Luca Ribuoli dirige “Sinta a Minha Voz” sem tratar a música como milagre nem como fuga pronta. Eletta Musso, vivida por Sarah Toscano, tem 16 anos, mora no interior do Piemonte com os pais Caterina e Alessandro e o irmão Francesco, e é a única ouvinte de uma família surda. O filme começa desse dado simples e pesado ao mesmo tempo. Na prática, a menina traduz conversas, resolve o que vem de fora, lida com clientes, médicos e tarefas miúdas que passam por ela antes de chegar aos outros.
Esse lugar não aparece como traço de personalidade, mas como rotina. Eletta ajuda na propriedade, cuida dos animais e atravessa o dia entre a fazenda, a casa e as demandas que os pais não conseguem empurrar para mais ninguém. Por isso, quando entra para o coro da escola e chama a atenção da professora Giuliana Palumbo, o que se move ali não é só um talento descoberto. Muda também a posição daquela garota dentro de uma engrenagem que depende dela o tempo todo.
Na escola
Ribuoli acerta mais quando mantém esse conflito em coisas concretas. Giuliana aproxima Eletta de Marco para ensaiar uma canção para a apresentação de fim de ano, e os encontros entre os dois fazem a música deixar de ser gosto privado para virar possibilidade de vida. O filme não corre para transformar isso em grande romance nem em explosão sentimental. Prefere mostrar o que esse novo espaço produz nela, uma adolescente que sai do trabalho na fazenda, entra na sala de ensaio e percebe que a própria voz pode levá-la para outro lugar.
Sarah Toscano sustenta bem esse meio-termo. Eletta não é filmada como predestinada, nem como vítima pura do ambiente em que vive. Ela aparece presa a tarefas muito concretas e, ao mesmo tempo, puxada por uma chance que não cabe mais na rotina da casa. A relação com Marco pesa menos pelo namoro em si do que pelo deslocamento que ela provoca, porque ensaiar, faltar, desejar e imaginar Turim passam a concorrer com o papel que a menina cumpre entre os pais, o irmão e o lado de fora.
Casa e passagem
A boa escolha do filme está em não reduzir a família a obstáculo. Caterina, Alessandro e Francesco não servem de muro sentimental para o crescimento de Eletta. Dependem dela de modo prático, quase administrativo, e o roteiro já mostrou isso nas conversas mediadas por ela, nas saídas em que funciona como ponte e no trabalho comum da propriedade. Quando Giuliana sugere que a jovem tente o exame para uma escola de canto em Turim, o impasse não é abstrato. Sair de casa significa tirar daquela família a pessoa que organiza sua comunicação com o mundo.
Esse peso ganha corpo também fora do núcleo doméstico. Alessandro decide entrar nas eleições locais depois de reagir a um plano do prefeito para os criadores da região, e esse movimento ajuda a situar a história num Piemonte de trabalho rural, disputa pública e dependência econômica, não só num drama privado de vocação. A fazenda, os jumentos, a lida diária e a presença de intérpretes surdos em papéis centrais dão alguma firmeza ao que acontece dentro de casa. Ribuoli talvez não force muito a mão para reinventar um material conhecido, mas encontra alguma verdade quando deixa essas pressões coexistirem sem transformar tudo em mensagem.
“Sinta a Minha Voz” cresce nesse aperto. De um lado estão o coro, Giuliana, Marco e a hipótese de Turim; do outro, a casa, a função que Eletta cumpre entre os pais e o irmão e a dificuldade real de deixá-los sem a pessoa que traduz o mundo para eles. O filme vale menos por qualquer exaltação da vocação do que pela forma como encosta essa escolha em tarefas, vínculos e obrigações que já existiam antes do primeiro ensaio. O que fica é a imagem dessa menina dividida entre a sala de música e a fazenda, com o corpo puxado para a frente e a vida inteira ainda presa ao portão de casa.

