Chandler Levack parte de uma situação simples em “A Colega Perfeita”: uma caloura escolhe a colega de quarto errada e transforma o primeiro ano de faculdade num campo minado. Sadie Sandler vive Devon, que chega ao campus decidida a não passar invisível. Chloe East faz Celeste, estudante mais solta, mais popular, mais treinada para circular naquele ambiente. Sarah Sherman aparece como a autoridade universitária que reconta o caso a outra dupla em crise. O filme acompanha a passagem rápida da empolgação para o desgaste, e acerta ao localizar esse processo em coisas pequenas: a conta dividida de modo desigual, o favor que deixa de ser exceção, o elogio com ponta de humilhação.
Devon conhece Celeste ainda na orientação, no gramado, antes de as aulas começarem. O convite para dividir o dormitório nasce ali, quase por impulso, como tantas decisões dessa idade. Levack entende bem o que isso significa na prática. A amizade não se constrói em conversa programática, mas em proximidade forçada: duas camas de solteiro no mesmo quarto, banheiro compartilhado, roupa circulando entre armários, ressaca sem distância, barulho de madrugada. Devon cursa arquitetura e aparece desde cedo como alguém que tenta se organizar pela rotina, pelo trabalho, pelo esforço visível. Celeste entra em cena com outros sinais: kombucha, doom-scrolling noturno, facilidade para ocupar espaço e definir o tom das situações. Uma observa antes de agir; a outra já age como se estivesse em casa.
No quarto
Sadie Sandler encontra um ponto bom para Devon. A personagem quer pertencer e, por causa disso, aceita mais do que devia. Paga mais, cede mais, faz a tarefa da colega, acompanha programas que talvez nem quisesse acompanhar. Não porque seja ingênua em bloco, mas porque teme ficar para trás. O filme ganha densidade aí, nessa disposição de Devon de investir dinheiro, tempo e energia numa amizade que ela ainda imagina estar construindo. Chloe East também trabalha bem. Celeste não entra como vilã pronta. Ela invade aos poucos. Pede como se estivesse brincando. Elogia de um jeito que rebaixa. Faz do espaço da outra uma extensão natural do seu. A relação vai azedando nesse atrito miúdo, repetido, muito mais do que em algum grande incidente.
É por isso que “A Colega Perfeita” funciona melhor quando se concentra em gesto, objeto e rotina. Um story suspeito no Instagram. Um pedido torto no Venmo. Um trabalho feito por uma e entregue por outra. O quarto que deixa de ser refúgio e vira lugar de cálculo. Levack filma essa passagem sem exagerar os sinais. Quando a história chega ao spring break em Panama City, a tensão já está instalada. O interesse do filme não está em revelar o conflito, mas em mostrar como ele foi se acumulando. O espectador percebe antes de qualquer fala mais direta: uma começa a fazer conta, a outra continua agindo como se nada estivesse em jogo. Uma entra no quarto já cansada. A outra ainda fala e pede como se a intimidade cobrisse tudo.
Moldura em excesso
A parte mais fraca está na moldura narrativa com a personagem de Sarah Sherman. Sherman tem presença e tempo de comédia, mas o recurso interrompe mais do que ajuda. Sempre que o filme sai da experiência imediata de Devon e Celeste para voltar a esse enquadramento, perde pressão. O material é mais forte quando fica colado ao dormitório, à festa, à manhã seguinte, à aula, ao favor mal resolvido. Não precisava de comentário externo para ganhar forma. Já havia bastante coisa em cena: quem usou o quê, quem pagou o quê, quem passou a evitar o simples pedido da outra.
Ainda assim, o saldo é bom. “A Colega Perfeita” tem exageros e flerta às vezes com um humor mais espalhafatoso — o episódio do peru frito em chamas que atinge a avó de Devon é o exemplo mais visível disso —, mas volta sempre ao que sustenta o filme. O quarto apertado, a economia de estudante, os favores cobrados depois, a urgência de não sobrar naquele começo de vida universitária. O terceiro ato acelera e resolve com mais pressa do que o resto pedia. Nem tudo se mantém na mesma medida. Mas há um olhar atento para a crueldade cotidiana e duas atuações centrais que seguram o embate. “A Colega Perfeita” talvez não vá muito além do que promete, mas observa bem esse momento em que dividir o quarto deixa de ser parceria e passa a ser desgaste.
