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Diretor e ator, Dennis Carvalho ajudou a dar forma à TV brasileira

Diretor e ator, Dennis Carvalho ajudou a dar forma à TV brasileira

A lista de trabalhos de Dennis Carvalho se mistura à história da televisão brasileira. Dancin’ Days, Pecado Capital, Vale Tudo, Roque Santeiro – como ator e, mais tarde, diretor, ele construiu uma trajetória ímpar, que se encerrou neste sábado, dia 28, quando o artista morreu em um hospital do Rio de Janeiro, após um longo período com problemas de saúde.


A família não autorizou a divulgação da causa da morte.


O artista chegou a ficar 20 dias em coma em 2023. À época, ele teve uma septicemia, um quadro de infecção generalizada. Ele também apresentou embolia pulmonar e teve que realizar uma cirurgia para a colocação de um marca-passo.


Dennis Carvalho iniciou sua carreira como ator: seu primeiro trabalho foi na primeira versão da novela Roque Santeiro, que acabou censurada pela ditadura militar (1964-1985) – ela ganharia uma versão definitiva em 1985, da qual também fez parte do elenco.


Carvalho trabalhou ainda nas novelas O Meu Pé de Laranja Lima, Ídolo de Pano, Pecado Capital, O Casarão, Brilhante e Brega & Chique, entre outras. A curiosidade sobre como fazer o trabalho artístico o levou a estrear como diretor em 1977, com Sem Lenço, Sem Documento.


Foi o início de uma longa carreira atrás das câmeras, que incluiu novelas como Eu Prometo, Corpo a Corpo, Roda de Fogo, Vale Tudo, Fera Ferida, Explode Coração, Celebridade e Paraíso Tropical, além de minisséries como Anos Rebeldes e Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor e dos seriados Malu Mulher, Amizade Colorida e A Justiceira. Também foi um dos diretores do programa semanal de grande êxito Sai de Baixo, que marcou época no humor na TV brasileira.




Carvalho enfrentou ainda problemas com a censura, como no seriado Malu Mulher, que trazia Regina Duarte como uma mulher que cuidava da própria vida e da filha sem a ajuda de um marido ou namorado. Tratava de questões polêmicas, como aborto, drogas, homossexualidade, problemas reais, que as pessoas não estavam acostumadas a ver retratados na televisão.


Com Malu Mulher, Carvalho firmou-se como diretor, revezando-se com Paulo Afonso Grisolli e Daniel Filho, que dirigiu os episódios iniciais da produção.


O artista participou da criação e também atuou na série. “Tinha uma cena forte, uma briga violenta entre a Regina Duarte, a protagonista Malu, e eu, o ex-marido. O episódio ganhou sete prêmios internacionais, nos deu muito orgulho”, contou em uma entrevista.


Carvalho teve diversos parceiros na criação, mas seu mais fiel foi o autor Gilberto Braga (1945-2021), com quem dirigiu a maioria de seus trabalhos na televisão, inclusive sua penúltima novela, Babilônia, em 2015, que não conquistou o sucesso de público e crítica de outros de seus trabalhos.


Ele também exerceu durante anos a função de dublador, sendo a voz de Roger “Race” Bannon, de Jonny Quest, Capitão Kirk, em Jornada nas Estrelas, e Jerry, em O Túnel do Tempo. Era dele também a voz do cabo Rusty, o amigo inseparável do cachorro Rin-tin-tin, no seriado de mesmo nome.


“Minha voz começou a mudar e comecei a pegar papéis maiores. Aí me entusiasmei pela dublagem e também comecei a dirigir por uns dois anos trabalhos de dublagem. Havia atores como Lima Duarte e outros conhecidos na época realizando esse tipo de trabalho”, lembrou ao programa Memória, da TV Globo.


Missão


“Ser diretor, além de ser uma profissão gratificante e com a qual eu sempre sonhei, significava a missão de contribuir com o próximo, com o meio em que trabalhamos, de lançar novos talentos, formar diretores e atores”, explicou ele ao site da Globo.


Com o tempo, Carvalho desenvolveu artimanhas própria com os diversos elencos com os quais trabalhou.


No programa Lady Night, comandado por Tata Werneck, ele revelou, em 2019, curiosidades dos bastidores de gravação. Entre elas, o fato de gostar de pregar peças nos atores. “Faço cenas falsas a novela inteira, só de sacanagem com os elencos. Combino com um ator e o outro colega não sabe. Daí o ator regrava, falava absurdos e o outro não entendia nada. Tem uma fita na minha casa que não pode sair do cofre”, divertiu-se.


