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Baseada em obra-prima sueca, comédia dramática com Julia Louis-Dreyfus e Will Ferrell chega à Netflix para trazer um assunto incômodo

Baseada em obra-prima sueca, comédia dramática com Julia Louis-Dreyfus e Will Ferrell chega à Netflix para trazer um assunto incômodo

Logo no início de “Downhill”, Billie (Julia Louis-Dreyfus) e Pete (Will Ferrell) chegam com os filhos a um resort nos Alpes franceses, determinados a aproveitar dias tranquilos de esqui, descanso e refeições demoradas. O cenário é organizado, bonito, quase artificial de tão perfeito, e Billie se empenha em estruturar a rotina da família, enquanto Pete parece mais interessado em relaxar sem grandes responsabilidades. Esse pequeno desalinhamento, ainda discreto, prepara o terreno para um conflito maior que logo se impõe.

Durante um almoço em um terraço do hotel, a família observa uma avalanche controlada, daquelas pensadas justamente para evitar riscos maiores. O clima é leve, quase turístico, com celulares em mãos e comentários dispersos. Billie mantém os filhos por perto, atenta, enquanto Pete observa com certo distanciamento. Quando a avalanche cresce além do esperado e avança em direção ao restaurante, o pânico se instala por alguns segundos.

É nesse instante que tudo muda. Pete reage de forma impulsiva: levanta-se e se afasta rapidamente, deixando Billie e os filhos para trás. O movimento é rápido, quase instintivo, mas suficiente para marcar profundamente quem ficou. Quando a neve se dissipa e todos percebem que estão fisicamente seguros, o que permanece não é o susto em si, mas a lembrança clara do gesto de Pete. Billie não consegue ignorar o que viu, e a dinâmica familiar sofre um abalo imediato.

O episódio que ninguém consegue esquecer

De volta ao quarto, Billie tenta conversar sobre o que aconteceu, buscando uma explicação direta. Pete, por outro lado, recua. Ele minimiza o episódio, sugere que tudo foi confuso, quase imperceptível, como se a memória pudesse ser ajustada ao conforto dele. A insistência em negar o óbvio não resolve a situação; ao contrário, amplia o desconforto.

Os filhos, ainda que mais silenciosos, também registram o ocorrido. A figura de Pete, antes mais estável dentro da família, começa a ser observada com certa desconfiança. Pequenos olhares e pausas nas conversas indicam que algo mudou, e que a confiança não é mais automática.

Tentativas frustradas de normalidade

Nos dias seguintes, Pete tenta retomar o controle da situação com gestos cotidianos. Propõe passeios, sugere atividades, insiste em manter o clima leve, como se bastasse seguir o roteiro da viagem para apagar o ocorrido. Há até momentos em que ele recorre ao humor, transformando o episódio em uma espécie de anedota desconfortável, esperando que o riso resolva o que ele não quer enfrentar diretamente.

Mas o efeito é outro. Billie não acompanha essa tentativa de suavização e, sempre que possível, traz a conversa de volta ao ponto central. Em um jantar com outros hóspedes, o constrangimento fica evidente: Pete tenta conduzir a narrativa de forma mais favorável a si mesmo, enquanto Billie interrompe e reposiciona os fatos. O ambiente, que deveria aliviar a tensão, apenas amplia o alcance do conflito.

A convivência passa a exigir negociação constante. Decisões simples, como escolher uma pista de esqui ou definir horários, deixam de ser automáticas. Billie assume uma postura mais firme, organizando a rotina e, de certa forma, reduzindo o espaço de atuação de Pete dentro da família.

Entre o silêncio e o confronto

Há momentos em que o silêncio pesa mais do que qualquer discussão. Em passeios ou deslocamentos pelo hotel, a tensão se mantém presente, ainda que não verbalizada. Pete percebe que perdeu algo difícil de recuperar: a confiança espontânea. Ele tenta contornar a situação com pequenas atitudes, mas evita encarar o problema de frente, o que prolonga o desgaste.

Em uma tentativa mais direta de reconciliação, Pete ensaia um reconhecimento parcial do erro. Ele admite o medo, mas evita nomear o abandono. Essa diferença, sutil na forma, é decisiva no conteúdo. Billie escuta, mas não aceita a versão incompleta, o que mantém o conflito em aberto.

O impacto se estende aos filhos, que passam a interagir com o pai de maneira mais cautelosa. Não há confrontos explícitos, mas há uma mudança perceptível na forma como eles o enxergam, o que altera a dinâmica familiar de maneira concreta.

O episódio da avalanche deixa de ser apenas um susto e se consolida como um ponto de inflexão. Pete não consegue retomar automaticamente o lugar que ocupava, e Billie mantém a questão em suspenso, sem aceitar soluções rápidas. O que parecia ser apenas um momento de pânico revela, na verdade, algo mais profundo e difícil de reorganizar, e a família segue adiante carregando esse ajuste ainda inacabado.

Filme:
Downhill

Diretor:

Nat Faxon e Jim Rash

Ano:
2020

Gênero:
Comédia/Drama

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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