua função ultrapassa a de algoz e se aproxima da de uma mediadora entre desejo e limite.

Severin não é como as jovens maltratadas pela condessa; ele é, sim, um voluntário da autoperdição e da vulgaridade de outrem numa relação perturbadora. A diferença decisiva entre os dois universos não está na intensidade da dor, mas na sua origem. Sofre o indizível porque quer, e isso faz pensar que existe um direito nisso. Mas o consentimento, por si só, não resolve o problema moral da violência. Apesar da flagrante covardia e do comportamento inescrupuloso de Wanda, existe um acerto entre os dois. Esse acordo, longe de estabilizar a relação, legitima a sua radicalização. Um contrato em que Severin atesta, assina, que será o escravo de sua dona e que ela poderá fazer com ele o que bem quiser. Sadismo e masoquismo diferem na natureza de quem os pratica. Ao final, Severin se “cura” e olha para o seu passado como uma idiossincrasia absurda e temporal da qual, felizmente, se livrou, e Wanda, que o humilhou escandalosamente, segue sua vida normalmente, pelo menos para os padrões da época. Não há uma defesa, por parte de Severin, em sua arte, de seu idealismo sexual sofredor voluntário, do qual nutria sua felicidade e satisfação pessoal. Na vida, tudo bem. Na literatura, um pecado. Masoch defende um equilíbrio insano para Severin: uma Wanda que o maltrate dentro de um limite “sadio”. Isso não é possível quando o prazer não conhece barreiras, ou quando a maldade se instala.

Báthory e Masoch dividem protagonismos em um universo interessante e assustador. Em um deles, o horizonte da maldade não vê uma fronteira, uma divisa capaz de barrar o seu progresso. No outro, essa condição limitante pode ser imposta pelo próprio protagonista da ação. Se em um caso a violência se impõe sobre o outro, no outro ela é desejada até o limite da autodestruição. Em ambos os casos, o que se revela é a fragilidade de qualquer limite quando o desejo, seja de poder ou de submissão, deixa de reconhecer o outro como medida.



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