Quando dezessete crianças somem ao mesmo tempo, sem arrombamento, sem gritos e sem rastros, alguém sempre vira culpado antes da primeira resposta. É desse impulso coletivo que parte “A Hora do Mal”, terror dirigido por Zach Cregger que transforma uma madrugada comum em ruptura definitiva. Às 2h17, alunos da turma da professora Gandy acordam, deixam suas casas por vontade própria e desaparecem. Só um fica: o tímido Alex Lilly. A cidade não sabe explicar o que aconteceu, mas sabe apontar o dedo. E ele aponta direto para Gandy, interpretada por Julia Garner, que passa de educadora respeitada a suspeita pública em questão de horas.
O filme acompanha esse colapso social com precisão desconfortável. Josh Brolin é um dos pais que se recusa a aceitar a falta de respostas e pressiona autoridades e escola por prazos concretos. Alden Ehrenreich interpreta uma figura ligada à condução institucional da crise, tentando equilibrar transparência e controle para evitar pânico maior. Enquanto isso, Gandy tenta sustentar a própria rotina, responder perguntas, manter a escola aberta e preservar o pouco de autoridade que ainda lhe resta. Cada entrevista que concede, cada reunião que enfrenta, muda sua posição diante da comunidade. Ela não enfrenta um monstro visível, enfrenta a suspeita organizada.
Alex Lilly, o único aluno que não saiu de casa naquela madrugada, torna-se peça central sem querer. A timidez não o protege da exposição. Ele é ouvido, observado, analisado. Sua permanência em casa é o único dado fora da curva, e isso basta para transformá-lo em referência e, ao mesmo tempo, em ponto de tensão. O roteiro é cuidadoso ao mostrar como a exceção pode virar peso. Ninguém sabe exatamente o que perguntar, mas todos querem alguma confirmação. Essa pressão desloca o foco da investigação e reorganiza as alianças dentro da cidade.
Cregger conduz o terror menos pelo susto imediato e mais pelo desconforto prolongado. A ausência de sinais de violência é o que realmente inquieta. Portas estavam fechadas por dentro. Não houve invasão. Não há pedidos de resgate. O inexplicável é burocrático, quase administrativo, e isso torna tudo mais perturbador. O diretor manipula a informação com inteligência, revelando o suficiente para manter a tensão e escondendo o bastante para que a paranoia cresça. O tempo parece mais lento, especialmente quando o relógio se aproxima novamente das 2h17.
O que mais impressiona é como “A Hora do Mal” entende que o verdadeiro horror está na reação coletiva. A cidade entra em luto, mas também em estado de vigilância. Pais se organizam, exigem relatórios, cobram a polícia. A escola vira campo de batalha simbólico. Gandy tenta se manter firme, mas cada gesto é interpretado, cada silêncio é suspeito. Julia Garner entrega uma atuação contida e intensa, sustentando a ambiguidade sem exageros. Josh Brolin imprime força emocional às cenas de confronto, enquanto Alden Ehrenreich compõe com sobriedade a figura que precisa administrar caos e expectativa pública.
O filme aposta na tensão crescente e na deterioração das relações. O medo aqui não está apenas no que aconteceu com as crianças, mas no que acontece com os adultos quando perdem o controle. A sensação é de que algo invisível reorganizou a cidade, e ninguém sabe quem realmente conduz a busca. “A Hora do Mal” não dá respostas simplistas nem atalhos emocionais. Ele constrói um clima persistente de inquietação, sustentado por atuações sólidas e por uma direção que entende que, às vezes, o mais assustador é aquilo que simplesmente não deixa rastro.
Filme:
A Hora do Mal
Diretor:
Zach Cregger
Ano:
2025
Gênero:
Mistério/Terror
Avaliação:
8/10
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Fernando Machado
★★★★★★★★★★

