Todo brasileiro que estava em plena consciência durante os anos 2000 sabe como jogadores como Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Nazário, Roberto Carlos e Rivaldo eram figuras quase míticas, heroicas. Durante um período, o futebol brasileiro se tornou uma seleção inalcançável e praticamente imbatível. Nenhuma outra chegava aos pés, e as melhores equipes do mundo tremiam quando entravam em campo contra a seleção canarinho. Esse auge, por óbvio, acabou, e sem previsão de qualquer coisa parecida em um futuro próximo.
O país do futebol parece ter ficado no passado, embora o título de hexacampeão em Copas do Mundo seja exclusivamente nosso. Mas a ameaça não é só iminente como provável: outras seleções podem nos ultrapassar. E não quero soar pessimista, caros leitores, apenas brutalmente realista.
Depoimentos
No documentário da Netflix “Ronaldinho Gaúcho“, o documentarista Luis Ara escuta testemunhos de dentro da casa do craque: do próprio Ronaldinho, de Roberto Assis, seu irmão mais velho e empresário, da irmã Deisi e do único filho, João. Também há depoimentos de futebolistas como Ronaldo Nazário, Neymar, Edmílson, Gilberto Silva, Lionel Messi, dentre outros colegas de seleção e rivais de clubes. Há ainda falas de técnicos e dirigentes.
A carreira contraditória de Ronaldinho recebe certa indulgência pelo olhar de Ara; afinal, o talento e a criatividade do craque parecem incompatíveis com obediência e disciplina. Ronaldinho não se dobrava ao rigor dos horários, às restrições pré-jogo, aos treinos ou às ordens dos treinadores. Foi isso que azedou o leite em clubes onde ele não só se destacou, como elevou o nível das equipes, caso do Paris Saint-Germain, do FC Barcelona e até do Flamengo, quando voltou a atuar no Brasil.
Começo e inspiração
Ara fala da infância simples de Ronaldinho na periferia e de como o caçula se destacava mais no futebol que seu irmão, que chegou a jogar profissionalmente no Grêmio. O pai, que afirmava ser bom de bola, dizia que seus genes foram aperfeiçoados no filho mais novo, mas sua morte prematura não lhe permitiu ver o menino brilhar. Logo Assis, o irmão, se tornou o chefe da casa e responsável pela carreira do pequeno Ronaldo, driblador desde moleque.
Nos dribles do basquete, Ronaldo observava para aprender e reproduzir no futebol, e foi essa criatividade e ousadia em campo que o tornaram um fenômeno. Fora do gramado também cresceu por conta do carisma, da musicalidade e do bom humor. Festeiro, ficou conhecido na internet como o “rei do rolê aleatório”, aparecendo em lugares sem qualquer ligação com o futebol.
Altos e baixos
Sua falta de disciplina e sua rebeldia o colocaram sob os holofotes da mídia. Se os times em que jogava venciam e seu desempenho era bom, exaltava-se o talento; mas, quando as coisas iam mal, vigiava-se em qual balada ele teria ido e a que horas voltara para casa. É natural que uma celebridade maior que o próprio futebol tenha sua vida vigiada, vasculhada e até julgada. O fundo do poço veio quando Ronaldinho ficou cinco meses preso no Paraguai por porte de documento falso, episódio que nunca foi plenamente esclarecido, nem mesmo no documentário.
“Ronaldinho Gaúcho“ disseca em quatro episódios os altos e baixos da carreira do craque, mostrando como o ex-jogador continua levando a vida com agenda cheia e cercado pelo carinho de amigos do futebol, que o descrevem como alguém sempre acolhedor e humilde. A obra relembra os momentos de ouro da seleção brasileira e deixa, no fundo da boca, aquele gostinho de saudade, uma nostalgia de um futebol que, ao que tudo indica, talvez não retorne.
