Num mundo degenerado, vítima de uma incessante contaminação por pensamentos teratológicos de todas as categorias e de valores apodrecidos, ainda cabe falar em moralidade, decoro, decência, ou isso é, agora mais do que nunca, coisa para sonhadores? Vive no fundo de cada um de nós uma criatura feita a nossa imagem e semelhança, que quase não conhecemos, contra a qual podemos muito pouco e que desafia-nos com seus vitupérios, uma ideia que “Possessor” ousa colocar à mesa. Brandon Cronenberg junta muitas peças até conseguir um terror corporal que passa da argúcia à selvageria, fazendo jus ao seu DNA. Seu pai, David Cronenberg, é um dos mestres do gênero, e aqui o diretor-roteirista dedica-se a uma das coisas que o cinema faz de melhor: urdir hipóteses sobre um futuro cruel.
A morte na cabeça
Estamos todos à procura de um lugar ao sol, dando com a cara na porta até que ela se abra. Existe muita coisa em nós com as quais não sabemos lidar e que acabam desencadeando a tormenta de destruição que inunda a nossa vida, e a tecnologia, mais diabólica que santa, quase nunca nos redime. Foram aparecendo mecanismos que, mais cedo ou mais tarde (e, pelo visto, será muito mais cedo do que se pensa), reduzirão seres humanos a meros coadjuvantes de sua história, invenções de outros seres humanos, essa espécie que se devora desde sempre. Tasya Vos encarna a perfeição essa alegoria do progresso como um abismo ao qual nos lançamos sem nenhuma rede de segurança. Líder dos assassinos de uma organização secreta, ela só sabe matar, cumprindo as ordens que vêm-lhe por um implante no cérebro. E nisso ela é muito boa.
Cara e coroa
A excelência que Vos tem em seu ofício diabólico falta-lhe na intimidade. Sua vida dupla a afastou do marido e do filho, e Girder, sua chefe, aposta nela como a sucessora ideal, encarregando-a da missão de acabar com um influente bilionário valendo-se de um plano que somente ela mesma pode executar. Além da direção segura de Cronenberg, fica claro que “Possessor” só não desanda graças a Andrea Riseborough e seu sobre-humano talento, capaz de amenizar as falhas de Jennifer Jason Leigh. Brandon Cronenberg tem a quem puxar, mas um galo sozinho não tece a manhã.
Filme:
Possessor
Diretor:
Brandon Cronenberg
Ano:
2020
Gênero:
Ficção Científica/Terror
Avaliação:
8/10
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1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

