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Amaro Freitas: de Nova Descoberta para se tornar um dos maiores do mundo

Amaro Freitas: de Nova Descoberta para se tornar um dos maiores do mundo

Tudo tem seu começo”. O de Amaro Freitas foi aos onze anos, tocando bateria, acompanhando o pai, Seu Jeremias Freitas, enquanto cantava em uma igreja de Nova Descoberta, na Zona Norte de Recife.

Tempos depois, ele resolveu “sentar ao piano e estudar”. E isso foi uma escolha, que não raras vezes adentrava madrugadas. Era o único horário possível.

É que da faculdade ele ia tocar em restaurantes, “para ter o dinheiro da mensalidade, da comida, do ônibus, para ajudar a família”.


Pouco mais de duas décadas se passaram, e em seus atuais 34 anos de vida, ele se vê como “ (…) um sobrevivente, um ponto fora da curva, algo improvável que deu certo”. Ô se deu!




As sete premiações recebidas em 2025, que se somaram a outras, junto ao reconhecimento que o coloca entre os maiores instrumentistas do mundo, corrobora o quanto os anos que sucederam aquele instante ao lado de Seu Jeremias, deram muito certo.


“A gente toda hora tá produzindo algo que venha do coração, uma música que tem a ver com aquilo que eu acredito (…) Eu me sinto sempre nadando contra a maré, à parte do mercado.

E apesar do Brasil ser uma terra da canção, é muito legal que a gente tenha muitos bons cancioneiros, né?

Mas não existe uma valorização clara e real da música instrumental”, ressalta, em conversa exclusiva com a Folha de Pernambuco, Amaro Freitas, pianista, viajante e embaixador da arte de um país para o mundo.


Só ano ano passado, foram 96 shows, sendo 49 internacionais, com destaque para a apresentação no Blue Note Jazz Festival, em Tóquio, e no Winter Jazz Festa, em Nova York.


Europa 2026

A propósito, para 2026, Amaro segue em agenda intensa e internacional, com passagens por França, República Tcheca, Áustria, Noruega, Itália e Alemanha, entre outros países.

“Metade da turnê é piano solo, metade é com um trio. É uma agenda só europeia”, conta Amaro que, claro, também subirá em palcos do Japão: “Tem coisa se desenhando para lá, de novo”, adianta. E, quiçá, do Brasil – incluindo Recife, claro.


“Vindo de Nova Descoberta, sendo um homem negro nordestino, brasileiro… Tenho a oportunidade de circular o mundo, de ser premiado e de continuar morando aqui (no Recife). Qual foi o último artista do Brasil, pernambucano, que morou na sua cidade? Isso é uma coisa de minha geração”, reflete Amaro.


O pianista pernambucano até acha “legal pra caramba” degustar uma carbonara na Itália e/ou um hambúrguer em Nova Iorque, é o cheiro e o gosto da galinha guisada de Dona Rosilda, sua mãe, o que de fato deseja quando está em circulação pelo mundo.


Crédito: Matheus Ribeiro/Folha de Pernambuco


“Ter meu sobrinho Kaleb todo melado de barro pulando em cima de mim, isso não tem preço. E essas coisas ficam mais acentuadas quando o seu tempo é curto ao lado deles”, complementa ele que, aliás, segue em fase de despedida com turnês do seu “Y’Y” (2024).

O seu quarto disco de carreira tomado por uma imersão física e espiritual experienciada por ela na Floresta Amazônica, e com um “Viva Naná” em uma das faixas – saudado pela águas sonoras que perfazem o trabalho.


“É um disco que me traz ao lugar mais inventivo que eu pude ser”, rememora.


Antes de “Y’Y”, absolutamente ovacionado internacionalmente, inclusive no Japão, e destacado por veículos como The New York Times (Estados Unidos) e The Guardian (Inglaterra), Amaro Freitas estreou com “Sangue Negro” (2016), para depois chegar com “Rasif” (2018) e “Sankofa” (2021).

E nesta última quinta-feira (15), as plataformas de música receberam “Criolo, Amaro e Dino D’Santiago”, álbum que reafirma, em encontro, artistas de importância para a música negra contemporânea.


Por sinal, o próximo trabalho de Amaro Freitas – em fase de elaboração, previsto para 2027, “ (…) vai ser, talvez, o grande disco da minha vida”, segundo o próprio que, no auge de um fazer artístico irretocável, segue em tom plácido para falar de si e do primeiro piano, um “senhor piano”, adquirido há mais ou menos um ano.


“Antes, eu precisava morar. Depois veio o meu primeiro piano”, conta o percussionista do piano preparado ‘a la’ John Cage – músico americano que brincava de criar sons estonteantes com o instrumento, junto a pregos, parafusos e madeira, entre outros objetos.

Amaro também se utiliza da técnica e usa, por exemplo, prendedor de roupa, sementes e ibô para se juntar às teclas da sua ferramenta de trabalho, a mesma que outrora ele resolveu “sentar e estudar” e se tornar um mestre.

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