Muito menos racional do que aquele que orienta sua vida pelos tantos expedientes que só podem degringolar em insânia e maldade é quem espera algum resquício de sensatez em gente que entende a vida como um jogo sem regras, no qual tudo pode ser feito para chegar ao topo. Nascemos todos inexoravelmente mergulhados em questões muito nossas, cujo sentido revela-se apenas para nós mesmos, mantidas como um raro tesouro a distância dos olhares de mórbida curiosidade de quem nos odeia e da surpresa muda das pessoas que nos querem bem. Nikyatu Jusu concentra numa mulher senegalesa suas impressões sobre a fantasia por trás do sonho americano, fazendo de “A Babá” uma daquelas histórias de terror para além do terror. Numa estreia auspiciosa em longas, Jusu fundamenta seu desagravo a tudo quanto força alguém a sair de sua terra, ao passo que também defende que se busque a felicidade onde quer que ela possa estar. E para tanto há que se vencer uma refinada estratégia de autossabotagem.
Horas sem fim
Depois de algum tempo a procurar colocação em casas de família, Aisha é aceita por Amy, uma típica mulher independente de Tribeca. A nova babá de Rose, a filha de Amy e Adam, dá um colorido especial ao apartamento brutalista no sul de Manhattan, um trunfo da fotografia de Rina Yang, e aos poucos essa dicotomia se impõe como uma das marcas do filme, sempre guardando uma carta oculta. A estética de “A Babá” firma uma separação nítida entre esses dois universos, o de Aisha e o dos novos patrões, por mais que Amy se esforce por ser gentil e até empática, outra das conclusões enganosas a que a diretora-roteirista leva o público. Vão surgindo alguns problemas quanto ao pagamento de horas extras e um maldisfarçado ciúme da mãe para com o relacionamento de Aisha e Rose, além de insinuações de um possível interesse sexual de Amy por sua bela funcionária. Michelle Monaghan domina bem essas nuanças da personagem, abrindo uma estrada sombria, por onde o enredo correrá.
Relações líquidas
O amor, o verdadeiro amor deveria resistir a tudo. Nenhum sentimento desperta tanto fascínio como a mais humana das emoções, mas as promessas de amor se escrevem nas ondas do mar, com o vento. Aisha sabe disso, e não se deixa seduzir, ao menos não pelo amor romântico, canalizando todas as energias em juntar o dinheiro necessário a fim de trazer para Nova York Lamine, o filho de sete anos que mora com uma irmã no Senegal. Em meio a tanta luta, Jusu encaixa as cenas de pesadelos nos quais a protagonista vê-se cercada de água, invadindo até o quarto onde dorme. Sequências como essas culminam em afogamentos reais, até que se entende, afinal, o porquê dessa metáfora. Anna Diop sustenta todos os supostos absurdos da narrativa, capaz de manter o ritmo frenético até o desfecho, nem tão surpreendente, mas perturbador assim mesmo. Aisha é alguém que só tenta não afundar.
Filme:
A Babá
Diretor:
Nikyatu Jusu
Ano:
2022
Gênero:
Drama/Terror
Avaliação:
9/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

