Como viver em meio à mais baixa extração de bandidos do mundo sem ter por eles algum sentimento, mesmo que com o sinal invertido? Como suportar calado o avanço das drogas, vendidas a céu aberto nas esquinas periféricas das metrópoles, e particularmente sedutora aos mais ingênuos? Pode-se recorrer à polícia? Será mesmo? Essa sensação de inércia diante de um rival que nos oprime com especial crueldade fica pior quando não conseguimos definir o que de fato importa na vida e em que momento iremos parar o que quer que estejamos a fazer e passaremos a nos dedicar apenas ao que é nosso. Há uma análise filosófica bastante peculiar em “Hierarquia do Crime”, um enredo sobre valores caros à civilização, mas que vão se esfacelando em relações marcadas pelo abuso e pela psicopatia. Russell K. Reed compõe um thriller dramático lançando mão de uma premissa surrada mas nem por isso perfunctória. A maneira como a desenvolve é que acaba por fazer toda a diferença.
Uma família da pesada
Depois de uma jornada pelo submundo, Reach e Stone, dois irmãos adotivos do Texas, têm de fugir da polícia e de uma sanguinária organização criminosa, e é assim que se estrutura boa parte da narrativa. Reed concentra-se na dupla de protagonistas, contrapondo os temperamentos de cada um, até que desponta o terceiro vértice desse triângulo nada amistoso. Driscoll Buress, uma figura igualmente suspeita, passara quase uma década preso por assumir a responsabilidade dos irmãos num milionário esquema de distribuição de entorpecentes e, claro, agora quer ter sua justa retribuição. Essas sagas de homens irascíveis, que de uma hora para a outra decidem mudar de vida, começam pelos motivos mais excepcionais, mas sempre têm um propósito em comum: frisar a necessidade de recuperar os vínculos com o que eram desde antes que soubessem o que o destino faria deles. Com Reach e Stone não é diferente. Eles se perdem pelos descaminhos que surgem como atalhos enganosos para a felicidade, da mesma forma que existem muitos que não se conformam com aquilo que todos julgam como o natural. Na pele de Stone, Chiderah Uzowulu vai costurando as frenéticas subtramas de seu roteiro, ao passo que Xavier Alvarado e Dylan Winters mostram sintonia nas passagens mais espirituosas. As experimentações quanto ao gênero, amalgamando drama familiar e thriller de vingança como faz Olivier Schneider em “Irmãos de Orfanato” (2025) apetecem, malgrado o alcance não vá muito além dos aficionados por essas invencionices. Ao cabo de 97 minutos, tem-se a certeza de que tomar alguém por irmão às vezes não é uma boa ideia.
Filme:
Hierarquia do Crime
Diretor:
Russell K. Reed
Ano:
2025
Gênero:
Ação/Drama
Avaliação:
8/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