Carvalho recordou também uma cena icônica da TV brasileira que dirigiu: o assassinato de Odete Roitman (Beatriz Segall) na novela Vale Tudo (1988). Ele teve que lidar com imprevistos nas gravações e mudou o assassino da vilã de última hora. “Na versão original, os autores tinham decidido que Marco Aurélio (Reginaldo Faria) seria o assassino de Odete. No entanto, eles tiveram que alterar o desfecho depois que o segredo foi revelado pela imprensa. À época, também havia um concurso promovido por uma marca de alimentos, que sortearia 5 milhões de cruzados entre os participantes que acertassem a identidade do assassino “


Foi então que decidiram que Leila, vivida pela atriz Cássia Kiss, seria a responsável pela morte. Ela matou a vilã por engano, acreditando que se tratava de Maria de Fátima (Glória Pires), que tinha um caso com Marco Aurélio. “Uma semana antes do final, o Gilberto Braga me perguntou: quem é que tem cara de louca no elenco? A Cássia (Kiss), claro, eu respondi. Então é ela que vai matar, ele me disse”, contou Carvalho em entrevista ao jornal O Globo em 2024. “A gente só gravou no dia em que o capítulo foi ao ar, para que o desfecho não vazasse novamente. Gravamos por volta de uma da tarde, para ir ao ar às oito da noite.”


No ano passado, um remake da novela, escrito por Manuela Dias, foi ao ar e mudou o destino de Odete. Interpretada por Débora Bloch, a vilã continuou viva depois de Marco Aurélio (Alexandre Nero) tentar matá-la. O último trabalho de Dennis Carvalho na televisão foi na novela Segundo Sol, de 2018. Escrita por João Emanuel Carneiro, a produção teve nomes estelares como Giovana Antonelli, Emílio Dantas, Deborah Secco e Adriana Esteves no elenco.


Iniciantes


Carvalho começou cedo na vida artística, aos 11 anos, quando fez um teste na antiga TV Paulista para participar da novela Oliver Twist. Quem ficou com o papel principal foi outro iniciante, Osmar Prado. E Carvalho ficou com o papel do amigo de Oliver Twist. “A novela era ao vivo, não havia VT. Era fascinante ver o empenho das pessoas, fazendo televisão com as mínimas condições possíveis. Foi uma experiência muito bacana, que me marcou”, recordou o ator e diretor ao Memória, em depoimento gravado em 2008.


Em 1968, ele entrou na TV Tupi, na qual participou de vários teleteatros e principalmente da novela Antônio Maria, na qual contracenou com uma lenda da atuação brasileira, Sérgio Cardoso, e também com outros nomes importantes, como Aracy Balabanian, Tony Ramos e Paulo Figueiredo. Em Ídolos de Pano (1974), ainda na Tupi, interpretou o papel do vilão, contraponto para o mocinho Tony Ramos.


Em vez de apenas fazer maldades, sugeriu ao autor Teixeira Filho um passado, questões não resolvidas que justificassem o comportamento do personagem, que, a partir daí, cresceu e ganhou bastante importância na trama.


“Fui indicado ao prêmio de melhor ator pela Associação Paulista de Críticos de Televisão”, lembrou. Após a novela, recebeu um convite de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para se mudar para a Globo. O que pesou na balança foi a promessa de mais tarde poder atuar como direção. Em 1975, assinou com a emissora.


Também nos anos 1970, Dennis Carvalho pisou pela primeira vez no palco no musical Hair, em 1970. Por intermédio de Aracy Balabanian, que participava do elenco, fez teste para a peça e passou. “Estreei ficando pelado em cena. Nem preciso dizer que a peça foi o maior sucesso. E eu, aos 20 e poucos anos, já trabalhava feito louco, fazendo televisão e teatro ao mesmo tempo”, lembrou.


Ele estreou como diretor de teatro em 2013, no espetáculo Elis – A Musical, sobre a cantora Elis Regina. E, em 2022, dirigiu O Clube da Esquina, sobre a criação do grupo musical mineiro no qual se destacou Milton Nascimento. Em 2024, ele voltou a dirigir Elis – A Musical em uma versão comemorativa em São Paulo, que comemorava os 10 anos da estreia.

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